Quando foram divulgados os resultados do Enamed 2025, o país entrou em alerta: cerca de 3 em cada 10 cursos de medicina apresentaram desempenho considerado insatisfatório, levando o Ministério da Educação a anunciar medidas de supervisão e sanções.
A reação foi imediata — e compreensível.
Ninguém quer ser atendido ou confiar sua saúde, a um profissional mal formado.
Agora vem a pergunta que incomoda:
por que não reagimos com a mesma indignação em relação a outros cursos e áreas igualmente críticas?
Vou pedir licença para falar com mais propriedade sobre a área em que atuo: Gestão Organizacional.
Uma área de extrema importância e relevância para o país e para as pessoas, mas que recebe pouca atenção — muitas vezes por desconhecimento do quão técnica, complexa e estratégica ela é.
A gestão exige formação teórica sólida e prática consistente, antes que esses profissionais sejam lançados ao mercado.
Por isso, repito a pergunta e justifico a afirmação feita há pouco:
por que não reagimos com a mesma indignação quando empresas quebram, entram em recuperação judicial ou “morrem” lentamente por má gestão?
As empresas são o motor do país.
Geram renda, empregos e sustentam a economia.
Afinal, como o país se mantém?
Por meio dos impostos gerados pelas empresas.
Como a imensa maioria das pessoas sobrevive e realiza seus sonhos?
Por meio dos empregos criados pelas empresas.
Obviamente o Estado não consegue gerar empregos públicos para todos.
Inclusive, os próprios empregos públicos são sustentados pelos impostos pagos pelas empresas (e também pelas pessoas físicas, que só conseguem pagar impostos porque têm emprego).
E o que dizer dos gestores públicos que, se tivessem real noção da complexidade da gestão, talvez priorizassem menos a política — ou melhor, a politicagem — e mais a boa administração?
Talvez começassem pelo óbvio: educação básica de qualidade, onde tudo começa.
Onde se formam cidadãos críticos, pensantes e capazes de tomar decisões mais coerentes no futuro.
E deixo claro: não se trata de tomar partido político ou gerar polêmica.
Nenhum governo, de qualquer espectro ideológico, levou a educação básica verdadeiramente a sério.
Se por descaso, incompetência ou conveniência, fica a reflexão incômoda:
uma população menos crítica é mais fácil de ser conduzida como massa de manobra.
Mas voltando às empresas.
A lógica que todo mundo entende (mas ignora nos negócios):
Quando sentimos uma dor de cabeça leve, às vezes nos automedicamos.
Quando o problema é, minimamente mais sério, procuramos um médico.
Quanto maior o risco, maior o rigor técnico exigido.
Estranhamente, quando o assunto é empresa, muita gente age como se fosse o oposto.
O paradoxo da gestão empresarial: crítica, complexa… e tratada como “simples”.
As empresas lidam diariamente — ou deveriam lidar, por meio de seus gestores — com:
• fluxo de caixa, capital de giro e endividamento;
• riscos tributários, trabalhistas e societários;
• pressão competitiva e mudanças constantes de mercado;
• empregos, famílias e cadeias inteiras de fornecedores;
• ambientes cada vez mais instáveis e imprevisíveis;
• Entre outros temas diversos…
Ou seja, gerir (planejar, executar, controlar, corrigir etc) finanças, pessoas, marketing, processos empresariais, inovação e modelos de negócio etc; dialogar com contabilidade, jurídico e diversas outras áreas; buscar alinhamento, consenso e otimização de recursos e energia — tudo isso para gerar resultados, pelo menos, acima da média.
Mesmo assim, ainda é comum ouvir:
• “Gestão é feeling”;
• “É só vender mais”;
• “É só cortar custo”;
• “Sempre fiz assim”.
O resultado aparece tarde demais:
o caixa trava, o crédito some e a empresa — que operava sem instrumentos adequados de gestão — descobre que está em dificuldade.
Geralmente, tarde demais.
O escândalo do Enamed 2025 revela uma verdade estrutural
O Enamed 2025 foi estruturado como uma avaliação nacional da formação médica, passando a orientar supervisões e punições a cursos com baixo desempenho.
O ponto central não é atacar instituições específicas, mas compreender o alerta estrutural:
• expansão acelerada de cursos sem o devido crivo qualitativo;
• guiada por lógica de mercado (volume de vagas);
• com pouco rigor teórico e pouco contato real com a prática.
O risco sistêmico aumenta — e quem paga é a sociedade.
Tão grave quanto a queda das notas dos cursos de medicina é a falta de rigor nos cursos de administração, que geralmente seguem mais a lógica de mercado — admitir e lançar alunos pagantes no mercado — do que uma lógica de formação teórica sólida aliada a prática real e responsável.
E não há diferença no tipo de impacto:
• um médico mal formado pode gerar um dano imediato e visível;
• da mesma forma, um gestor mal formado — ou sem formação na área — pode gerar danos que, embora muitas vezes mais lentos, são igualmente graves, frequentemente irreversíveis e em cadeia:
o empresas quebram;
o famílias perdem patrimônio;
o empregos desaparecem;
o fornecedores quebram junto.
E isso raramente vira “escândalo nacional”.
Se a medicina tem avaliação, supervisão e sanção, por que a gestão não tem “residência”?
Na medicina, a formação prática supervisionada é regra: internato, residência e prática clínica real.
Por isso, quando a qualidade da formação médica é questionada, o debate público explode.
Em administração, a realidade costuma ser outra:
• muita teoria — nem sempre bem transmitida;
• pouca ou nenhuma prática real;
• escassa exposição a cenários de crise;
• quase nenhuma vivência de caixa, dívida, negociação com bancos, risco jurídico e governança.
O mundo real vira a “residência”.
A empresa vira o laboratório.
Sem supervisão.
Recuperação judicial não é causa. É sintoma.
O Enamed 2025 escancarou um ponto essencial:
formar sem rigor em áreas críticas gera consequências graves.
Nos negócios, o equivalente é claro.
Empresas raramente quebram “do nada”.
Elas chegam à recuperação judicial e à falência após um ciclo típico:
• crescimento desorganizado;
• falta de controles e indicadores confiáveis;
• decisões sem base técnica;
• endividamento mal estruturado;
• ausência de governança e gestão de riscos;
• geralmente não sabem nem o modelo de seus negócios, não estão realmente monitorando o mercado, pesquisando o avaliando inovações, entre outros diversos.
A crise aparece no caixa, mas nasce na gestão.
O que explica o aumento de empresas em dificuldade no Brasil?
Se a sociedade se indigna com notas baixas na medicina, deveria se indignar da mesma forma com:
• a banalização do ensino de gestão;
• a crença de que “qualquer um administra”;
• a ausência de método e orientação profissional;
• o custo social invisível: empresas destruídas e empregos perdidos.
No fim, gestão empresarial séria é infraestrutura crítica, assim como saúde.
Se você é empresário ou gestor: sua empresa está em “risco silencioso”?
Mesmo com lucro no DRE, alguns sinais clássicos indicam alerta:
• caixa operando sempre no limite;
• dependência excessiva de poucos clientes ou fornecedores;
• dívida crescendo para sustentar a operação;
• ausência de indicadores confiáveis e rotina de gestão;
• decisões estratégicas tomadas sem números e cenários.
Se você identificou dois ou três desses pontos, não é paranoia.
É prevenção — exatamente como deveria ser na medicina.
Este é um tema sério demais para ser ignorado.
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Se o Brasil se preocupa — com razão — com médicos mal formados, por que aceita com tanta naturalidade empresas sendo conduzidas sem rigor técnico, mesmo sabendo que isso destrói negócios, empregos e famílias inteiras?

