
Wall Street rompe 7.800 pontos enquanto o Ibovespa emenda nove quedas seguidas. O JPMorgan rebaixa o Brasil dentro da própria América Latina. A Casas Bahia perde R$ 10,1 bilhões, fecha 298 lojas e admite que pode voltar à recuperação judicial. O Nubank ultrapassa US$ 1 bilhão de lucro e supera os bancões em rentabilidade. O Brasil aciona formalmente a Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos. A campanha eleitoral começa. E o Centro de Previsão Climática americano avisa: há 69% de chance de o El Niño do último trimestre ser o mais forte desde 1950.
Os cinco fatos que definem a semana:
1. O descolamento. O Ibovespa caiu 3,23% na semana, aos 166.934 pontos, na nona sessão consecutiva de baixa — a pior sequência desde 2023 —enquanto o S&P 500 superou 7.800 pontos pela primeira vez. Estrangeiros retiraram R$ 13,56 bilhões da B3 em agosto até o dia 12. O JPMorgan rebaixou as ações brasileiras para neutro dentro da América Latina e cortou a projeção do Ibovespa de 190 mil para 185 mil pontos.
2. A solvência entrou em cena. A Casas Bahia reportou prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre — oitavo trimestre consecutivo no vermelho — , fechou 298 lojas, demitiu entre 1,9 mil e 3 mil pessoas e admitiu formalmente que estuda nova recuperação extrajudicial ou judicial. A empresa vinha melhorando operacionalmente. O que a derrubou foi o custo financeiro e o vencimento das carências da renegociação de 2024.
3. O Fed mudou de doutrina, não só de presidente. Kevin Warsh, empossado em 22 de maio, abandonou o forward guidance detalhado e criou cinco forçastarefa para redesenhar o banco central — uma delas com Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central do Brasil. Seu primeiro discurso em Jackson Hole, em 28 de agosto, carrega valor informacional que os pronunciamentos da era Powell não tinham. O tema do simpósio: pagamentos e inovação financeira — exatamente o terreno em que o Pix é citado pelos Estados Unidos para justificar tarifas contra o Brasil.
4. A disputa comercial virou processo jurídico. Em 13 de agosto, a Camex abriu formalmente o rito da Lei da Reciprocidade. Somados os prazos da Camex e da Organização Mundial do Comércio, a janela de decisão cai entre outubro e dezembro — sobreposta à eleição.
5. O clima foi reclassificado. O Centro de Previsão Climática americano elevou para mais de 90% a probabilidade de El Niño muito forte em 2026/27 e atribuiu 69% de chance a um evento historicamente sem precedentes desde 1950, com pico entre outubro e dezembro.
A orientação prática da semana: acelere a proteção cambial para o quarto trimestre; verifique hoje quando vencem as carências das dívidas renegociadas em2023 e 2024; e, se depende de frete ou fertilizante, contrate antes de setembro.
A semana de 10 a 17 de agosto encerra esse regime —e o que a substitui não é mais simples, é mais difuso. Quatro forças passaram a disputar o comando: a desaceleração americana, a fraqueza doméstica chinesa combinada com exportações agressivas, a divergência entre bancos centrais e o ciclo de capital da Inteligência Artificial. Nem sempre puxam na mesma direção. Às vezes se cancelam. Frequentemente confundem.
O sintoma mais eloquente dessa perda de centro apareceu aqui dentro, e é o fato que organiza esta edição inteira: Wall Street tocou máximas históricas na mesma semana em que o Ibovespa emendou a nona queda consecutiva. Não houve choque externo capaz de explicar isso. Não houve colapso de commodity, nem crise bancária, nem eventogeopolítico novo. Houve um prêmio de risco doméstico sendo cobrado de forma explícita — num país que acabou de trazer a inflação de doze meses de volta ao intervalo da meta e iniciou um ciclo de corte de juros.
O mercado formalizou o diagnóstico. Conforme o InfoMoney, o JPMorgan rebaixou as ações do Brasil para neutro dentro da América Latina, reduzindo a projeção do Ibovespa para o fim de 2026 de 190 mil para 185 mil pontos. A justificativa dos estrategistas é a fotografia exata do momento: crescimento mais fraco, deterioração do crédito, juros elevados por mais tempo e volatilidade eleitoral. Quando um banco global rebaixa um país dentro de sua própria região, não está falando de aversão a emergentes. Está falando do Brasil.
E há uma segunda camada, mais concreta e mais dura, que a temporada de balanços expôs. Durante meses tratamos a Selic de 14% como um problema de margem — as empresas ganham menos, o consumo cresce menos, o investimento espera. Nesta semana ficou claro que, para uma parte relevante do tecido empresarial brasileiro, o problema deixou de ser margem e passou a ser solvência. A Casas Bahia é a evidência, e voltarei a ela com o detalhe que o caso merece.
Três fatos novos de natureza estrutural marcaram a semana: o Brasil abriu formalmente o processo de retaliação comercial contra os Estados Unidos; a campanha eleitoral começou oficialmente; e o El Niño foi reclassificado por órgão oficial americano como possivelmente histórico. Nenhum dos três se resolve antes de outubro. E os três desembocam no mesmo trimestre.
É esse o cenário. Vamos aos fatos.
AS PRINCIPAIS NOTÍCIAS DA SEMANA
1. ENERGIA E GEOPOLÍTICA
1.1 Ormuz volta a emperrar — e as exigências iranianas revelam o tamanho do impasse
A expectativa que se formara na semana anterior, de que Irã e Omã estivessem próximos de um mecanismo de ampliação da navegação, não sobreviveu a quarenta e oito horas. Em 11 de agosto, o Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano declarou que o estreito permaneceria fechado enquanto Washington nãoaceitasse as condições de Teerã. Segundo o portal Eixos, o petróleo avançou 1,36% naquele dia, a US$ 88,91 o barril, com o impasse e as travessias ainda em nível deprimido. A lista de exigências iranianas — compensações pelos ataques sofridos, redução ou retirada de sanções, desbloqueio de ativos, limitações à presença militar americana na região e garantias relacionadas ao programa nuclear — confirma o que venho registrando desde julho: Ormuz deixou de ser uma questão de segurança marítima e tornou-se o principal instrumento de barganha geopolítica do Irã.
A consequência prática dessa mudança de natureza é que o mercado continuará reagindo a cada rumor de negociação, mas nenhuma negociação produzirá solução enquanto os temas de fundo não forem resolvidos. Quem estiver montando cenário de normalização para o quarto trimestre está apostando na resolução simultânea de cinco questões que ocupam Washington e Teerã há duas décadas. Na sexta-feira (14), o Brent do contrato de outubro fechou a US$ 88,52, alta de 1,67% no dia e de aproximadamente 6% na semana — o primeiro ganho semanal em três semanas —, com o impasse somado a ataques a petroleiros da ADNOC: três navios em pouco mais de vinte e quatro horas, atribuídos pelosEmirados ao Irã, conforme InfoMoney e El Economista/EFE.
1.2 A Agência Internacional de Energia piora o quadro de oferta
A AIE divulgou em 12 de agosto um relatório mensal que, na minha avaliação, foi tratado com atenção insuficiente pelo noticiário econômico brasileiro. Ele reordena o cenário de commodities para o resto do ano. Do lado da oferta: para 2026, a agência prevê que a oferta mundial diminuirá 4,3 milhões de barris por dia, mais do que a estimativa anterior de queda de 3,7 milhões, segundo o InfoMoney. Conforme o Diário de Notícias português, projeta média de 102 milhões de barris diários no ano, porque o crescimento de 1,4 milhão de barris/dia na produção das Américas não compensa as perdas do Médio Oriente. Do lado da demanda: a entidade estima que o consumo mundial cairá 1,6 milhão de barris por dia em 2026, contra recuo de 1 milhão projetado no mês anterior.
A demanda deve encolher 2,8 milhões no terceiro trimestre, após queda de 4,9 milhões no segundo, antes de voltar a crescer nos três meses finais do ano. O resultado líquido é o que importa: déficit de 1,8 milhão de barris por dia no terceiro trimestre — maisque o dobro da projeção anterior, de cerca de 800 mil. No ano, conforme levantamento reproduzido pela Pravda PT, a oferta ficará 1,27 milhão abaixo da demanda, e o déficit do terceiro trimestre será o maior desde o quarto trimestre de 2021. E os amortecedores estão acabando. Os estoques globais caíram 2,2 milhões de barris/dia em julho, principalmente por forte redução do volume armazenado no mar, ficando abaixo de 7,9 bilhões de barris ao fim do mês — o menor nível desde abril de 2025. Desde o início da guerra com o Irã, os estoques recuaram 410 milhões de barris. A agência foi explícita ao afirmar que a reabertura do estreito se torna cada vez mais urgente à medida que esses amortecedores se esgotam. Há um detalhe operacional de alta relevância para a Petrobras que merece destaque isolado: a restrição no mercado de derivados levou as margens de refino da Bacia do Atlântico a recordes em julho, quando a demanda sazonal por diesel, querosene de aviação e gasolina esbarrou em falta de oferta e estoques reduzidos. Sobre o quadro físico, conforme o Eixos: a oferta global subiu 2,4 milhões de barris/dia em julho, para 101,5 milhões, mas ainda ficou 6,3 milhões abaixo do nível de um ano antes, com 8,3 milhões de barris/dia da produção do Golfo ainda paralisados. Asexportações regionais recuaram 2,1 milhões, para 15 milhões, com embarques oscilando entre 20 milhões no início de julho e cerca de 12 milhões adiante no mês. Para 2027, a AIE projeta reversão — excedente de 4,61 milhões de barris/dia —, mas a previsão depende da redução das hostilidades no Oriente Médio e da recuperação dos fluxos. A conclusão prática para quem orça: o barril pode continuar abaixo dos picos de março sem que isso signifique folga física. Quem estruturou hedge no primeiro semestre assumindo normalização gradual deve revisar as premissas. E quem opera refino no Atlântico está diante de uma janela de margem excepcional que a maioria dos modelos não capturou.
1.3 OPEP e AIE divergem em mais de dois milhões de barris por dia
A divergência entre as duas principais referências do setor atingiu magnitude incomum, e não é redutível a ruído metodológico. Conforme o jornal português O Económico, a OPEP reduziu para 580 mil barris por dia a previsão de crescimento da procura mundial em 2026, na quarta revisão mensal consecutiva em baixa — queda de aproximadamente 58% em relação ao 1,38 milhãoconsiderado antes da atual sequência de cortes. Apesar da revisão, a OPEP continua a prever crescimento do consumo, enquanto a AIE estima contração de 1,6 milhão e a EIA norte-americana aponta redução próxima de 1,2 milhão. A diferença entre OPEP e AIE supera hoje dois milhões de barris por dia, revelando leituras profundamente distintas sobre o impacto dos preços elevados, da guerra e das perturbações energéticas sobre a economia mundial. Duas instituições olhando o mesmo mercado e chegando a diagnósticos opostos sobre a direção da demanda não é detalhe técnico: é sinal de que ninguém tem visibilidade confiável sobre o preço de 2027. Para empresas brasileiras que precisam orçar combustível, fertilizante e frete para o próximo ciclo, a recomendação é abandonar cenário único e trabalhar com faixas explícitas.
1.4 A China voltou a estocar petróleo — mas por fraqueza, não por força
A China surpreendeu ao voltar a acumular reservas em julho, adicionando aproximadamente 210 mil barris por dia, apesar de importar muito menos petróleo do que antes da guerra — cerca de 8,41 milhões de barris/dia, ainda mais de 3 milhões abaixo do nível pré-conflito.A explicação não é aumento de força econômica. É quase o inverso: o refino chinês diminuiu, refletindo menor atividade e demanda interna, e parte do petróleo disponível pôde voltar aos estoques estratégicos. Vale sublinhar a implicação, porque ela é contraintuitiva: a China está ajudando a impedir uma explosão ainda maior do preço do petróleo não porque esteja consumindo mais, mas porque sua própria economia está demandando menos energia. Para um país exportador de commodities como o Brasil, a distinção é decisiva. O alívio no preço da energia vem no mesmo pacote que o risco no preço do minério e da soja. Não são dois eventos independentes — são a mesma causa vista de dois ângulos.
1.5 Três frentes de risco energético — e uma delas beneficia o Brasil
A guerra na Ucrânia voltou a afetar diretamente a oferta global. Ataques ucranianos interromperam exportações russas pelo Mar Negro, reduziram carregamentos no terminal de Novorossiysk e afetaram os fluxos do Caspian Pipeline Consortium — o CPC Blend cazaque aparece, inclusive, entre as causas do desequilíbrio apontadas pela própria AIE, ao lado do fechamento de Ormuz, do bloqueioamericano às exportações iranianas e dos ataques em Bab el-Mandeb. A consequência comercial merece destaque porque abre uma oportunidade concreta: a Turquia reduziu compras de petróleo russo e passou a diversificar fornecedores, incluindo importações incomuns do Brasil e da Guiana. É a primeira vez, no meu acompanhamento deste ano, que a crise energética abre uma rota de exportação nova e relevante para o petróleo brasileiro fora dos destinos tradicionais. Vale acompanhar se o movimento se converte em contrato de longo prazo ou permanece oportunístico. Em paralelo, um petroleiro danificado próximo a Omã começou a vazar óleo em área que pode produzir um dos maiores acidentes ambientais marítimos das últimas décadas — risco reputacional e regulatório que se espalha por toda a cadeia de navegação, inclusive para afretadores brasileiros. O mapa energético mundial passou a apresentar três zonas simultâneas de risco: Golfo Pérsico, Mar Vermelho e Mar Negro. Isso eleva estruturalmente seguro marítimo, redundância logística, estoques de segurança, necessidade de múltiplos fornecedores e volatilidade de prazo de entrega. Para o exportador brasileiro, a leitura é uma só: o custo de chegar ao cliente subiu de forma permanente, não cíclica. Quem ainda trata frete eseguro como linha variável de curto prazo está subestimando o próprio custo de servir.
2. ESTADOS UNIDOS — A “ERA WARSH” COMEÇA EM JACKSON HOLE
2.1 A mudança institucional no Fed
Kevin Warsh é o 17º presidente do Federal Reserve, empossado em 22 de maio de 2026, sucedendo Jerome Powell no cargo e Stephen Miran na cadeira do Conselho de Governadores. Warsh já integrara o Conselho entre 2006 e 2011, quando foi o principal elo do Fed com os mercados durante a venda do Bear Stearns ao JPMorgan e a falência do Lehman Brothers. É, portanto, alguém com memória operacional de crise sistêmica no comando. E não está apenas ocupando a cadeira — está redesenhando a instituição. Conforme CNN Business e CNBC, em 9 de julho ele anunciou os integrantes de cinco forças-tarefa encarregadas de examinar os pilares da política monetária americana: Comunicação, Política de Balanço, Dados, Produtividade e Empregos, e o regime de metas de inflação.A composição foge inteiramente do padrão acadêmico habitual e diz muito sobre a doutrina em construção. Ao lado de economistas como Raj Chetty (Harvard), Kevin Murphy (Chicago), Charles I. Jones (Stanford) e Karen Dynan (Harvard), sentam-se Doug McMillon, ex-presidente-executivo do Walmart, Marc Andreessen, cofundador da Andreessen Horowitz, e Asha Sharma, vice-presidente executiva e responsável pelo Xbox na Microsoft.
Um banco central chamando um varejista, um capitalista de risco e uma executiva de games para discutir dados e produtividade é, por si só, uma declaração de método. E aqui está o detalhe que interessa diretamente ao Brasil: a força-tarefa de Comunicação tem entre seus três membros Arminio Fraga, fundador da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central do Brasil, ao lado de Peter Fisher (Universidade de Washington) e Mervyn King (ex-Banco da Inglaterra). Um brasileiro está sentado à mesa que vai redesenhar a forma como o Fed se comunica com o mundo — num momento em que Brasília e Washington disputam tarifas. É um canal informal de leitura que vale mapear. O efeito prático da reforma já é mensurável. Segundo a CNBC, Warsh alterou a comunicação do Fed: as autoridades passaram a oferecer menos orientação prospectiva sobre o rumo da política e a focar mais na “função de reação” — as condições sob as quaisajustarão os juros. O comunicado pós-reunião de junho foi notavelmente mais curto que as versões anteriores. A consequência de mercado precisa ser internalizada por quem opera: com o fim do forward guidance detalhado, cada pronunciamento relevante de Warsh passa a carregar valor informacional genuíno — e, portanto, potencial de choque — que os discursos telegrafados da era Powell não tinham. O regime de volatilidade mudou, ainda que a taxa de juros não tenha se movido.
2.2 Jackson Hole: o evento decisivo — e o tema é constrangedor para o Brasil
O simpósio ocorre de 27 a 29 de agosto, no Jackson Lake Lodge, no Parque Nacional de Grand Teton. Conforme o Regards of Wallstreet, Warsh faz o discurso principal na manhã de sexta-feira, 28 de agosto — sua primeira intervenção no simpósio como presidente do Fed —, diante de cerca de 120 banqueiros centrais, economistas e autoridades de mais de setenta países. Warsh declarou a jornalistas após a reunião de 29 de julho que quer que seu discurso “enquadre as grandes questões”, observando que o ciclo constante de reuniões e coletivas cria tendência a debates míopes sobre movimentos de um quarto de ponto,em vez das forças estruturais que moldarão a próxima década. E foi explícito num ponto que todo operador deveria anotar: o Fed “não é limitado pelos preços de mercado”. Traduzindo: a probabilidade que o mercado precifica não vincula o comitê. O tema do simpósio deste ano é “Inovação Financeira: Implicações para Pagamentos e Política”. E aqui a conexão com o Brasil é direta e desconfortável. Como detalho adiante, as políticas brasileiras de comércio digital e serviços de pagamentos eletrônicos estão entre os motivos formalmente citados pelo Representante de Comércio dos Estados Unidos para impor a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Ou seja: o Pix e o arcabouço regulatório digital brasileiro são simultaneamente objeto de disputa comercial com Washington e tema central do maior encontro de banqueiros centrais do planeta — com um ex-presidente do Banco Central brasileiro na força-tarefa de comunicação do Fed. Vale acompanhar de perto se o Brasil é citado, e em que chave: como caso de sucesso de inovação em pagamentos ou como problema regulatório. É um dos raros momentos em que a política monetária global e uma disputa comercial bilateral se cruzam no mesmo palco, na mesma semana.Há ainda uma coincidência de calendário que amplifica tudo: a Nvidia divulga resultados na noite de 26 de agosto. O maior evento de resultados do mercado global e o maior evento de política monetária global caem com trinta e seis horas de diferença — e no meio deles começa o horário eleitoral gratuito no Brasil, em 28 de agosto. Para quem tem posição relevante em ativos brasileiros, é uma janela de risco concentrado que deve ser dimensionada antes, não durante. Jackson Hole ocorre dezenove dias antes da decisão do FOMC de 16 de setembro.
2.3 A inflação americana desacelera e desarma, parcialmente, a aposta de aperto
O dado central da semana global veio em 12 de agosto. Conforme a Exame e o Bureau of Labor Statistics, o índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos subiu 0,1% em julho, após queda de 0,4% em junho, com inflação de 3,4% em doze meses. O núcleo, que exclui alimentos e energia, avançou 0,2% no mês e desacelerou de 2,6% para 2,5%. Segundo a CNBC, todas as leituras vieram em linha com o consenso Dow Jones. A composição importa. A queda de energia foi determinante: recuo de 1,5% no mês, após queda de 5,7% em junho — ainda que a alta anual permaneçaem 14,7%, refletindo os ganhos anteriores, incluindo o salto de 10,9% em março, logo após o início dos ataques contra o Irã. Habitação respondeu por cerca de dois terços do avanço do índice cheio. É preciso ser claro sobre a natureza do debate americano neste momento, porque ele é frequentemente mal descrito: a discussão não é sobre corte de juros. É sobre uma eventual alta. Na reunião de 29 de julho, o FOMC manteve a taxa em 3,50% a 3,75% por nove votos a três, com os dissidentes — Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan — votando por elevação imediata. Como observou o GoldSilver, esse nível de dissidência na apenas segunda reunião de Warsh como presidente sinaliza um comitê vocal e dividido. O que aconteceu nesta semana foi o enfraquecimento dessa aposta de aperto — não o surgimento de uma aposta de afrouxamento. A trajetória: Momento Antes do CPI Probabilidade de alta em setembro Fonte ~50% a 70% Bloomberg / BitNotíciasMomento Após o CPI (12/08) Após o CPI (leitura alternativa) Após o PPI (13/08) Probabilidade de alta em setembro 42% 39% Fonte CME FedWatch, via CNBC GoldSilver 32% Após vendas no varejo (1517/08) 30% BitNotícias TradingKey Conforme o Monitor do Mercado, o índice de preços ao produtor ficou estável em julho na comparação mensal, com núcleo em alta de 0,2% no mês e 4,2% em doze meses. Com o dado, a maior probabilidade de alta — que havia migrado para outubro após o CPI —passou para dezembro, com 68,4% de chances. O resultado veio depois de perdas inesperadas de empregos no mês, reforçando os argumentos para manutenção na reunião de 15 e 16 de setembro.
2.4 Vendas no varejo confirmam o enfraquecimento
Nesta segunda-feira, 17 de agosto, os dados de varejo americano vieram abaixo do esperado, reforçando o quadro de arrefecimento. Segundo a TradingKey, com o esfriamento simultâneo de inflação, emprego e gastos, a probabilidade de alta em setembro caiu para 30%. O S&P 500 superou 7.800 pontos, impulsionado por expectativas de pouso suave e ganhos de eficiência atribuídos à Inteligência Artificial. O mercado, nas palavras da própria análise, migra de “se deve retomar o aumento dos juros” para “se deve manter a taxa inalterada”. A mesma leitura alerta que uma recuperação nos preços do petróleo e um repique da inflação ainda podem perturbar a precificação de setembro. E há um sinal de longo prazo que merece atenção especial: os títulos de trinta anos atingiram o maior custo de captação desde 2001, refletindo déficits fiscais e riscos de longo prazo, mesmo com os rendimentos de curto prazo recuando. A leitura estrutural é a seguinte: a combinação de aperto quantitativo, reavaliação do modelo de metas de inflação e Treasuries longos com juro elevado funciona como uma barreira que retém capital internacional nos Estados Unidos e drena liquidez dos emergentes. É, provavelmente, a explicação maisparcimoniosa para a saída de R$ 13,56 bilhões da B3 em agosto — mais econômica, inclusive, do que atribuir tudo ao risco eleitoral brasileiro. O Fed ganhou tempo. Não resolveu o problema. E o mercado cobra cada vez mais caro para financiar o Tesouro americano no longo prazo — o que, somado ao déficit recorde de julho, de US$ 432 bilhões, sugere que a questão fiscal americana voltará ao centro do palco em algum momento de 2027.
2.5 O debate da estagflação moderada
Nem todos compraram a leitura benigna, e a divergência entre economistas é relevante o suficiente para ser registrada com nomes. Conforme apuração do InfoMoney, Felipe Mecchi, economista do C6 Bank, avalia que a resiliência do mercado de trabalho americano, aliada ao núcleo de preços de serviços que subiu 3% em um ano, forma uma combinação que deve levar o Fed a voltar a subir os juros já em setembro. Gustavo Sung pondera que as tensões no Oriente Médio e o Brent próximo a US$ 90 seguem como risco, fundamentando projeção de pelo menos uma alta até o fim de 2026. A própria análise do Goldman Sachs salienta que os riscos altistas para a inflação seguem vivos caso as disrupções no mercado de petróleo se mostrem persistentes.”O número reduz a necessidade de um aperto monetário adicional imediato, mas não é suficientemente benigno para encerrar a discussão sobre juros”, resumiu Sidney Lima. É a síntese mais honesta que li na semana. Os Estados Unidos combinam hoje inflação de 3,4%, mercado de trabalho enfraquecendo, consumo desacelerando, tarifas encarecendo insumos, petróleo volátil e investimento extraordinário em Inteligência Artificial. Isso produz risco de estagflação moderada: inflação ainda acima da meta convivendo com menor crescimento. Não é o cenáriobase. Mas deixou de ser hipótese teórica, e o Fed terá de escolher entre combater uma inflação acima de 2% e evitar aprofundar uma desaceleração já visível no emprego e no consumo. É provavelmente a principal variável monetária mundial para setembro.
2.6 Wall Street forte apesar da economia real mais fraca — e o alerta que veio de Frankfurt
Em 12 de agosto, S&P 500 e Nasdaq avançaram novamente, puxados por empresas de infraestrutura de Inteligência Artificial. A CoreWeave subiu 19% após resultados fortes e elevação das projeções de investimento; companhias de data centers avançaram em bloco, com Nvidia e Micron acompanhando.A discussão de mercado mudou de natureza, e a mudança é importante: deixou de ser “IA é uma bolha?” e passou a ser “quem capturará economicamente a onda de IA?”. A Reuters identificou migração de capital dos fabricantes de chips para hyperscalers, nuvem, infraestrutura de data centers, fornecedores de energia, armazenamento, redes e software empresarial. Microsoft e Amazon ajudaram a reduzir a preocupação com o investimento gigantesco da indústria ao mostrar crescimento de receita e demanda de nuvem suficientes para sustentá-lo. A escala desta fase ficou clara com a informação de que a Nvidia está envolvida numa iniciativa com grandes instituições financeiras para mobilizar potencialmente mais de US$ 500 bilhões destinados a infraestrutura de IA — ordem de grandeza comparável aos maiores programas de infraestrutura do planeta. Isso demonstra que a Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma indústria de software. Tornou-se também uma indústria de energia, terrenos, construção civil, transmissão elétrica, refrigeração, data centers, financiamento estruturado, chips e telecomunicações. Para o Brasil, essa transição abre oportunidades muito maiores do que simplesmente desenvolver aplicações — e explica por que o setorelétrico brasileiro aparece cada vez mais em teses de crescimento estrutural. Contra a corrente, um estudo publicado pelo Banco Central Europeu alertou que uma correção significativa nas ações de tecnologia americanas é provável em algum momento, ainda que impossível de datar. O argumento não é que a IA deixará de gerar valor: é que as expectativas estão muito elevadas, os valuations historicamente altos, os investimentos enormes e os mercados concentrados em poucas empresas. O BCE destacou que famílias e instituições europeias possuem centenas de bilhões de euros investidos nas principais companhias americanas de tecnologia, criando risco de contágio financeiro internacional. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: a IA pode transformar a economia e algumas ações ligadas à IA podem estar excessivamente valorizadas. Para o empresário brasileiro que avalia investir na tecnologia, essa distinção é operacionalmente decisiva — significa avaliá-la pelo retorno no próprio negócio, não pela narrativa do mercado acionário. A leitura estrutural que venho construindo há semanas:Fase da IA Conteúdo Onde estão as empresas brasileiras 1ª 2ª Chips e modelos fundacionais Data centers e nuvem Praticamente ausentes 3ª 4ª Aplicações empresariais, agentes, automação Ganhos de produtividade distribuídos pela economia Entrando (energia, terrenos, construção) É aqui que a maioria entra agora Horizonte de 2027 a 2030
3. CHINA E EUROPA
3.1 China confirma desaceleração — a fotografia de duas velocidades
Os dados de julho, divulgados nesta segunda-feira, foram das notícias mais importantes da semana para a indústria brasileira: produção industrial em alta de 4,5% (contra 5,3% em junho e abaixo dasexpectativas), vendas no varejo com avanço de apenas 0,6% (contra previsão próxima de 1,5%) e investimento em ativos fixos em queda de 6,7% nos primeiros sete meses do ano. A deterioração do investimento é progressiva e sistemática, e a série ajuda a entender a gravidade: queda de 1,6% até abril, 4,1% até maio (contra expectativa de 2%), 5,7% até junho, 6,7% até julho. É uma linha descendente contínua, sem sinal de estabilização. O padrão é o mesmo que registro desde maio: crescimento em duas velocidades, com fábricas impulsionadas por exportações surpreendentemente resilientes e demanda interna enfraquecendo em meio a uma recessão plurianual no mercado imobiliário. Conforme a CNN Brasil, o investimento global em Inteligência Artificial e a demanda por tecnologias relacionadas ajudaram o maior fabricante do mundo a compensar o impacto que muitos esperavam da guerra com o Irã — a produção industrial de alta tecnologia chinesa cresceu 15,1% em maio, e o consumo de serviços avançou 5,4% entre janeiro e maio, melhor que as vendas de bens. O pano de fundo macroeconômico é severo: segundo o Safra, o PIB da China cresceu 0,9% no segundo trimestre de 2026, o pior desempenho trimestral desde 2011, excluída a pandemia, ficando abaixo dameta anual de 4,5% a 5,0% estabelecida pelo governo. Os estímulos implementados até agora não restauraram a confiança das famílias nem do setor privado.
3.2 “China Shock 2.0” — por que isto pode importar mais que Ormuz no longo prazo
Esta é a tendência que mais merece entrar no radar do planejamento industrial brasileiro de médio prazo —e a que menos atenção recebe, provavelmente porque não produz manchete diária. A China está consumindo menos, investindo menos, sofrendo com imóveis e exportando mais. A aritmética é simples e implacável: excesso de capacidade industrial está sendo enviado para o exterior. Conforme o Safra, no primeiro semestre de 2026 a produção total de automóveis no país alcançou 15 milhões de unidades, com aproximadamente um terço destinado ao exterior; as exportações superaram 1 milhão de unidades apenas em junho, reforçando o setor externo como principal vetor de crescimento — em contexto de ganhos contínuos de produtividade industrial, especialmente em transição energética e manufatura de maior valor agregado. O Brasil concorre cada vez mais com produtos chineses em máquinas, automóveis, veículoselétricos, baterias, eletrônicos, equipamentos solares, telecomunicações, bens de capital e produtos industriais em geral. Ao mesmo tempo, precisa da China como compradora de soja, minério e petróleo, e como investidora e fornecedora de tecnologia e infraestrutura. A relação é simultaneamente complementar e competitiva — e essa ambiguidade não se resolve com política tarifária. Para a indústria brasileira, o problema não é “produto chinês barato”. É competir contra grupos que combinam escala, acesso privilegiado a capital, tecnologia, integração vertical, apoio estatal e cadeias globais consolidadas. É uma discussão de produtividade e modelo de negócio, não de alíquota. Empresas que responderem a isso apenas pedindo proteção estarão comprando tempo, não competitividade — e o tempo comprado desta forma costuma ser caro.
3.3 Europa vai no sentido contrário Enquanto os Estados Unidos reduzem a probabilidade de aperto, a Europa segue na direção oposta.
Uma pesquisa da Reuters com economistas mostrou que aproximadamente 83% esperam que o Banco Central Europeu eleve a taxa de depósito para 2,50% em setembro. A inflação da Zona do Euro está em tornode 2,9%, ainda acima da meta de 2%, com custos energéticos pressionados pelo conflito. A economia europeia, contudo, mostrou resiliência, crescendo cerca de 0,4% no trimestre. O quadro europeu combina crescimento baixo, inflação acima da meta, energia cara, maior gasto militar e investimento em infraestrutura. Defesa, tecnologia industrial, redes elétricas e automação permanecem relativamente favorecidas. A consequência para fluxos globais é relevante e pouco comentada: se o BCE sobe enquanto o Fed para, o diferencial de juros se comprime a favor do euro. Isso pode alterar a direção do capital que hoje sustenta o dólar — e, indiretamente, o carry que sustenta o real. É um vetor a monitorar, porque atua na direção contrária à barreira dos Treasuries longos.
4. BRASIL: MACROECONOMIA
4.1 IPCA volta ao intervalo da meta — e a distinção que quase todos embaralham
O IBGE informou em 11 de agosto que o IPCA subiu apenas 0,07% em julho, contra 0,16% em junho. No acumulado de doze meses, recuou de 4,64% para 4,44%, retornando ao intervalo de tolerância da meta de 3%, cujo teto é 4,5%.A composição importa mais que o número cheio. Alimentação e bebidas recuaram 0,67%, ajudando de forma decisiva. Na direção oposta, conforme a Exame, a conta de luz subiu 3,09% e foi a principal pressão individual do mês, enquanto quedas de tomate, batata e combustíveis ajudaram a conter o índice. Aqui é preciso fazer uma distinção que a cobertura embaralha e que muda completamente o diagnóstico: O IPCA acumulado em doze meses até julho é de 4,44% — dentro da banda de tolerância. A projeção do Boletim Focus para o IPCA do anocalendário de 2026 roda em 5,02% — acima do teto. São duas coisas diferentes, e a segunda é a que o Copom persegue. Quem confundir as duas conclui erradamente que o problema inflacionário brasileiro está resolvido. Não está. Serviços, expectativas, risco fiscal e clima continuam relevantes — e o próprio Bradesco, ao projetar dissipação dos choques do primeiro semestre, fez a ressalva explícita de que isso vale “antes dos efeitos do El Niño”. Registro ainda a nuance para quem opera: o dado de julho ficou ligeiramente acima da mediana de mercado, que trabalhava com algo próximo daestabilidade. Foi boa notícia de nível e pequena decepção de margem — o que ajuda a explicar por que a curva de juros não cedeu como se poderia esperar.
4.2 A ata do Copom endureceu o tom — e o mercado se dividiu
O Banco Central divulgou em 11 de agosto a ata da 280ª reunião do Copom, realizada em 4 e 5 de agosto, que cortou a Selic de 14,25% para 14,00% ao ano — quarto corte consecutivo, por decisão unânime do colegiado presidido por Gabriel Galípolo. A ata endureceu o tom de forma inequívoca. O parágrafo 9 afirma que, em ambiente de expectativas de inflação desancoradas como o atual, exige-se restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado, com projeção de inflação de 5,1% em 2026 no cenário de referência. A leitura dos analistas convergiu para mais um corte, mas com ressalvas importantes. Conforme o InfoMoney, o Bradesco avaliou que “a ata confirmou um Banco Central dependente dos dados, sem se comprometer com a trajetória futura de juros, dado um contexto de elevada incerteza”, e projetou continuidade da moderação da atividade com a inflação corrente mostrando dissipação dos choques do primeiro semestre — antes dos efeitos climáticos.O banco espera mais um corte, para 13,75%, e acrescentou: “confirmado o nosso cenário e com câmbio próximo da estabilidade, é provável que os cortes continuem em 2026”. Gustavo Cruz, estrategista-chefe da Sincra, resumiu a leitura de risco: “a decisão mostra que eles devem continuar a cortar, mas que poderiam pausar se as condições econômicas piorarem”. Segundo o Money Times, o Citi também migrou para 13,75% em setembro, avaliando que o Copom deu mais peso ao comportamento recente da inflação do que à piora das expectativas de médio e longo prazo. Essa é a tensão central do momento: a ata fala como um comitê preocupado com expectativas; a decisão age como um comitê olhando a inflação corrente. Quem estiver planejando estrutura de capital deve trabalhar com o cenário mais conservador dos dois. A mensagem operacional permanece a que venho repetindo desde julho, e que agora ganha peso empírico com o caso Casas Bahia: o Brasil entrou num ciclo de redução de juros, mas está muito longe de um ciclo de dinheiro barato. Uma Selic de 13,75% ou 14% continua entre as mais altas do mundo em termos reais, e a diferença entre as duas não salva um balanço alavancado.
4.3 O Boletim Focus: a série que consolida o cenário
O Relatório Focus é publicado às segundas-feiras e reúne as expectativas coletadas até a sexta anterior. A série das últimas semanas é o melhor mapa disponível do consenso brasileiro: Indicador (fim de 2026) Focus de 03/08 Selic IPCA 13,75% (queda de 14,00%) Focus de 10/08 13,75% (mantida) 5,03% (de 5,12%) PIB Dólar 1,99% 5,02% 1,98% R$ 5,20 IGP-M IPCA administrados — R$ 5,20 4,47% (de 4,54%) — 4,91% (de 4,93%) Para os anos seguintes, conforme a XP e o InfoMoney: Selic de 12,00% em 2027 e 10,50% em2028; PIB de 1,52% em 2027, revisado para baixo de 1,57%, e 2,0% em 2028; dólar de R$ 5,28 em 2027. Dois pontos merecem destaque analítico. Primeiro, a virada de 3 de agosto foi estrutural. Conforme registrou Edgar Araújo, presidenteexecutivo da Azumi Investimentos, ao Monitor Mercantil, foi a primeira vez que as projeções passaram a incorporar dois cortes de 0,25 ponto até o fim de 2026, com a mediana recuando de 14% para 13,75%. E o mesmo analista fez a ressalva que continua válida: “a inflação projetada acima do teto da meta ainda impede uma sequência automática de cortes”. Segundo, o quadro fiscal se deteriorou no mesmo período. O Focus trabalhava com déficit primário estimado em 0,50% do PIB, mas — e este é o dado mais relevante da semana no campo fiscal — conforme o Money Times, os economistas consultados pelo próprio Ministério da Fazenda revisaram para cima o déficit primário e a dívida em 2026 e 2027. Não é a oposição levantando o tema. É o consenso técnico se deslocando.
4.4 A segunda-feira dos três indicadores
Esta segunda-feira concentrou três divulgações domésticas na primeira hora, conforme TradeMap, SpaceMoney e The Rio Times: IGP-10 de agosto (FGV,8h), Boletim Focus (Banco Central, 8h25) e IBC-Br de junho (Banco Central, 9h). O enquadramento de cada um, na abertura do mercado: IGP-10. O índice vinha de queda de 1,1% em julho. A confirmação de nova deflação no atacado manteria viva a narrativa de afrouxamento e poderia estabilizar o câmbio. Para referência histórica: alta de 0,89% em maio, queda de 0,30% em junho; o IGP-M de julho recuou 1,16%. O alívio nos índices gerais é real, mas é um alívio de atacado, não de consumo — e é essa a distância que separa o balanço da indústria do bolso do consumidor neste momento. IBC-Br. A prévia do PIB vinha de avanço marginal de 0,1%. Conforme o The Rio Times, qualquer número acima disso diria ao Banco Central que a atividade não está colapsando, reduzindo a urgência de novo corte rápido. O SpaceMoney enquadrou o dado como o teste sobre se os juros elevados já provocam desaceleração mais forte. Focus. A questão, nas palavras do The Rio Times, era se a projeção de Selic para o fim do ano permaneceria em 13,75% — “porque isso enquadra toda a operação de juros”.
4.5 A atividade e o “pouso forçado do consumo” A pergunta de fundo é a que o SpaceMoney formulou com precisão: os juros elevados já estão provocando desaceleração mais forte? A evidência corporativa desta semana — que detalho na Parte II — sugere que sim, e de forma muito concentrada. A economia brasileira não está em recessão; está passando por uma contração seletiva e severa no ponto exato onde a Selic de 14% morde: crédito ao consumidor, bens duráveis de ticket elevado e capital de giro no varejo. É um pouso forçado do consumo, e a expressão descreve melhor o fenômeno do que qualquer média agregada. O PIB projetado de 1,98% para 2026 esconde o que está acontecendo com o varejo de eletroeletrônicos e móveis.
4.6 Nove pregões de queda: a anatomia do descolamento
O Ibovespa encerrou a sexta-feira (14) aos 166.934,20 pontos, em leve queda de 0,10%, na maior sequência de perdas diárias desde 2023, segundo o Money Times — nona sessão consecutiva no vermelho, com recuo de 3,23% na semana e 6,22% no mês, sem uma única sessão positiva em agosto. O dólar fechou a R$ 5,2199, com valorização de 2,68%na semana, conforme o Times Brasil/CNBC. O índice chegou ao menor nível em seis meses, ainda que permaneça 22,4% acima de um ano antes. A trajetória intrasemanal ajuda a entender a aceleração: em 11 de agosto, o InfoMoney registrou que o Ibovespa derreteu mais de 2%, ao pior nível desde janeiro, com o dólar a R$ 5,16. A deterioração se aprofundou de terça a sexta. A causa é doméstica e está bem documentada. “Lá fora, CPI e PPI deram ao Fed espaço para esperar. Aqui, o mercado não está esperando ninguém: quase R$ 12 bilhões já deixaram a B3, o dólar se aproxima de R$ 5,20 e o Ibovespa chega à oitava queda”, resumiu o call diário da Nova Futura em 14 de agosto. Dados da B3 apontaram saída líquida de R$ 13,56 bilhões de capital externo em agosto até o dia 12, com R$ 1,6 bilhão apenas na quarta-feira (12), em meio a relatos de que a gestora americana GQG Partners reduziu exposição ao Brasil e zerou algumas posições. Um exemplo documentado: a GQG comunicou que passou a deter, em 11 de agosto, cerca de 4,92% do capital da Eneva. E o rebaixamento institucionalizou o movimento. Conforme o InfoMoney, o JPMorgan rebaixou as ações do Brasil para neutro dentro da América Latina, cortando a projeção do Ibovespa para o fim de 2026 de 190 mil para 185 mil pontos, citando crescimentomais fraco, deterioração do crédito, juros elevados por mais tempo e aumento da volatilidade em função das eleições de outubro — ainda que tenha destacado oportunidades pontuais em ações específicas. “A eleição e o fiscal passaram a cobrar prêmio de forma explícita”, registrou a Nova Futura, conectando os vetores da semana: Flávio Bolsonaro apresentando programa baseado em superávits e redução da dívida, Lula entrando no fim de semana de lançamento da candidatura, a Quaest podendo adicionar volatilidade, e Brasil e Estados Unidos abrindo nova frente de tensão comercial. Um observador estrangeiro captou o paradoxo com clareza. Segundo o The Rio Times, a bolsa brasileira tem um motor e um freio: o motor é a aposta no Copom e no carry do real; o freio é o calendário eleitoral. As promessas de candidatos sobre tudo, de segurança pública a reservas em Bitcoin, dominam as manchetes locais, e é esse ruído que explica a queda de oito — depois nove — sessões seguidas mesmo com Wall Street em máximas históricas. A mesma publicação oferece duas referências operacionais que guardo para as próximas semanas: R$ 5,10 é a linha psicológica cujo rompimento para baixo animaria os carry traders; R$ 5,25 é o limiar de dor para importadores e para as ações sensíveis a juros. Com o fechamento de sexta em R$ 5,2199 e odólar em máximas de quatro meses, esse segundo nível está sendo testado agora — e é por isso que a proteção cambial encabeça a lista de recomendações desta edição.
5. BRASIL: COMÉRCIO EXTERIOR E A DISPUTA COM OS EUA
5.1 O regime tarifário americano hoje
É preciso reconstruir esta história do início, porque a cobertura ainda repete números que deixaram de valer. O que aconteceu: conforme análise da Thomson Reuters Brasil, após a Suprema Corte americana derrubar a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros — mantendo apenas a tarifa global de 10% —, o governo dos Estados Unidos passou a utilizar a Seção 301 da Lei de Comércio como base jurídica para novas ações tarifárias contra o Brasil. Essa fundamentação diferencia a medida das tarifas de 2025, que se apoiavam em outro instrumento. O regime em vigor: segundo a Gazeta do Povo, o Representante de Comércio dos Estados Unidos formalizou a imposição de tarifa de 25% sobre importações provenientes do Brasil, com início em 22 de julho de 2026. A medida resulta de investigação da Seção 301 que concluiu que diversos atos, políticas e práticas do governo brasileiro são “irrazoáveis ou discriminatórios” e restringem o comércio norte-americano — com destaque para as políticas voltadas ao comércio digital, aos serviços de pagamentos eletrônicos e ao meio ambiente. Para evitar danos colaterais à própria economia, foi criada extensa lista de exceções. Conforme o portal eCOMEX, a taxa atinge milhares de produtos e deve afetar cerca de US$ 15 bilhões em exportações anuais, segundo levantamento preliminar da Confederação Nacional da Indústria. A conclusão do processo veio após um ano de negociações, com o chefe do USTR, Jamieson Greer, declarando ter havido falta de empenho do governo brasileiro. Quem escapou: carne bovina, café, sucos de laranja, petróleo bruto e aeronaves civis ficaram fora da nova cobrança. Quem foi atingido: etanol, máquinas e calçados passam a enfrentar sobretaxa. Aço, alumínio e cobre seguem sob a Seção 232, em regime próprio, com alíquotas que chegam a 50% e que permanecem excluídas da nova ação por já estarem submetidas a outro regime.Atenção especial: a isenção da celulose solúvel de alta pureza foi retirada na versão final, junto com produtos químicos para uso não-farmacêutico. Exportadores desses itens devem revisar rotas, avaliar novos mercados e considerar mecanismos como o regime de drawback. Conforme a CNN Brasil, as tarifas americanas são adicionais às alíquotas já existentes: um produto que hoje paga 5% de imposto de importação passará a pagar 30%. Em determinados casos, a soma pode atingir adição de 37,5% sobre o preço. O argumento brasileiro na mesa: o governo contestou a medida destacando que os Estados Unidos acumulam superávit de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços com o Brasil nos últimos quinze anos, e que apenas em 2025 o superávit americano em bens alcançou US$ 14,4 bilhões.
5.2 Brasil aciona a Lei da Reciprocidade — a retórica virou rito jurídico
Esta é, na minha avaliação, a notícia brasileira estruturalmente mais importante da semana — e a que menos repercutiu proporcionalmente à sua consequência para o planejamento empresarial. Conforme o Congresso em Foco, o governo brasileiro iniciou na quinta-feira (13) o processo para avaliar a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica àstarifas impostas pelos Estados Unidos com base na Seção 301. A Secretaria-Executiva da Camex compartilhou o pedido com os integrantes do ComitêExecutivo de Gestão, enquanto o Ministério das Relações Exteriores começou a notificar Washington e a solicitar consultas diplomáticas. A abertura do processo não significa a adoção imediata de retaliações. A base legal é precisa. Segundo a nota oficial reproduzida na íntegra pelo TVT News: trata-se de análise de pleito ordinário de enquadramento sob a Lei nº 15.122/2025, seguindo o rito previsto no Decreto nº 12.551, de 2025; em cumprimento ao artigo 16 do decreto, o Itamaraty notifica os Estados Unidos e solicita consultas diplomáticas. O governo reiterou na nota que “as tarifas norte-americanas são injustificadas e arbitrárias” e que seguirá defendendo o multilateralismo, a reforma da Organização Mundial do Comércio e a diversificação de parcerias comerciais. O rito completo define o calendário de risco para os exportadores: conforme a CNN Brasil, aprovado o pedido pelo Comitê-Executivo da Camex, instala-se um grupo de trabalho para elaborar as medidas; a proposta é submetida a consulta pública por trinta dias; encerrado o prazo, a contramedida é deliberada pelo Comitê-Executivo, que dá a decisão final. Em paralelo, os Estados Unidos aceitaram consultas viaOMC — o Brasil solicitou a abertura formal em 6 de agosto, iniciando prazo de sessenta dias. A leitura estratégica mais aguda que li sobre o movimento veio do ND Mais: a estratégia brasileira é dupla e deliberadamente ambígua — negociar pela via diplomática enquanto constrói juridicamente a base para retaliar se necessário. É a mesma postura que a União Europeia adotou em seus conflitos tarifários com os Estados Unidos durante o primeiro mandato de Trump. A ambiguidade tem valor tático: mantém Washington incerta sobre o momento exato em que as contramedidas serão aplicadas, criando incentivo para negociar antes que a retaliação se concretize. O arsenal brasileiro não se limita a tarifas. O Executivo pode adotar contramedidas proporcionais ao impacto econômico, incluindo suspensão de concessões ou obrigações relacionadas a direitos de propriedade intelectual e de obrigações previstas em acordos comerciais. Isso significa que empresas americanas de tecnologia, farmacêutica e entretenimento com receita relevante no Brasil passaram a ter exposição indireta a este processo — um vetor de risco que ainda não está precificado. Do lado brasileiro, o vice-presidente Geraldo Alckmin reafirmou em 10 de agosto, na abertura do 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio, em São Paulo,que o Brasil “não vai sair da mesa de negociação” e defendeu crédito emergencial diante do protecionismo americano — o governo já autorizou R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito para os setores atingidos. A recomendação para o empresário brasileiro, que faço pela terceira semana consecutiva e que agora ganha urgência: não espere o desfecho da disputa para reduzir exposição. O prazo somado do rito da Camex — aprovação, trinta dias de consulta pública e deliberação — com as consultas da OMC, sessenta dias a partir de 6 de agosto, coloca a janela de decisão entre outubro e dezembro. Sobreposta à eleição e ao pico do El Niño. É o pior momento possível para tomar decisão de logística e fornecimento sob pressão. E há um risco de mão dupla que precisa ser dito com todas as letras: contramedidas brasileiras podem encarecer insumos importados dos Estados Unidos usados por indústrias brasileiras. É o dilema clássico de quem retalia com cadeias produtivas integradas. Se você compra insumo americano, mapeie sua exposição agora.
6. BRASIL: A CAMPANHA ELEITORAL COMEÇOU
6.1 O calendário mudou de fase em 15 e 16 de agosto
O prazo para registro de candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral terminou em 15 de agosto. Desde 16 de agosto, a legislação permite propaganda eleitoral nas ruas e na internet. O horário eleitoral gratuito em rádio e televisão começa em 28 de agosto — coincidindo, note-se, com o discurso de Warsh em Jackson Hole. A eleição deixou de ser variável futura e passou a ser variável diária de mercado. Políticas fiscais, regras de gasto, tributação, privatizações, empresas estatais, comércio exterior e a relação com Estados Unidos e China passarão a ser precificados a cada pesquisa, proposta e aliança. E o mercado já registrou a mudança de fase. Conforme a Bloomberg Línea, com a oficialização das candidaturas a corrida presidencial ganhou mais peso nas decisões dos investidores, com gestores avaliando que a disputa pode ser mais equilibrada do que sugerem as pesquisas de intenção de voto. Essa divergência entre precificação de mercado e levantamento de opinião merece acompanhamento próprio.
6.2 As pesquisas da semana
CNT/MDA, 169ª rodada, divulgada em 11 de agosto. Conforme BPMoney, Brasil 247 e Gazeta do Povo, no cenário estimulado de primeiro turno Lula aparece com 42,4% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro (PL) com 28,7% — distância de 13,7 pontos, praticamente estável em relação a junho, quando o levantamento anterior registrava 41,8% e 28,2%. É no segundo turno que o quadro se moveu: Lula soma 48% e Flávio Bolsonaro 39,1%, reduzindo a vantagem para 8,9 pontos — contra 12,5 pontos em junho. Entre os demais no primeiro turno: Ronaldo Caiado (PSD) 4%, Romeu Zema (Novo) 3,3%, em alta ante 2,8%, Renan Santos (Missão) 2,8%, ante 2%, Samara Martins (UP) 1,6%, Augusto Cury (Avante) 1,2%, em queda de 1,8%, e Rui Costa Pimenta (PCO) 0,9%. Brancos e nulos ficaram em 6,8% e indecisos em 7,2% no primeiro turno; no segundo, brancos e nulos somam 10,6% e indecisos 2,3%. Ficha técnica, conforme a CartaCapital: 2.002 entrevistas presenciais realizadas entre 5 e 9 de agosto, em 140 municípios, margem de erro de 2,2 pontos percentuais, nível de confiança de 95%, registro no TSE sob BR-06935/2026. Lula venceria também Caiado, Zema, Renan Santos e Cury em cenários de segundo turno.Quaest, publicada em 5 de agosto, também presencial: Lula 39%, Flávio 30%; no segundo turno, 44% a 39% — diferença mais estreita que a da CNT/MDA.
6.3 Três leituras que os números permitem
Primeiro, o movimento está no segundo turno, não no primeiro. A distância no primeiro turno ficou estável entre junho e agosto; a do segundo caiu de 12,5 para 8,9 pontos na CNT/MDA, e a Quaest já apontava apenas cinco pontos. É ali que a disputa está viva, e é ali que o mercado está olhando. Segundo, o primeiro turno está mais próximo do desfecho do que os números brutos sugerem. Conforme a Revista Fórum, excluindo brancos, nulos e indecisos, Lula alcançaria 49,4% dos votos válidos —a 0,6 ponto da maioria absoluta. Uma vitória em turno único, hoje improvável mas não impossível, teria efeito significativo e imediato sobre o prêmio de risco brasileiro. Terceiro, há um teto de rejeição que a campanha da oposição precisa administrar. Ainda segundo a Revista Fórum, Flávio Bolsonaro recuou de 30% em abril para os atuais 29%, período que coincide com crises que abalaram sua campanha: a revelação do elo com o empresário Daniel Vorcaro e o chamado “vídeo-bomba” protagonizado por sua madrasta,Michelle Bolsonaro. E o dado de percepção é eloquente: 39,4% dos entrevistados afirmam que seu maior receio é “a volta de alguém da família Bolsonaro no Governo”, índice que supera os 35,8% que dizem temer a “continuidade do governo Lula”. É o maior temor registrado na pesquisa. A CartaCapital registra ainda que a vantagem de Lula no primeiro turno era de catorze pontos em junho e de nove pontos em abril — ou seja, a trajetória dos ú ltimos meses foi de ampliação, não de estreitamento. O contexto institucional não pode ser omitido: conforme o BPMoney, o levantamento ocorre num momento em que Jair Bolsonaro está em prisão domiciliar.
6.4 A dívida pública entra no centro da eleição
A notícia política de maior relevância econômica da semana foi a elaboração, pela campanha de Flávio Bolsonaro, de uma proposta de regra fiscal vinculada à dívida pública. Segundo pessoas ouvidas pela Reuters, a proposta poderia limitar ou até zerar o crescimento real dos gastos federais quando a dívida ultrapassasse determinados níveis. A proposta estava em elaboração e não havia sido aprovada nem implementada.O dado estruturalmente relevante é outro: a dívida pública brasileira tornou-se tema eleitoral central, o que era inevitável. A dívida bruta alcançou aproximadamente 81,9% do PIB em junho, contra 71,4% no início de 2023 — dez pontos percentuais em três anos e meio. Independentemente do resultado eleitoral, o próximo governo enfrentará uma discussão difícil sobre crescimento do gasto, subsídios, benefícios tributários, carga tributária, dívida e investimento público. E, como registrei acima, os economistas consultados pela própria Fazenda já pioraram as projeções de déficit primário e dívida para 2026 e 2027. Registro ainda um sinal de erosão institucional com impacto direto no ambiente de negócios: conforme apuração publicada pelo InfoMoney, o comando da Pixbet, empresa alvo de investigação da Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, apoia de forma ostensiva ao menos seis candidatos a cargos eletivos na Paraíba — entre eles o indicado do MDB ao governo estadual e o pai do presidente da Câmara. A regulação do setor de apostas seguirá como risco regulatório vivo em 2027, qualquer que seja o vencedor.
AS EMPRESAS BRASILEIRAS
A temporada de balanços do segundo trimestre expôs com nitidez incomum uma economia de dois andares. Nesta semana, apareceu um terceiro andar —abaixo do subsolo.
7. O CASO CASAS BAHIA: QUANDO A MELHORA OPERACIONAL NÃO BASTA
Esta é a maior notícia empresarial brasileira da semana, e merece tratamento à parte porque a lição que carrega é generalizável para boa parte do tecido empresarial do país.
7.1 Os números
Conforme o NeoFeed, a Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, em balanço divulgado na madrugada de domingo, 16 de agosto. O resultado foi influenciado por R$ 9,1 bilhões em efeitos não recorrentes ligados ao redimensionamento da companhia para o que chamou de “fase 2 do plano de transformação”:baixa de imposto de renda diferido: R$ 5,5 bilhões baixa de ágio: R$ 971 milhões contingências contratuais: R$ 1,8 bilhão despesas de reestruturação: R$ 502 milhões Sem esses efeitos, o prejuízo ajustado teria sido de R$ 1 bilhão. Segundo a Rádio Itatiaia, com Estadão Conteúdo, é o oitavo resultado trimestral consecutivo no vermelho. Ao longo de 2025, a empresa já havia acumulado prejuízo de R$ 3 bilhões; no primeiro trimestre de 2026, R$ 1,06 bilhão. E a companhia admitiu formalmente o que o mercado temia: estuda nova recuperação extrajudicial ou recuperação judicial. Conforme a CNN Brasil, cita “capital circulante negativo, restrições de crédito e consumo pressionado” como fatores que exigem transformação estrutural, listando entre as medidas possíveis “alternativas de estrutura de capital e liquidez, bem como eventuais medidas adicionais, incluindo possível nova recuperação extrajudicial ou recuperação judicial”. Em abril de 2024, a varejista já havia pedido recuperação extrajudicial para dívidas de R$ 4,1 bilhões.
7.2 A reestruturação operacional
O plano inclui o fechamento de 298 lojas deficitárias —equivalente a cerca de 28,7% da rede considerada no levantamento — com demissões inicialmenteinformadas entre 1,9 mil e 2 mil funcionários, podendo chegar a 3 mil segundo uma das fontes ouvidas pelo Valor Econômico. Nos doze meses anteriores, o grupo havia encerrado apenas 26 lojas; a nova rodada muda a escala em uma ordem de magnitude. A empresa informa que, com o fechamento das unidades deficitárias, a participação do carnê nas lojas remanescentes aumentará de 5,0 a 6,0 pontos percentuais — o que significa, na prática, uma aposta em concentrar a operação exatamente no produto mais sensível a juros. A fase 2 inclui ainda reorientação dos canais digitais, adequação de estoques e capital de giro, redução estrutural de custos e investimentos, gestão de liquidez e redução do custo financeiro. Na sexta-feira (14), o Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região manifestou preocupação com o fechamento repentino de lojas na Região Metropolitana de São Paulo. A companhia havia adiado a divulgação do balanço do segundo trimestre para concluir o plano antes de apresentá-lo.
7.3 O paradoxo — e a lição
Aqui está o ponto que transforma este caso em aprendizado obrigatório: os indicadores financeiros vinham melhorando.A empresa gerou R$ 798 milhões de fluxo de caixa livre no trimestre, alta de R$ 625 milhões em relação ao ano anterior. Reduziu estoques em R$ 685 milhões. Cortou 28% o pagamento de juros ante o quarto trimestre de 2025. Em doze meses, reduziu a dívida líquida em R$ 3,8 bilhões — queda de 76% —, mantendo a alavancagem em confortáveis 0,5 vez o EBITDA. No primeiro trimestre, a receita líquida crescera 6,1%, para R$ 7,416 bilhões, com EBITDA ajustado em alta de 4,7%, para R$ 597 milhões. As vendas digitais cresceram 26%. Então por que o colapso? Porque, como observa com precisão a análise da Force Partners, “a operação melhorou e a conta financeira consumiu a melhora”. No primeiro trimestre de 2026, o resultado financeiro líquido negativo avançou 27% e chegou a R$ 1,171 bilhão, produzindo prejuízo de R$ 1,064 bilhão. A melhora operacional de R$ 597 milhões de EBITDA foi engolida por R$ 1,171 bilhão de despesa financeira. E há um elemento de calendário decisivo: as carências contratadas na recuperação extrajudicial de 2024 — dois anos e meio — se esgotam ao longo de 2026, devolvendo à companhia o desembolso integral de juros e, na sequência, a amortização de principal. O alívio que sustentou o caixa nesse período é justamente o que começa a se encerrar.A empresa não vinculou publicamente o fechamento de lojas ao vencimento das carências. Mas as duas coisas estão no mesmo calendário — e o comportamento é o esperado de uma companhia que precisa chegar ao fim do período de carência com estrutura de custo compatível com a dívida que volta a vencer. Adiar o balanço para concluir o plano antes de apresentá-lo reforça essa leitura. A lição, que vale para qualquer empresa brasileira alavancada: desalavancar não basta se a estrutura de custos não for redimensionada antes do fim da carência. Reperfilar dívida compra tempo; o que se faz com esse tempo é outro projeto — e é o projeto que decide o desfecho. A recomendação prática, e é a mais urgente desta edição: se você renegociou passivo em 2023 ou 2024, verifique hoje quando vencem suas carências. Se vencem em 2026 ou 2027, o redimensionamento de custos precisa estar concluído antes, não depois.
7.4 O efeito em cadeia a monitorar
Um eventual pedido de recuperação judicial da Casas Bahia teria efeito que ultrapassa a empresa: Bancos com exposição a varejo alavancado de bens duráveis devem revisar provisões. Indústria fornecedora de eletroeletrônicos e móveis perde um canal que representa parcelarelevante do escoamento nacional — e já vinha sendo usada como financiadora informal, com a companhia ampliando prazos de pagamento. Antecipação de recebíveis e crédito a fornecedores do setor tendem a encarecer. Concorrentes ganham participação, mas num mercado que está encolhendo, não crescendo. Este é, hoje, o principal risco idiossincrático do mercado de crédito brasileiro.
8. A TEMPORADA DE BALANÇOS DO SEGUNDO TRIMESTRE
8.1 Os recordes Nubank foi o destaque absoluto da semana.
Em 13 de agosto, reportou lucro líquido de US$ 1,061 bilhão, o primeiro acima de US$ 1 bilhão de sua história, alta de 49% em um ano — resultado 10,6% acima da média de US$ 958 milhões estimada pelas seis casas do Prévias Broadcast: Itaú BBA, Citi, Goldman Sachs, J.P. Morgan, UBS BB e BofA. Conforme a Nova Futura, a receita cresceu 39% e a carteira de crédito avançou 37%, com as ações reagindo com forte alta no mercado estendido. A receita bruta somou US$ 5,9 bilhões, com base de139 milhões de clientes. O retorno sobre patrimônio ficou em 33% — contra 24,2% do Itaú no mesmo período. O ponto de atenção é a inadimplência acima de noventa dias, que avançou para 6,9%, ante 6,5% no primeiro trimestre. “Esse é o tipo de resultado que o mercado queria: crescimento com rentabilidade. Agora a pergunta muda: até onde é possível acelerar crédito sem transformar crescimento em custo de risco?”, formulou a Nova Futura. É a pergunta certa — e vale como marco simbólico: uma fintech de treze anos superou os bancos incumbentes brasileiros em rentabilidade sobre patrimônio. Encerra-se uma discussão de uma década. A questão agora não é se a disrupção acontece, mas quanto de valor os incumbentes conseguem defender. Petrobras entregou um dos maiores trimestres de sua história: lucro líquido de R$ 52,4 bilhões, alta de 96,8% em um ano, acima do consenso de R$ 50,8 bilhões; EBITDA ajustado de R$ 93,8 bilhões; Brent médio de US$ 104,52, alta de 54,1%; produção própria recorde de 2,7 milhões de barris por dia, impulsionada pela plataforma P-79 em Búzios; e refino operando a 101,2% de utilização. Aprovou R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio, R$ 1,34814262 por ação, com pagamento em novembro e dezembro; as ações ficam ex-direitos em 24 de agosto.Dois pontos de atenção quantificados pela própria empresa: a retenção do preço de combustíveis custou cerca de R$ 5 bilhões no trimestre, e a taxa de exportação de petróleo, quase R$ 3 bilhões. O diretor financeiro Fernando Melgarejo classificou como “muito pouco provável” um dividendo extraordinário em 2026. Itaú: lucro recorrente de R$ 12,4 bilhões, alta de 7,8%, retorno sobre patrimônio de 24,3%, projeções mantidas. A ação liderou os ganhos do Ibovespa na sexta-feira (14), subindo 1,8% como refúgio. Bradesco: lucro de aproximadamente R$ 7 bilhões, alta de 16%, retorno de 16%, décimo trimestre consecutivo de melhora, conforme o Seu Dinheiro. Banco do Brasil: lucro de R$ 3,9 bilhões, alta de 13,9%, retorno de 8,3% — o menor entre os grandes, ainda pressionado pela inadimplência do agronegócio. A presidente Tarciana Medeiros afirmou que o banco adota estratégias específicas para contê-la. Embraer: receita recorde de R$ 11,3 bilhões, alta de 10%, conforme o AEROIN; lucro operacional ajustado de R$ 1,5 bilhão, margem de 13,4%; elevação da projeção de margem para 2026 à faixa de 10% a 10,6%, ante 8,7% a 9,3%; fluxo de caixa livre ajustado, sem a Eve, projetado em US$ 400 milhões ou mais. Adivisão de Defesa e Segurança cresceu 22%, puxada pelo KC-390 Millennium. Vale: EBITDA ajustado pro forma de US$ 4,1 bilhões, alta de cerca de 19%, acima do consenso; dividendos de US$ 1,7 bilhão, R$ 2,03 por ação, ex em 12 de agosto e pagamento em 2 de setembro; e novo programa de recompra de até 100 milhões de ações, 2,3% do capital. Revisou a projeção de custos para cima. Gerdau: lucro ajustado de R$ 1,46 bilhão, alta de 69,7%, EBITDA ajustado de R$ 3,4 bilhões, com a América do Norte respondendo por R$ 2,6 bilhões — puxada pela demanda de construção, infraestrutura, energia renovável e data centers nos Estados Unidos. Aprovou R$ 451,3 milhões em dividendos. Ultrapar: lucro de R$ 1,7 bilhão, alta de 46%, com R$ 1,085 bilhão em dividendos. Rede D’Or: lucro de R$ 1,28 bilhão e EBITDA ampliado em 18,2%, conforme o Portal IN. Lucro líquido ajustado de R$ 1,283 bilhão, alta de 8,5%, receita líquida consolidada de R$ 14,9 bilhões, alta de 5,6%, EBITDA consolidado de R$ 2,9 bilhões, com a subsidiária SulAmérica entregando EBITDA de R$ 612,1 milhões, alta de 53,4%. Segundo o Money Times, a ação saltou 6% no Ibovespa, com Itaú BBA, Bradesco BBI e XP reiterando recomendação decompra — a XP afirmou que os resultados reforçam a continuação da melhora operacional.
8.2 Os tropeços Hapvida foi o epicentro negativo da temporada.
Lucro ajustado de apenas R$ 12,5 milhões — queda de 95,8%; EBITDA ajustado de R$ 504,4 milhões, queda de 44,3%; sinistralidade caixa de 75,2%, alta de 3,0 pontos percentuais sobre o primeiro trimestre; receita de R$ 7,97 bilhões, alta de 3,9%. A ação fechou 13 de agosto em queda de cerca de 33%, a R$ 6,41 — o menor nível desde a abertura de capital, em 2018 —, após múltiplos leilões de volatilidade na B3. A divergência entre Rede D’Or e Hapvida, no mesmo dia e no mesmo setor, é a fotografia mais nítida da economia de dois andares brasileira — e o alerta mais claro contra teses setoriais amplas. Saúde deixou de ser um setor com comportamento comum; a variável decisiva é sinistralidade e mix, não o segmento. Azul: receita recorde de quase R$ 5,0 bilhões, mas prejuízo operacional de R$ 159,1 milhões e prejuízo líquido de R$ 1,041 bilhão, pressionada por combustível de R$ 1,96 bilhão e com frota reduzida a 155 aeronaves. JBS: prejuízo de US$ 102 milhões, com o presidenteexecutivo Gilberto Tomazoni citando maior oferta defrango nos Estados Unidos e preços de commodities mais baixos. A empresa ampliou sua linha de crédito rotativo de US$ 3,5 bilhões para US$ 4,2 bilhões e anunciou Wesley Batista Filho como futuro presidente global a partir de 2027. CSN: prejuízo de R$ 773 milhões, com dívida líquida de R$ 42,13 bilhões. Magazine Luiza: prejuízo de R$ 72,5 milhões contábeis, R$ 50,4 milhões ajustados. Lojas físicas cresceram 10,3%, mas o comércio eletrônico caiu 11,9%, afetado pelo encarecimento global de chips de memória. A financeira Magalupay e a Luizacred, com lucro de R$ 135,3 milhões, sustentaram parte do resultado, e a companhia passará a prestar serviços logísticos para a Amazon. O diretor financeiro afirmou trabalhar para “voltar a dar lucro sem depender da taxa de juros” — a frase mais reveladora de toda a temporada, e que deveria ser o objetivo declarado do setor. Americanas: prejuízo de R$ 274 milhões, com a compra da Fan Store, do BandUP!, por R$ 162,05 milhões concluída. Lojas Renner trouxe um dos sinais mais preocupantes. Conforme o Money Times, o UBS BB rebaixou a recomendação de compra para neutra e cortou o preço-alvo de R$ 18 para R$ 13,50, após a companhia divulgar os resultados e revisar suasprojeções, com o crescimento de receita para 2026 reduzido de 9% a 13% para 4% a 8%. Um corte dessa magnitude, vindo do varejista de moda mais bem gerido do país, diz mais sobre o consumo brasileiro do que qualquer índice de confiança. Menções adicionais. O Bradesco BBI avaliou como positivo e em linha com as estimativas o resultado da JHSF, holding de negócios de luxo — o alto padrão segue descolado do varejo de massa. A BB Seguridade lucrou R$ 2,2 bilhões, queda de 4%, pouco acima das expectativas da Bloomberg. A Cogna superou estimativas e foi uma das maiores altas do Ibovespa no dia do balanço. E uma companhia do setor sucroenergético reportou EBITDA ajustado mais que dobrado e melhora na distribuição de combustíveis, mas ainda com prejuízo líquido relevante e em processo de reestruturação financeira —o comentário do analista da Nova Futura vale como lei geral do momento: “melhora de EBITDA só vira tese de equity quando começa a melhorar o balanço”.
8.3 Fusões, aquisições e movimentação de portfólio
A semana foi ativa em transações de porte médio, com um padrão claro: desalavancagem via venda de ativos não centrais.Cosan formalizou carta de intenção para vender toda sua participação no Terminal Porto São Luís por R$ 300 milhões, com pagamento adicional de até R$ 50 milhões por berço novo até 2035 — parte do plano de desalavancagem, com dívida líquida de R$ 11,5 bilhões. A ação subiu 3,43% na quinta-feira (13), conforme NeoFeed e Visno Invest. Iguatemi vendeu participações em cinco ativos imobiliários ao TRX Real Estate FII por R$ 876,1 milhões, com taxa de capitalização média de 7,3%. Orizon anunciou a compra de 51% do aterro sanitário de Rondonópolis, no Mato Grosso, onde já opera o Ecoparque Cuiabá, com valor de empresa de R$ 45,4 milhões pagos à vista. O aterro recebe em média de 13 a 14 mil toneladas mensais de resíduos sólidos urbanos; a operação está sujeita à aprovação do Cade. Tegma, via subsidiária, assinou contrato para comprar 70% da TSS Holding, do Grupo Transcopa, por R$ 99,4 milhões. Movimentação societária nova: conforme o The Rio Times, a Guepardo Investimentos elevou sua participação na Vivara para 5,44%, segundo comunicado de fim de semana — sinal de que gestores locais estão comprando varejo de alta renda enquanto estrangeiros vendem o índice.E a Sabesp foi a história de volume da semana: mesmo com o preço recuando, a narrativa de privatização continua atraindo capital estrangeiro — o único tema de infraestrutura brasileiro que resistiu à saída de fluxo. Diz algo sobre o apetite por ativos com marco regulatório claro. Com a Casas Bahia admitindo possível nova recuperação, o mercado brasileiro de ativos estressados acaba de ganhar seu maior nome.
9. CLIMA: A RECLASSIFICAÇÃO DO EL NIÑO
Esta é a atualização que mais agrava o cenário desta edição. Conforme o InfoMoney reproduzindo o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, em 13 de agosto: o El Niño está se intensificando, com mais de 90% de probabilidade de ocorrer um evento muito forte durante o outono e o inverno de 2026/27 no Hemisfério Norte. E, mais grave, a citação textual do serviço americano: “durante a temporada de outubro a dezembro de 2026, há 69% de probabilidade de ocorrer um evento histórico que excederia a intensidade dos eventos anteriores do El Niño, que remontam a 1950”.Não se trata mais de um El Niño forte. Trata-se da possibilidade — com quase 70% de chance — de o fenômeno mais intenso já registrado em setenta e seis anos de série histórica, com pico exatamente no trimestre da eleição, do encerramento das consultas da OMC e do vencimento das carências de dívidas corporativas. Na América do Sul, conforme a mesma fonte, o El Niño costuma trazer chuvas mais intensas ao sul e aumentar os riscos de seca mais ao norte, afetando agricultura, produção de energia, rotas comerciais e meio ambiente. Vale a ressalva técnica: o efeito sobre tarifas de energia é ambíguo, não linear. Reservatórios do Sul cheios não compensam automaticamente a seca no Norte e no Nordeste, onde há geração hídrica relevante. Reservatórios cheios não significam energia barata. Mas o próprio Bradesco, ao projetar a dissipação dos choques inflacionários do primeiro semestre, fez a ressalva explícita de que isso vale “antes dos efeitos do El Niño”. O banco está dizendo, em linguagem cifrada de relatório, que a desinflação brasileira tem prazo de validade — e o prazo é o quarto trimestre. Orientações práticas imediatas: Agronegócio: antecipação absoluta na compra de fertilizantes e na contratação de fretesrodoviários, antes que o clima impacte as estradas do Sul e encareça a logística. Revisão de seguro rural. Setor elétrico e indústria eletrointensiva: revisão de contratos, cenários de bandeira tarifária para o quarto trimestre de 2026 e o primeiro de 2027, e avaliação de migração para contratos de longo prazo no Mercado Livre. Logística: contratação antecipada de capacidade, especialmente nas rotas do Sul, na janela de escoamento de safra.
ANÁLISE, CENÁRIOS E AGENDA
10. PANORAMA E IMPACTOS
10.1 Economia mundial A economia global entrou numa fase que não se descreve por uma narrativa única. É um ajuste que não produz manchetes dramáticas, mas redesenha as condições de financiamento de todos. Cinco forças em disputa:Crescimento enfraquecendo. Estados Unidos e China desacelerando simultaneamente, com a China no pior trimestre desde 2011. Inflação resistente. Especialmente energia e serviços; Estados Unidos a 3,4%, Zona do Euro a 2,9%, ambas acima da meta. Bancos centrais divergindo. Estados Unidos migrando de “subir” para “manter”, sob nova doutrina de comunicação; BCE provavelmente subindo em setembro; Brasil cortando com cautela. É a maior dispersão de política monetária entre grandes blocos desde 2022. Inteligência Artificial sustentando investimento. Impedindo desaceleração mais forte em setores específicos, com o próprio Banco Central Europeu alertando para risco de correção. Protecionismo. Tarifas e políticas industriais fragmentando o comércio — agora com um elemento novo: países atingidos passando da negociação para a construção de arsenal retaliatório, como o Brasil fez em 13 de agosto. O resultado não é uma recessão global clássica. É um mundo em que setores, países e empresas crescem em velocidades muito diferentes — e onde a média perdeu poder explicativo.
10.2 Estados Unidos Longe de recessão confirmada, mas com sinais crescentemente mistos.
Positivo: lucros empresariais robustos, infraestrutura de IA em expansão, S&P acima de 7.800, inflação desacelerando por dois meses consecutivos. Negativo: perdas inesperadas de emprego em julho, vendas no varejo abaixo do esperado, tarifas encarecendo insumos, juros elevados, poupança das famílias menor, déficit fiscal recorde e captação de trinta anos no maior nível desde 2001. O cenário-base migrou de “nova alta do Fed” para “manutenção prolongada” — favorável a ativos de risco no curto prazo. Para a economia real, é preciso acompanhar se o enfraquecimento da demanda permanece moderado, porque existe um ponto a partir do qual dado ruim deixa de ser boa notícia para a bolsa e passa a ser compressão de lucros. É esse limite que o mercado começa a testar. E o teste será em Jackson Hole, em 28 de agosto, e no FOMC de 16 de setembro — com a diferença de que, sob Warsh, esses eventos carregam mais informação e mais risco de surpresa do que carregavam sob Powell.
10.3 China Principal risco estrutural para a indústria mundial nos próximos anos, e para a brasileira em particular.
O país consome menos, investe menos, sofre com imóveis e exporta mais. Para o Brasil, o choque chega de duas formas: positiva, com mais investimento chinês em energia, infraestrutura e montadoras; e negativa, com mais competição em bens de capital, veículos, eletrônicos e equipamentos. Ambas simultaneamente — e a distinção precisa entrar nos planejamentos industriais de médio prazo.
10.4 Europa Posição intermediária.
A atividade melhorou, 0,4% no trimestre, mas inflação e energia continuam pressionando. O BCE pode elevar juros justamente quando o Fed reduz sua disposição de fazê-lo, favorecendo o euro e alterando fluxos globais de capital — inclusive os que hoje sustentam o carry brasileiro.
10.5 Brasil O quadro melhorou marginalmente em relação aos meses mais críticos do primeiro semestre.
Melhorou: inflação de doze meses de volta ao intervalo da meta, 4,44%; petróleo abaixo dos picos; ciclo de corte da Selic iniciado; câmbio muito abaixo dos níveis de estresse projetados em janeiro.Continua difícil: juros reais entre os mais altos do mundo; dívida bruta em 81,9% do PIB; projeção de IPCA para o ano fechado ainda em 5,02%; tarifas americanas em vigor com disputa jurídica aberta; indústria pressionada por dois lados; risco climático agora classificado como potencialmente histórico; eleição precificada diariamente; e o JPMorgan rebaixando o país dentro da própria região. O Brasil não entrou numa fase de expansão. Entrou numa fase em que a deterioração deixou de acelerar no agregado — enquanto se concentra brutalmente em um ponto: o consumo financiado.
10.6 Impacto direto sobre as empresas brasileiras
A temporada do segundo trimestre permite uma conclusão que vale mais que qualquer projeção: o divisor de águas não é o setor. É a exposição à Selic e ao dólar, combinada com o perfil de vencimento da dívida. Andar de cima: exportadoras de commodities — Petrobras, Vale, Gerdau na América do Norte —, bancos e fintechs — Itaú, Bradesco, Nubank —, e alta renda — JHSF, Vivara. Andar do meio: varejo de massa — Magazine Luiza, Renner, Americanas —, saúde de baixocusto — Hapvida —, aviação — Azul — e siderurgia alavancada — CSN. Subsolo: Casas Bahia — o caso que mostra o que acontece quando o custo financeiro consome a melhora operacional e a carência vence antes da reestruturação. Dois riscos de curto prazo exigem ação imediata. Passivo cambial. Com o dólar testando R$ 5,25 — o limiar de dor identificado pelo mercado —, corporações que não travaram dívidas ou insumos importados começarão a sentir compressão nos resultados financeiros do terceiro trimestre. Retaliação de mão dupla. Contramedidas brasileiras podem encarecer insumos importados dos Estados Unidos usados por indústrias brasileiras. Para o executivo, a mensagem é de seletividade radical e disciplina de balanço. Teses setoriais amplas falharam nesta temporada. O que funcionou foi olhar balanço a balanço, linha a linha.
11. ANÁLISE POR SEGMENTO DE MERCADO
Petróleo e gás — ainda positivo, com risco regulatório vivo Oferta apertada, déficit de 1,8 milhão de barris/dia no terceiro trimestre, estoques no menor nível desde abril de 2025 e margens de refino recordes na Bacia do Atlântico formam a combinação mais favorável possível para a Petrobras neste momento — a empresa tem produção de baixo custo e refino integrado exatamente na bacia onde as margens explodiram. É uma vantagem estrutural que poucos concorrentes globais reproduzem. Riscos domésticos quantificados pela própria companhia: retenção do preço de combustíveis, cerca de R$ 5 bilhões no trimestre, e taxa de exportação de petróleo, cerca de R$ 3 bilhões. Ambos são decisões políticas — logo, sensíveis ao calendário eleitoral.
O mecanismo de liberação de gás continua pendente. Novidade com efeito prático: a diversificação turca abre rota de exportação para o petróleo brasileiro, substituindo barris russos. Ganhos extraordinários diminuem se o Brent permanecer abaixo de US$ 90 — mas a AIE sugere que o piso está mais alto do que o mercado precificava em julho. Perspectiva: positiva, com atenção a intervenção de preços em ano eleitoral.Agronegócio e alimentos — margem sim, clima é a variável dominante Dólar acima de R$ 5,20 sustenta margens de exportação em reais, compensando a volatilidade das bolsas de grãos de Chicago. Petróleo menos extremo ajuda insumos e fertilizantes. A China mais fraca pressiona commodities, ainda que alimentos permaneçam defensivos. Café, carne bovina e suco de laranja escaparam da tarifa de 25% — alívio material.
O Banco do Brasil, principal financiador do agro, segue com inadimplência elevada no segmento. É o termômetro mais confiável da saúde financeira do produtor, e ele ainda não virou. A JBS no prejuízo confirma ciclo desfavorável na proteína animal. Mas a variável dominante virou o clima. Com 69% de probabilidade de El Niño histórico entre outubro e dezembro, a orientação é de antecipação absoluta: compra de fertilizantes, contratação de fretes rodoviários e revisão de seguro rural antes que o clima impacte as estradas do Sul. Quem esperar setembro pagará prêmio de escassez. Demais prioridades: hedge, barter, irrigação, armazenagem, diversificação de mercados de destino —a dependência simultânea de China e Estados Unidos é o ponto frágil estrutural do setor — eInteligência Artificial aplicada a previsão climática e manejo. Perspectiva: positiva em margem, alto risco em volume. Sucroenergético — misto Petróleo menor reduz a atratividade relativa do etanol, que ainda por cima foi atingido pela tarifa americana de 25%.
El Niño pode beneficiar ou prejudicar conforme região e fase da safra. Flexibilidade de mix açúcar-etanol segue sendo a vantagem competitiva central — e o caso da empresa que dobrou EBITDA mas segue em reestruturação mostra que alavancagem continua sendo o fator eliminatório. Perspectiva: mista. Mineração — cautelosa China fraca é o risco central, e piorou nesta semana. Investimento em ativos fixos caindo 6,7% e imóveis em recessão plurianual atingem diretamente a demanda por minério de ferro. A Vale entregou EBITDA acima do consenso e devolveu capital — US$ 1,7 bilhão em dividendos mais recompra de 2,3% —, mas revisou custos para cima, sinal de que está gerindo para geração de caixa, não para volume.Monitorar de perto: imóveis chineses, investimento em infraestrutura e eventuais estímulos de Pequim, que se vierem serão o principal gatilho de reprecificação do setor. Perspectiva: cautelosa. Siderurgia e indústria de transformação — difícil, com duas ameaças simultâneas O segmento mais pressionado da economia brasileira, e por razões que não se resolvem no curto prazo. Ameaça 1: aço e alumínio brasileiros seguem sujeitos a tarifas de até 50% nos Estados Unidos sob a Seção 232. Ameaça 2: excesso de capacidade chinesa buscando mercados. A divergência entre Gerdau, com alta de 69,7% puxada pela operação norte-americana, e CSN, com prejuízo de R$ 773 milhões e dívida líquida de R$ 42 bilhões, mostra que a diferença não está no setor, mas em onde a empresa produz e como está alavancada. Gerdau captura a demanda americana de energia renovável e data centers; CSN carrega o balanço.
O alívio nos índices de atacado dá respiro no custo de matérias-primas, mas não resolve o problemaestrutural. Investimento em capacidade nova segue congelado; o foco realista é modernização de processos, automação de linhas existentes, eficiência térmica e contratos de energia no Mercado Livre. A saída não pode ser apenas proteção tarifária. Precisa envolver produtividade, especialização, produtos de maior valor agregado e redução de capital de giro. É a agenda de gestão mais urgente do país neste momento. Perspectiva: difícil. Bancos e serviços financeiros — resiliente, com sinal amarelo à frente Juros altos ainda sustentam margens: Itaú com retorno de 24,3%, Bradesco no décimo trimestre de melhora, Nubank com 33%. Mas há dois sinais de atenção: a inadimplência acima de noventa dias do Nubank subiu para 6,9%, e o Banco do Brasil segue com retorno de 8,3% pela exposição ao agro. E o caso Casas Bahia acende uma luz específica: bancos e fornecedores com exposição a varejo alavancado de bens duráveis devem revisar provisões. Se a companhia migrar para recuperação judicial, o efeito se espalha por crédito bancário, indústria fornecedora e antecipação de recebíveis.A próxima fase será menos sobre crescimento de carteira e mais sobre qualidade, inadimplência, cobrança e garantias. Quem acelerou originação no ciclo de Selic alta descobrirá em 2027 se a fez bem. Perspectiva: resiliente, com deterioração de qualidade no horizonte.
Varejo, bens duráveis e consumo — o epicentro da crise Este segmento passou de melhora lenta para seleção natural em curso, e a semana forneceu a evidência definitiva. Quatro dados na mesma semana: Casas Bahia com prejuízo de R$ 10,1 bilhões, 298 lojas fechadas e ameaça de recuperação judicial; Renner cortando projeções de receita de 9% a 13% para 4% a 8%; Magazine Luiza com comércio eletrônico em queda de 11,9%; Americanas com prejuízo de R$ 274 milhões. O diagnóstico é convergente: operações de margem estreita e ticket médio elevado não sobrevivem ao carregamento de estoques e crediário com Selic acima de 13%. Com desemprego baixo, mas endividamento familiar elevado e juros proibitivos, a única saída sustentável é redução drástica de lojas deficitárias, migração para canais digitais de alta eficiência e queima de estoques parados.Varejistas de alimentos e bens essenciais — atacarejos — mantêm melhor resiliência de margem. Alta renda opera em ciclo próprio, e há gestores locais comprando essa tese enquanto estrangeiros vendem o índice. Para quem tem escala logística, a monetização de ativos ociosos — o acordo Magazine Luiza e Amazon —é o modelo a estudar. Perspectiva: extremamente crítica para eletroeletrônicos, móveis e vestuário de ticket elevado. Defensiva para essenciais. Construção e mercado imobiliário — ainda restritivo A queda da Selic de 15% para 14% é positiva psicologicamente, mas insuficiente para destravar o setor. Cyrela, MRV e Cury reportaram na semana. Infraestrutura, Minha Casa Minha Vida, saneamento, data centers e galpões logísticos seguem mais resilientes que o residencial de médio padrão. A privatização da Sabesp segue atraindo capital estrangeiro — o único tema de infraestrutura que resistiu à saída de fluxo desta semana. Perspectiva: restritiva no residencial, seletivamente positiva em infraestrutura.Logística e transporte — mista, com alerta climático Petróleo abaixo dos picos ajuda.
Mas seguros marítimos subiram estruturalmente com três zonas de risco simultâneas, e juros sobre frota seguem pesados. Rumo, Localiza, Movida e JSL operam nesse ambiente; a Tegma consolida. Alerta específico: o El Niño potencialmente histórico no quarto trimestre tende a trazer chuvas intensas ao Sul, com impacto direto sobre estradas e custo de frete rodoviário justamente na janela de escoamento de safra. Contratar antes. Inteligência Artificial pode produzir ganhos rápidos e mensuráveis em roteirização, ocupação, manutenção preditiva e precificação dinâmica — provavelmente a melhor relação entre esforço de implementação e retorno de toda a economia brasileira. Perspectiva: mista, com risco logístico crescente no quarto trimestre. Aviação — dividida Azul com prejuízo líquido de R$ 1,041 bilhão e frota reduzida a 155 aeronaves, pressionada por combustível de R$ 1,96 bilhão. Embraer em momento oposto: receita recorde, projeções elevadas, defesa crescendo 22% e o pedido do Grupo Abra, controladorda Gol, de até 45 jatos E195-E2 anunciado em Farnborough — colocando Gol, Latam e Azul como operadoras simultâneas de aviões brasileiros, feito antes restrito a poucos países. Aeronaves civis ficaram fora da tarifa de 25%. Embraer é hoje a mais forte tese industrial brasileira listada — e o único caso em que geopolítica, via gasto global em defesa, e política tarifária jogam ambas a favor. Perspectiva: crítica para aviação comercial doméstica, fortemente positiva para a indústria aeronáutica. Energia elétrica — positiva estruturalmente, com risco climático elevado
O IPCA de julho já capturou o reajuste: energia residencial subiu 3,09%, o principal vetor individual de alta do mês. Inteligência Artificial e data centers aumentam a demanda estrutural, e é aqui que a segunda fase do ciclo global de IA toca o Brasil de forma mais direta. O risco climático subiu de patamar. Com mais de 90% de probabilidade de El Niño muito forte e 69% de chance de evento histórico entre outubro e dezembro, a previsibilidade de reservatórios e bandeiras tarifárias para o quarto trimestre de 2026 e o primeiro de 2027 deteriorou.Equatorial, Cemig, CPFL, Eletrobras e Engie operam nesse ambiente; a Eneva foi alvo da redução de posição da GQG. Oportunidades em geração, transmissão, armazenamento, mercado livre e eficiência. Recomendação prática para a indústria eletrointensiva: priorizar eficiência térmica e migração para contratos de longo prazo no Mercado Livre antes que o risco hidrológico se materialize em preço. Perspectiva: positiva estruturalmente, negativa no custo de curto prazo. Tecnologia, IA e startups — das mais positivas, mas mudou de natureza A oportunidade migrou. Não basta mais ter Inteligência Artificial: a tendência é IA mais processo, mais dados, mais automação, mais resultado financeiro comprovado. Startups apenas “com IA” deixaram de ser diferenciadas. A vantagem competitiva será provar aumento de receita, redução de custo, aumento de margem e redução de capital de giro — em números auditáveis. O alerta do Banco Central Europeu sobre valuations reforça que o capital ficará mais exigente, não mais generoso.Nubank, Totvs, Mercado Livre e Cogna operam nesse espaço. E há uma tensão geopolítica a monitorar: as políticas brasileiras de comércio digital e pagamentos eletrônicos estão entre os motivos citados pelos Estados Unidos para a tarifa de 25% — e o tema de Jackson Hole este ano é exatamente inovação financeira e pagamentos. O Pix virou, simultaneamente, assunto de política monetária global e de disputa comercial bilateral. Perspectiva: positiva, com exigência crescente de retorno comprovado. Saúde — defensiva, mas sem homogeneidade Pressões de custo, pessoal, equipamentos, glosas e juros.
A divergência entre Rede D’Or, com EBITDA em alta de 18,2% e ação subindo 6%, e Hapvida, com lucro em queda de 95,8% e ação caindo 33%, mostra que a variável decisiva é sinistralidade e mix, não o setor. Oportunidade forte de IA e automação em backoffice, faturamento e gestão de glosas — provavelmente a aplicação de Inteligência Artificial com retorno mais rápido e mensurável na economia brasileira hoje. Setor também no radar de aquisições de ativos estressados, junto com o varejo.Perspectiva: defensiva, com dispersão extrema entre operadores. Defesa e cibersegurança — fortemente positiva estruturalmente Mesmo que o Oriente Médio melhore, gastos em defesa dificilmente voltarão rapidamente aos níveis anteriores. Europa ampliando gasto militar, três zonas de conflito ativas e o crescimento de 22% da divisão de Defesa e Segurança da Embraer confirmam a tese.
Cibersegurança acompanha por razão análoga: fragmentação geopolítica produz aumento de atividade estatal hostil. Perspectiva: fortemente positiva. Mercado financeiro, crédito privado e M&A — o segmento com o cenário mais claro Renda fixa privada consolidada como refúgio quase unânime dos alocadores. Emissões de debêntures incentivadas e certificados de recebíveis do agronegócio continuam a absorver a poupança nacional — o que, note-se, é parte da explicação para a fraqueza da bolsa: o dinheiro brasileiro está migrando de ações para crédito ao mesmo tempo em que o dinheiro estrangeiro está saindo do país. São dois vetores independentes atuando na mesma direção.O ambiente é altamente fértil para fundos de situações especiais e conglomerados com caixa líquido interessados em comprar operações estressadas a preços depreciados — especialmente no varejo e na saúde privada. As transações da semana seguem a lógica de desalavancagem via venda de ativos não centrais, padrão típico de fim de ciclo de juros altos. Com a Casas Bahia admitindo possível nova recuperação, esse mercado acaba de ganhar seu maior nome. Espero intensificação até o primeiro semestre de 2027. Perspectiva: muito favorável para compradores com caixa.
12. MATRIZ DE CENÁRIOS
As probabilidades abaixo são estimativas analíticas próprias, construídas a partir da leitura integrada das fontes desta semana. Não são projeções oficiais de terceiros.
Cenário 1 — Desaceleração controlada e pouso seletivo | 45% Gatilhos: Warsh sinaliza rigor estrutural em Jackson Hole sem se comprometer com alta; Fed mantém emsetembro e outubro; Brent entre US$ 80 e US$ 95; China desacelera sem estímulo massivo; Copom corta para 13,75% em setembro e sinaliza pausa; disputa comercial permanece na fase de consultas. Brasil: Selic entre 13,75% e 14,00%; dólar oscilando entre R$ 5,20 e R$ 5,30; Ibovespa estabilizando na faixa dos 165 a 175 mil pontos. Empresas: melhora financeira gradual sem crédito barato. Companhias com caixa forte ganham mercado das alavancadas. Consolidação acelera. Casas Bahia negocia sem pedir recuperação judicial. Por segmento: Petróleo e gás positivo · Bancos positivo · Varejo negativo · Mineração neutro a negativo · Siderurgia negativo · Aviação misto · Energia neutro · Tecnologia positivo · Crédito privado muito positivo
Cenário 2 — Choque climático e cambial | 20% Gatilhos: o El Niño histórico se confirma; quebra precoce de safras; disparo da conta de luz; inflação de alimentos e energia retorna; Copom interrompe cortes com a Selic em 14,00%. Brasil: dólar busca R$ 5,45; curva de juros abre; inflação de 2027 reprecificada para cima; o pouso forçado do consumo se aprofunda.Empresas: compressão generalizada de margem. Agro exportador ganha em reais e perde em volume. Energia e defesa protegidas. Varejo e construção sofrem duplamente. Por segmento: Agro misto · Energia elétrica muito negativo em custo · Varejo muito negativo · Construção muito negativo · Logística negativo · Petróleo positivo
Cenário 3 — Estagflação moderada global | 20% Gatilhos: emprego americano deteriora mais rápido; inflação persiste acima de 3%; petróleo entre US$ 90 e US$ 105 pela persistência do déficit apontado pela AIE; Fed e Copom paralisados; correção nas ações de tecnologia como alertou o BCE. Brasil: custos elevados com demanda menor — a pior combinação possível para margens. Selic para de cair. Dólar acima de R$ 5,40. Por segmento: Varejo muito negativo · Saúde negativo · Construção muito negativo · Siderurgia negativo · Petróleo positivo · Energia positivo · Defesa positivo
Cenário 4 — Descompressão global rápida | 10%Gatilhos: acordo em Ormuz; petróleo abaixo de US$ 75; Jackson Hole sinaliza afastamento definitivo da alta; China lança estímulos relevantes; ampliação de exceções tarifárias para o Brasil. Brasil: fluxo estrangeiro retorna à B3; Ibovespa recupera; dólar alivia para R$ 5,05; JPMorgan e pares revertem rebaixamentos. Por segmento: Varejo muito positivo · Construção muito positivo · Bancos positivo em volume · Petróleo negativo · Mineração positivo · Aviação positivo
Cenário 5 — Nova crise geopolítica | 5% Gatilhos: fracasso das tratativas de Ormuz com nova restrição; ampliação da guerra no Mar Negro; petróleo acima de US$ 110; ou escalada da disputa BrasilEstados Unidos com retaliação efetiva de ambos os lados. Brasil: modo defensivo, dólar acima de R$ 5,60, curva abrindo em toda a extensão. Empresas: preservação de caixa. Energia e defesa como exceções; Petrobras beneficiada no resultado, mas exposta a intervenção de preços em ano eleitoral.
Cenário eleitoral — sobreposto aos cinco acimaDesfecho Probabilidade estimada Reeleição com continuidade fiscal atual Reeleição com sinalização de ajuste 40% 20% Leitura de mercado Prêmio de risco fiscal permanece elevado Alternância com agenda de superávit Alívio moderado da curva de juros 30% Cenário indefinido ou judicializado 10% Rali inicial, com teste de credibilidade em 2027 Volatilidade máxima, dólar acima de R$ 5,60 Estas são as probabilidades mais frágeis do relatório. Baseiam-se em pesquisas de agosto, antes do início do horário eleitoral gratuito em 28 de agosto — historicamente o momento de maior movimentação do eleitorado brasileiro. Some-se a isso a divergência já registrada entre levantamentos de opinião e leitura de gestores. Revisão recomendada em meados de setembro.
13. AGENDA EXECUTIVA E CALENDÁRIO CRÍTICO
Esta semana (17 a 21 de agosto) Segunda (17): IGP-10 de agosto (FGV, 8h) · Boletim Focus (Banco Central, 8h25) · IBC-Br de junho (Banco Central, 9h) · dados de julho da China · vendas no varejo, habitação e indústria nos Estados Unidos. Sexta (21): Petrobras — data-limite para ter ações e receber os R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio; ex-direitos em 24 de agosto. A semana decisiva (24 a 29 de agosto) 26/08, à noite: Nvidia divulga resultados. Maior evento de resultados do mercado global. 27 a 29/08: Simpósio de Jackson Hole. Tema: “Inovação Financeira: Implicações para Pagamentos e Política”. Cerca de 120 banqueiros centrais de mais de setenta países. 28/08, manhã: Discurso de Kevin Warsh — primeira intervenção como presidente do Fed. 28/08: Início do horário eleitoral gratuito no Brasil. Ponto de inflexão histórico das pesquisas.28/08: Divulgação do IGP-M de agosto (FGV).
Nota operacional: de 26 a 28 de agosto, o maior evento corporativo global, o maior evento monetário global e a virada da campanha brasileira acontecem em quarenta e oito horas. Quem tiver posições relevantes deve dimensionar exposição antes, não durante. Setembro 01/09: Instalação da comissão mista sobre a medida provisória que encerra a chamada taxa das blusinhas. 02/09: Vale — pagamento de proventos, R$ 2,03 por ação. 07/09: Feriado do Dia do Trabalho nos Estados Unidos; mercados americanos fechados. 16/09: FOMC. Cenário majoritário: manutenção. A aposta principal de alta migrou para dezembro, com 68,4% de probabilidade. 16/09: IGP-10 de setembro (FGV). Setembro: Banco Central Europeu decide sobre elevação da taxa de depósito para 2,50%. Setembro: Copom. Citi e Bradesco projetam corte para 13,75%; a ata sugere cautela maior. Setembro: Camex — eventual aprovação do pleito de reciprocidade e instalação de grupo detrabalho, abrindo os trinta dias de consulta pública. Outubro a dezembro Início de outubro: encerramento dos sessenta dias de consultas Brasil-Estados Unidos na OMC. Outubro: 1º turno da eleição presidencial. IGP-10 em 19 de outubro. Outubro a dezembro: janela de 69% de probabilidade de El Niño histórico. Pico de risco para safra, energia e logística. Dezembro: reunião do FOMC onde o mercado concentra a maior probabilidade de eventual alta de juros nos Estados Unidos. Monitoramento contínuo Boletins do Centro de Previsão Climática americano, INMET, ANA e ONS sobre El Niño, reservatórios e bandeira tarifária. Relatórios mensais da AIE e da OPEP — a divergência de dois milhões de barris/dia é a principal incerteza de commodities. Fluxo estrangeiro diário na B3 e revisões de casas globais, após o rebaixamento do JPMorgan. Evolução do caso Casas Bahia — um pedido de recuperação judicial teria efeito em cadeia sobrebancos, fornecedores e antecipação de recebíveis. Aprovações do Cade para Orizon, Cosan e Tegma. Política de preços de combustíveis da Petrobras em contexto eleitoral.
14. O QUE FAZER AGORA — AGENDA PARA A EMPRESA BRASILEIRA
A agenda desta semana muda de tom em relação às anteriores, por uma razão específica: o caso Casas Bahia transformou uma preocupação teórica sobre alavancagem em evidência empírica de que a Selic de 14% já está cobrando solvência, não apenas margem. Urgente — próximos quinze dias
1. Acelere a proteção cambial para compromissos do quarto trimestre. Com o dólar testando R$ 5,25 e três eventos de volatilidade concentrados entre 26 e 28 de agosto, hedge deixou de ser otimização e virou seguro.
2. Mapeie quando vencem as carências das suas renegociações de dívida. Se você reperfilou passivo em 2023 ou 2024, provavelmente a carência vence em 2026 ou 2027. A lição daCasas Bahia é que o redimensionamento de custos precisa estar concluído antes disso.
3. Dimensione exposição a mercado antes de 26 de agosto.
4. Agro e logística: antecipe a compra de fertilizantes e a contratação de frete rodoviário. Com 69% de probabilidade de El Niño histórico entre outubro e dezembro, quem contratar em setembro pagará prêmio de escassez. Financeiro e capital
5. Reforçar caixa e liquidez antes da janela de volatilidade de outubro.
6 . Alongar dívida agora, enquanto a curva ainda precifica corte de Selic.
7. Não depender de crédito bancário local de curto prazo — a revisão de provisões após o caso Casas Bahia tende a apertar a concessão ao varejo e a setores alavancados.
8 . Reduzir estoques improdutivos e preservar estoques estratégicos de insumos importados. Cadeia e mercado
9. Diversificar fornecedores, com atenção especial a insumos americanos que podem ser alvo de retaliação brasileira.
10. Diversificar clientes e mercados de destino — a exposição simultânea a Estados Unidos e China é o ponto frágil da maioria das empresas brasileiras.
11. Rever contratos de energia, com migração para contratos de longo prazo no Mercado Livre, e de logística, precificando seguro marítimo estruturalmente mais caro.
12. Exportadores atingidos: avaliar drawback, rotas alternativas e reclassificação fiscal antes do desfecho da disputa. Tecnologia e produtividade
13. Automatizar backoffice — onde o retorno da Inteligência Artificial é mais rápido e mensurável.
14. Usar IA com retorno explícito e auditável; o capital ficará mais exigente, não mais generoso.
15. Tratar a competição chinesa como problema de produtividade e modelo de negócio, não de tarifa.
16. Priorizar modernização e automação de linhas existentes sobre investimento em capacidade nova. Portfólio e estrutura
17. Rever portfólio e precificação, produto a produto —e fechar o que é estruturalmente deficitário antes que o balanço obrigue.
18. Avaliar fusões e aquisições nas duas pontas: comprador oportunista de ativos estressados, ou vendedor de ativos não centrais.
19. Repensar o próprio modelo de negócio.
15. FONTES
Primárias e institucionais IBGE (IPCA de julho de 2026) · Banco Central do Brasil (ata da 280ª reunião do Copom; Boletim Focus; IBCBr) · FGV/IBRE (IGP-10 e IGP-M) · Bureau of Labor Statistics dos Estados Unidos (CPI e PPI de julho) · Federal Reserve (FOMC de 29 de julho; coletiva de 17 de junho; composição das cinco forças-tarefa) · Agência Internacional de Energia (Oil Market Report de 12 de agosto) · OPEP (relatório mensal de agosto) · EIA · National Bureau of Statistics da China · Banco Central Europeu · Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos · INMET · Camex e Ministério das Relações Exteriores (Lei nº 15.122/2025; Decreto nº 12.551/2025) · Representante de Comércio dos Estados Unidos · Tribunal Superior Eleitoral · B3 · comunicados corporativos via relações com investidores e CVM. Imprensa brasileiraInfoMoney · Money Times · Times Brasil/CNBC · NeoFeed · CNN Brasil · BPMoney · Rádio Itatiaia/Estadão Conteúdo · Economic News Brasil · Force Partners · Seu Dinheiro/Broadcast · Exame · Brasil 247 · AEROIN · ADVFN · Gazeta do Povo · CartaCapital · Revista Fórum · Congresso em Foco · ND Mais · Monitor do Mercado · Monitor Mercantil · XP Investimentos · Nova Futura · Visno Invest · Thomson Reuters Brasil · eCOMEX · O Especialista/Safra · SpaceMoney · TradeMap · Bloomberg Línea · EBC Financial Group · Portal IN · TVT News · BitNotícias · Valor Econômico. Imprensa internacional Reuters · CNBC · CNN Business · The Rio Times · GoldSilver · Regards of Wallstreet · Eixos · Diário de Notícias (Portugal) · O Económico (Portugal) · Pravda PT · TradingKey · Trading Economics · Bloomberg · El Economista/EFE.
SÍNTESE FINAL
A semana de 10 a 17 de agosto tornou o cenário simultaneamente mais favorável e mais complexo. E a complexidade está toda nas conjunções adversativas.A inflação americana caiu — mas não voltou à meta. O mercado de trabalho americano enfraqueceu — mas os lucros seguem fortes e o S&P rompeu 7.800 pontos. A bolsa americana bate recordes — mas o próprio Banco Central Europeu alerta para o risco de correção da euforia com Inteligência Artificial. O Fed ganhou um presidente que fala menos — o que torna cada palavra sua mais perigosa. O petróleo está abaixo dos picos — mas a Agência Internacional de Energia vê déficit físico de 1,8 milhão de barris por dia e estoques no menor nível em mais de um ano. A China exporta muito — mas sua própria população consome pouco, e é justamente isso que empurra capacidade industrial ociosa para cima do resto do mundo. E no Brasil, a lista de adversativas é mais longa e mais dura. A inflação de doze meses voltou ao intervalo da meta — mas a projeção do ano fechado segue acima do teto e a Selic permanece em 14%.
Os balanços do segundo trimestre trouxeram recordes históricos — mas a bolsa caiu nove pregões seguidos e o JPMorgan rebaixou o país dentro da própria região. O real está muito melhor que o projetado em janeiro — mas testa o limiar de dor dos importadores. Uma fintech brasileira acaba de superar os bancões em rentabilidade — enquanto uma das maiores varejistas do país reporta prejuízo de R$ 10,1 bilhões, fecha 298 lojas e admite que pode voltar àrecuperação judicial. A campanha eleitoral começou oficialmente — e a disputa comercial com os Estados Unidos avançou da retórica para um processo formal de reciprocidade, com prazos que desembocam exatamente sobre o calendário da eleição. E, sobre tudo isso, um El Niño que órgão oficial americano agora classifica como tendo 69% de chance de ser o mais forte em setenta e seis anos, com pico marcado para o mesmo trimestre. Não existe, portanto, narrativa única capaz de descrever 2026. A característica definidora do ambiente é a divergência.
Mercados financeiros fortes convivem com economia real mais fraca. Tecnologia cresce enquanto a indústria tradicional sofre. Países produtores de commodities ganham enquanto consumidores pagam mais. Os juros começam a cair no Brasil enquanto permanecem historicamente elevados. Duas empresas do mesmo setor de saúde divulgam resultados no mesmo dia e uma sobe 6% enquanto a outra cai 33%. Gestores locais compram varejo de alta renda no mesmo mês em que estrangeiros vendem R$ 13,5 bilhões do índice. Essa divergência exige mudança também na gestão. Eficiência operacional continua indispensável, mas deixou de ser suficiente — e a Casas Bahia é a prova mais eloquente disso que se viu no Brasil em anos. Aempresa melhorou a operação, gerou R$ 798 milhões de caixa livre no trimestre, reduziu 76% da dívida líquida em doze meses, manteve alavancagem em meia vez o EBITDA.
E ainda assim chegou onde chegou, porque a conta financeira consumiu a melhora e a carência da dívida venceu antes que a estrutura de custos fosse redimensionada. É essa a lição mais dura da semana, e ela vale para qualquer empresa brasileira alavancada: melhorar não basta se o relógio da dívida correr mais rápido que o relógio da transformação. A pergunta mais importante deixou de ser “quando a crise termina?”. Passou a ser: “como minha empresa deve ser diferente quando essa crise terminar — e tenho tempo de balanço para chegar lá?” É provavelmente essa decisão — mais do que qualquer previsão sobre petróleo, Selic, El Niño ou eleição — que separará as organizações que atravessarão 2026 daquelas que sairão estruturalmente mais fortes. E, agora sabemos, daquelas que não atravessarão.

