Relatório de inteligência estratégica semanal

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A Petrobras confirma a primeira descoberta de petróleo da Margem Equatorial e Lula fala em “novo pré-sal”. A Casas Bahia entra em recuperação judicial com R$ 1 7,3 bilhões e a Justiça do Trabalho suspende 1 .900 demissões. A dívida americana cruza US$ 40 trilhões e o Tesouro dobra as recompras sem conter os juros

longos. O Walmart derruba Wall Street. O agronegócio brasileiro tem sua melhor semana do ano. As margens de refino do Atlântico batem recorde histórico. E, na sexta-feira, Kevin Warsh estreia em Jackson Hole.

SUMÁRIO EXECUTIVO

O quadro em uma frase: a semana entregou ao Brasil a maior notícia exploratória desde o pré-sal e a maior quebra do varejo desde a Americanas — e as duas

dizem a mesma coisa sobre o país, que é a distância entre o potencial de longo prazo e a asfixia do presente.

Os seis fatos que definem a semana:

   1 . Petrobras encontra petróleo na Margem Equatorial. O poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, confirmou hidrocarbonetos a 2.886 metros de lâmina d’água, 1 75 km da costa do Amapá. A EPE estima 5,7 bilhões de barris recuperáveis só na Foz do Amazonas — o que elevaria as reservas provadas brasileiras em 33% e as da Petrobras em até 55%. Itaú BBA e XP subiram o preço-alvo de PETR4 para R$ 63.

    2. Casas Bahia em recuperação judicial. Pedido protocolado no domingo (1 6) com R$ 1 7,3 bilhões em dívidas. Ação caiu 33,3%. Na terça (1 8), a Justiça do Trabalho suspendeu cerca de 1 .900 demissões a

pedido da CNTC.

   3. A dívida americana cruzou US$ 40 trilhões. Em 18 de agosto, atingiu US$ 40.047.426.000.000. Bessent dobrou as recompras de títulos longos e o alívio durou 24 horas: o Treasury de 30 anos tocou máxima de quase duas décadas.

    4. O Walmart derrubou Wall Street. Na quinta (20), o Dow caiu 703,84 pontos (–1 ,32%) depois que as vendas comparáveis nos EUA cresceram 2,6%, contra 3,5% esperados — o pior ritmo desde o fim de 2020.

    5. O agronegócio brasileiro virou a mão. Seis ações subiram mais de 1 5% na semana, com São Martinho em +24,64%. Açúcar em alta de 1 9% no mês e a Índia reabrindo importações de 1 milhão de toneladas.

    6. As margens de refino do Atlântico bateram recorde histórico. Segundo a Agência Internacional de Energia, os cracks de diesel, querosene e gasolina dispararam em julho — vento a favor para a Petrobras, vento contra para aviação, logística e agronegócio.

A orientação prática da semana: dimensione

posições antes de quarta-feira (26), quando a Nvidia reporta e o discurso de Warsh se aproxima; e revise hoje sua exposição de crédito e fornecimento à cadeia de varejo de bens duráveis.

ABERTURA

Há sete dias encerrei esta coluna com uma frase que preferia não ter escrito: a de que a recuperação

judicial da Casas Bahia era uma possibilidade

admitida pela companhia, não uma decisão tomada. Vinte e quatro horas depois, no domingo, 1 6 de agosto, a decisão foi tomada. E na segunda-feira seguinte, a 3.500 quilômetros de distância, no

município de Oiapoque, no Amapá, a presidente da Petrobras confirmava ao presidente da República que havia petróleo no fundo do mar da Foz do Amazonas.

As duas notícias chegaram com menos de trinta horas de diferença e, juntas, descrevem o Brasil de agosto de 2026 melhor do que qualquer indicador.

De um lado, uma companhia estatal encontra a fronteira exploratória que pode repor as reservas nacionais quando o pré-sal começar a declinar na próxima década — um ativo cujo valor se realiza em 2035, não em 2027. De outro, uma varejista de setenta e quatro anos, com mil lojas e dezenas de

milhares de empregados, vai à Justiça pedir proteção contra R$ 1 7,3 bilhões em dívidas porque não conseguiu atravessar cinco anos de juros altos.

O país tem futuro e tem dificuldade de chegar até ele.

É essa a tensão que organiza esta edição.

E ela se reproduz no plano internacional. Enquanto a Agência Internacional de Energia registra que as margens de refino da Bacia do Atlântico bateram recorde histórico em julho — o melhor ambiente possível para uma petroleira integrada como a Petrobras —, o mesmo relatório mostra que o mundo está com estoques no menor nível desde abril de 2025 e que o gargalo migrou do petróleo bruto para o diesel e o querosene de aviação. É bom para quem refina e péssimo para quem consome.

Nos Estados Unidos, a dívida federal cruzou US$ 40 trilhões e o Tesouro precisou dobrar suas operações de recompra de títulos para tentar conter os juros

longos. O alívio durou um dia. Na quinta-feira, os

yields voltaram a subir e o Walmart — que não é uma empresa de tecnologia nem de commodities, mas o termômetro mais confiável do consumidor americano

— derrubou os três principais índices ao reportar o crescimento de vendas comparáveis mais fraco desde 2020.

E aqui dentro, o Ibovespa fez o contrário do que a semana anterior sugeria: emendou três altas, subiu 2,45% e o dólar recuou 1 ,53%. Mas o estrangeiro seguiu vendendo — R$ 22 bilhões deixaram a B3 em agosto até o dia 1 9 —, o IBC-Br de junho caiu 0,6% e a corrida presidencial estreitou para o limite da margem de erro.

É esse o cenário. Vamos aos fatos.

AS PRINCIPAIS NOTÍCIAS DA SEMANA

1 .1 Petrobras confirma petróleo na Margem Equatorial

A notícia empresarial de maior alcance estratégico da semana — e possivelmente do ano — veio de

Oiapoque, no extremo norte do país.

O que foi encontrado. A Petrobras identificou hidrocarbonetos no poço exploratório Morpho (1 – BRSA-1 405-APS), no bloco FZA-M-59, Bacia da Foz do Amazonas, Margem Equatorial. O anúncio inicial saiu na sexta-feira, 1 4 de agosto, após o fechamento do mercado, por fato relevante à CVM e formulário 6-K à SEC. A confirmação formal veio na segunda-feira, 1 7 de agosto, em coletiva conduzida pela presidente Magda Chambriard ao lado do presidente Lula, do

ministro de Minas e Energia Alexandre Silveira, da ministra da Casa Civil Miriam Belchior e dopresidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Os dados técnicos. O poço está a aproximadamente 1 75 quilômetros da costa do Amapá — e a quase 500 quilômetros da foz do Rio Amazonas —, em lâmina d’água de 2.886 metros, portanto em águas

ultraprofundas. A Petrobras é operadora com 100%de participação, adquirida na 11 ª Rodada da ANP, em 2013. A perfuração começou em 20 de outubro de 2025, conduzida pelo navio-sonda NS-42, a um custo aproximado de US$1 milhão por dia — já haviam sido consumidos cerca de US$300 milhões. Faltavam cerca de mil metros e de quinze a vinte dias para concluir a perfuração. A presença de óleo foi

identificada por perfis elétricos e amostras de rocha.

A reação de mercado foi positiva e contida, e essa combinação é reveladora. Na manhã de segunda-feira, PETR4 subia 1 ,33% e PETR3, 1 ,24%, com os ADRs acompanhando. O Itaú BBA manteve recomendação de compra e elevou o preço-alvo de

PETR4 para R$ 63, num exercício ilustrativo em que a adição de cerca de 6 bilhões de barris de óleo

equivalente às reservas reduziria o múltiplo EV/Reserva de US$ 1 2,7 para US$ 8,5 por boe —

abaixo dos pares globais. A XP também elevou o alvo para R$ 63. O Citi manteve neutro, com alvo de R$ 47.O Bradesco BBI classificou a descoberta como relevante, mas alertou para o “intervalo longo entre encontrar hidrocarbonetos e comprovar um campo economicamente viável”. Ilan Arbetman, da Ativa, resumiu a posição prudente do mercado: trata-se de “opcionalidade exploratória”, sem efeito sobre preço-alvo até haver evidência de escala comercial.

A própria Chambriard fez questão de marcar a distinção: descoberta não é descoberta comercial.

O potencial, contudo, é de outra ordem de grandeza. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima 5,7 bilhões de barris recuperáveis apenas na Bacia da Foz do Amazonas. Se confirmado, isso elevaria as reservas provadas do Brasil em 33% e as da Petrobras em até 55%. Para o conjunto da Margem Equatorial, a EPE calcula um potencial de 41 bilhões de barris — acima dos 30 bilhões projetados pela ANP. O plano de negócios 2026-2030 da companhia prevê cerca de US$ 2,5 bilhões de investimento na região e quinze poços exploratórios.

O contexto de reposição explica por que isso importa. Ao fim de 2025, a Petrobras tinha 1 2,1 bilhões de boe em reservas provadas pelo critério SEC, com relação reserva/produção de aproximadamente 1 2,5 anos. O pré-sal responde por cerca de 80% da produção

nacional e deve começar a declinar no início da década de 2030. A Margem Equatorial é, hoje, a principal resposta brasileira a essa curva.

O gargalo é ambiental e regulatório. A licença de operação emitida pelo IBAMA em outubro de 2025 contempla apenas o poço Morpho. A Petrobras protocolou pedido para perfurar mais três poços na região, e a autorização segue em análise técnica. Vale lembrar que a companhia esperou mais de doze anos por essa liberação — o IBAMA havia negado a licença em 2023. A resistência de grupos indígenas e ambientalistas, pela sensibilidade do bioma costeiro amazônico, permanece.

Lula comparou o achado ao pré-sal de 2007, chamou-o de “passaporte para o futuro” e afirmou que o país “não vai permitir que ninguém meta o dedo” no

petróleo brasileiro.

A leitura estratégica. É o marco de fronteira exploratória mais importante do Brasil em quase vinte anos. Mas é um ativo de opcionalidade: não adiciona produção nem receita no curto prazo, e a velocidade do desenvolvimento dependerá criticamente do

IBAMA. Para o investidor, o efeito imediato é de reprecificação do valor terminal da Petrobras — não do fluxo de caixa de 2026.

1 .2 Casas Bahia: recuperação judicial e freio judicial nas demissões

Na madrugada de domingo, 1 6 de agosto, a Casas Bahia divulgou prejuízo líquido de R$ 1 0,1 1 7 bilhões no segundo trimestre, contra perda de R$ 555

milhões um ano antes. Ainda no domingo, protocolou pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo, com dívida declarada de R$ 1 7,3 bilhões. Na petição, descreveu o momento como a “pior crise financeira desde a sua fundação”.

Na segunda-feira, a ação BHIA3 desabou 33,33%, a R$ 0,44 — acumulando queda próxima de 80% no ano. A companhia vale hoje cerca de R$ 660 milhões em bolsa e carrega dívida vinte e seis vezes maior.

A composição do passivo. Do total sujeito à recuperação, aproximadamente R$ 1 6,4 bilhões (94,8%) estão com credores quirografários, sem garantia real — o grupo mais vulnerável a descontos e prazos longos. Somam-se R$ 754 milhões em dívidas trabalhistas e R$ 1 54 milhões com micro e pequenas empresas. O processo envolve o Grupo Casas Bahia e outras nove empresas do conglomerado. O

patrimônio líquido é negativo em R$ 8,1 bilhões;

excluídos os R$ 9,1 bilhões de efeitos não recorrentes, o prejuízo ajustado do trimestre foi de R$ 978 milhões.

A lista de credores é um retrato da cadeia industrial brasileira. Entre as instituições financeiras, o Bradesco concentra a maior exposição: somando créditos em nome próprio e os do Banco Digio, que controla, chega a R$ 4,78 bilhões. O Banco do Brasil também figura entre os maiores. No topo da relação individual está a Zurich Minas Brasil Seguros, com R$ 1 ,977 bilhão — parceira do grupo em garantia estendida e seguros de eletrônicos. Em seguida, o IBCB-AF01 FIDC, com R$ 1 ,09 bilhão.

E então vem a indústria: Samsung Eletrônica da Amazônia (R$ 937,6 milhões), Whirlpool (R$ 800,9 milhões), Electrolux (R$ 700,1 milhões), TCL Semp

(R$ 633,4 milhões), LG Electronics (R$ 623,7 milhões), Motorola Mobility (R$ 61 9 milhões), Britânia (R$ 354,8 milhões), Envision (R$ 296,3 milhões), Grupo

Multilaser (R$ 206,7 milhões), Apple Computer Brasil (R$ 1 83 milhões) e Lenovo (R$ 1 37,2 milhões). Os dezenove maiores credores somam

aproximadamente R$ 1 1 ,96 bilhões, ou 69% do passivo concursal.

O que motivou a urgência. A petição afirma que cláusulas de cross-default, ipso facto e outros covenants poderiam tornar exigíveis mais de R$ 1 0 bilhões de forma imediata — e que credores como Hisense Gorenje, Lenovo, FIDC Bio-Stars e FII-RL HSI Logística já haviam enviado notificações. A companhia também temia a retenção de recebíveis

dados em garantia, o que comprometeria até 60% do fluxo mensal de entradas e esvaziaria o caixa em poucos dias.

O freio trabalhista. Na terça-feira, 1 8 de agosto, a juíza Katarina Roberta Mousinho de Matos, da 1 1 ª Vara do Trabalho de Brasília (TRT da 1 0ª Região),

concedeu liminar suspendendo provisoriamente as demissões coletivas realizadas entre 1 3 e 1 7 de agosto, atendendo a pedido da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC). A entidade alegou que o fechamento de 298 lojas e a dispensa de aproximadamente 1 .900 funcionários ocorreram sem negociação sindical prévia.

A decisão invoca o Tema 638 do Supremo Tribunal Federal, que estabelece a obrigatoriedade de intervenção sindical prévia em dispensas em massa — sem, contudo, conferir poder de veto ao sindicato.

A empresa foi determinada a restabelecer provisoriamente os vínculos em cinco dias, reativar planos de saúde em quarenta e oito horas e convocar CNTC e sindicatos em dois dias, sob pena de multa. A companhia informou que “tomou conhecimento da decisão e está avaliando seus termos e os próximos passos cabíveis”.

A lição que o caso oferece a qualquer empresa alavancada. A Casas Bahia vinha melhorando operacionalmente: gerou R$ 798 milhões de fluxo de caixa livre no trimestre, reduziu estoques em R$ 685 milhões, cortou 28% o pagamento de juros ante o

quarto trimestre de 2025 e reduziu a dívida líquida em R$ 3,8 bilhões em doze meses — queda de 76%, mantendo alavancagem em meia vez o EBITDA. E foi à Justiça mesmo assim, porque o resultado financeiro líquido negativo consumiu a melhora operacional e as carências contratadas na recuperação extrajudicial de 2024 começaram a vencer ao longo de 2026.

A própria petição atribui a crise a três causas: a Selic elevada desde 2021 , que atinge de forma “especialmente severa” um modelo “estruturalmente dependente” do crediário; a inflação, que comprimiu a renda das famílias mais pobres; e a concorrência de plataformas internacionais, com Amazon e Mercado Livre citadas nominalmente.

Não é a primeira tentativa. Em 2023, a empresa já havia fechado 55 lojas, demitido 8,6 mil funcionários e cortado R$ 1 bilhão em estoques. Em 2024, a recuperação extrajudicial reestruturou R$ 4,8 bilhões. Dois anos depois, voltou à Justiça com uma dívida três vezes e meia maior.

Turnarounds não dependem apenas de finanças e credores. Dependem também de direito trabalhista, sindicatos, reputação e execução operacional. A

liminar do TRT-1 0 é o lembrete de que a velocidade de reestruturação que o balanço exige nem sempre é a que o ordenamento jurídico permite.

1 .3 O Ibovespa reage, mas o estrangeiro continua vendendo

Depois de onze pregões consecutivos de queda, o

Ibovespa emendou três altas e encerrou a sexta-feira(21) aos 1 71 .031 ,73 pontos, com avanço de 1 ,85% no dia e 2,45% na semana — o maior patamar desde 1 0 de agosto e a primeira semana positiva de agosto. O volume financeiro somou R$ 33,43 bilhões. O dólar comercial fechou a R$ 5,1 42, queda de 1 % no dia e de 1 ,53% na semana, no menor nível de fechamento em dez dias.

O motor foi o setor financeiro. O Índice Financeiro avançou 3,08%, com Itaú Unibanco (+2,91 %) e BTG Pactual (+3,99%) liderando, após semanas de pressão associada a preocupações com o ciclo de crédito. Entre as maiores altas do dia: Vamos

(+1 0,48%), Hapvida (+7,39%) — impulsionada pela decisão da ANS de suspender cautelar que impedia reajustes —, Magazine Luiza (+7,22%) e Minerva (+4,45%). A Embraer liderou a ponta negativa, com queda de 1 %.

Mas o fluxo desmente a leitura otimista. Dados da B3 mostram saída líquida de R$ 22 bilhões de capital estrangeiro em agosto até o dia 1 9 — contra R$ 1 3,56 bilhões até o dia 1 2. O estrangeiro seguiu vendendo mesmo nos pregões de alta. No mês, o índice ainda acumula queda de 3,91 %, e permanece cerca de

1 5,5% abaixo da máxima de 52 semanas, de 1 98.657 pontos.

Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, foi direto: o movimento “parece mais técnico do que estrutural, após a forte sequência de perdas registrada no início de agosto”; e “falta convicção de que a virada seja duradoura, já que a bolsa segue dependendo muito do capital estrangeiro, que saiu em peso do país neste mês, enquanto o investidor brasileiro segue mais recuado”. Bruna Sene, da Rico, atribuiu a recuperação a três fatores técnicos: a sequência prévia de perdas, o vencimento de opções e a

melhora do apetite global por risco.

O suporte externo veio do alívio nos juros longos americanos e do enfraquecimento do dólar global. O índice DXY recuou a 98,56, mínima de três meses. O real esteve entre as moedas de melhor desempenho da sexta-feira, ao lado do peso chileno; o euro atingiu o maior valor desde maio e a libra, o maior desde fevereiro.

1 .4 IBC-Br confirma a desaceleração brasileira

O Banco Central divulgou na segunda-feira (1 7) que o IBC-Br recuou 0,6% em junho frente a maio, na série dessazonalizada — resultado ligeiramente pior que a mediana da pesquisa Reuters, de queda de 0,53%.

A composição é o que importa: indústria –1 ,4%, serviços –0,5%, impostos sobre produtos –1 ,0% e agropecuária +1 ,0%. Excluída a agropecuária, o índice teria recuado 0,9%.

Nas demais bases, o indicador ainda cresce: alta de 1 ,5% em doze meses, 1 ,5% no acumulado do ano e 2,4% sobre junho de 2025. Mas o dado decisivo é o

trimestral: o IBC-Br cresceu apenas 0,2% no segundo trimestre, após alta de 1 ,2% no primeiro. É uma desaceleração de dois terços em três meses. Neste ano, apenas março e junho registraram contração mensal.

O IBGE divulga o PIB do segundo trimestre em 1 º de setembro. O primeiro trimestre havia crescido 1 ,1 %.

A leitura conversa diretamente com o caso Casas Bahia: a economia brasileira não está em recessão, mas o motor interno perdeu tração exatamente onde a Selic de 1 4% pesa — indústria, serviços e consumo financiado. O agro é o que segura a média.

1 .5 Focus mantém 2026 e piora 2027

O Boletim Focus divulgado na segunda-feira (1 7) manteve praticamente tudo para 2026 e piorou o horizonte seguinte:

Indicador

2026

2027

IPCA

5,02% (mantido)

4,24% (de 4,22%)

Indicador

2026

2027

PIB

1 ,98% (mantido)

1 ,50% (de 1 ,52%)

Selic

1 3,75% (mantida)

1 2,00%

Dólar

R$ 5,20

R$ 5,29

Há uma aparente contradição que merece explicação, porque ela é a chave do comportamento do Copom: o IPCA acumulado em doze meses até julho caiu para 4,44%, dentro da banda de tolerância — mas o Focus projeta 5,02% para o ano fechado, acima do teto de 4,5%. A diferença reflete a expectativa de aceleração à frente, puxada por alimentos, energia, efeitos

climáticos, câmbio e risco fiscal.

Vale registrar que a projeção de mercado para o PIB de 2026 (1 ,98%) contrasta com as demais leituras

institucionais — o Ipea projeta 1 ,60%, o próprio Banco

Central estima 2,00% e o governo federal trabalha com 2,30%. Depois do IBC-Br de junho, a estimativa do Ipea parece a mais bem calibrada.

A Selic segue em 1 4,00% ao ano desde a reunião de 4 e 5 de agosto. A mediana de 1 3,75% sinaliza a expectativa de mais um corte de 0,25 ponto, com pausa em seguida.

1 .6 Ormuz: seis meses de guerra e um estreito praticamente paralisado

O conflito entre Estados Unidos e Irã entrou no sexto mês sem solução política, e o principal corredor energético do mundo permanece longe da

normalidade.

Os números do tráfego. No fim de semana encerrado em 23 de agosto, menos de vinte embarcações de commodities cruzaram o estreito nos dois dias: quatro no domingo (23) e treze no sábado (22), segundo dados de rastreamento da Kpler. Na semana encerrada em 21 de agosto, a autoridade marítima

britânica (UKMTO) registrou 1 03 embarcações entrando e 89 saindo — das quais 45% eram petroleiros. O fluxo permanece aproximadamente

90% abaixo das linhas de base anteriores ao conflito, quando a média diária era de cerca de 1 30 navios.

Desde 6 de julho, autoridades marítimas britânicas registraram dezoito incidentes de disparo de projéteis contra embarcações na região — dezesseis deles na rota sul de Omã. Na madrugada de 1 8 de agosto, um ataque matou um tripulante e danificou a casa de máquinas de um navio.

Essa é a confirmação de uma leitura que venho construindo desde julho: Ormuz não precisa estar completamente fechado para produzir efeito econômico equivalente ao de um bloqueio. Seguro marítimo, disponibilidade de tripulação, risco de ataque, desvio de rota e escassez de navios bastam para reduzir drasticamente o comércio.

A divergência sobre volumes. Autoridades

americanas — inclusive o secretário de Energia Chris Wright — falam em até 1 5 milhões de barris diários saindo do Golfo, próximo aos níveis pré-conflito. Os dados de rastreamento contam outra história: a Windward estima cerca de 5 milhões de barris/dia de bruto por Ormuz em julho; o JPMorgan calcula 4

milhões; e a EIA americana estima fluxo médio de 4,9 milhões de barris/dia no segundo trimestre de 2026, contra 21 ,6 milhões no quarto trimestre de 2025. Matt Smith, da Kpler, foi lacônico: “não é possível conciliar a disparidade entre o que vemos e o que ele cita.”

1 .7 O gargalo migrou do petróleo para o diesel

Esta é, na minha avaliação, a análise mais importante da semana no campo energético, e ela reorganiza o mapa de risco de várias indústrias brasileiras.

A discussão deixou de ser quantos barris de petróleo bruto atravessam Ormuz. Passou a ser se há diesel, querosene de aviação e derivados suficientes no lugar certo.

O Relatório do Mercado de Petróleo da Agência

Internacional de Energia de agosto registra que as margens de refino da Bacia do Atlântico atingiram máximas históricas em julho, com os cracks de

diesel, querosene e gasolina disparando diante de mercados de derivados cada vez mais apertados. As cargas processadas globais de refino em julho ficaram cerca de 5 milhões de barris/dia abaixo do ano anterior, e os estoques globais de petróleo caíram 69 milhões de barris, ao menor nível desde abril de 2025.

Os números do mercado asiático confirmam o aperto. As importações asiáticas de destilados leves e médios ficaram 1 8,5% abaixo da média pré-guerra em julho — 5,76 milhões de barris/dia, contra média de 7,07 milhões nos três meses até fevereiro. E a margem de refino de gasóleo em Cingapura atingiu US$ 71 ,29 por barril em 21 de agosto, patamar excepcional. Na Europa, o prêmio do diesel sobre o Brent quase triplicou, de cerca de US$ 25 no início do ano para mais de US$ 70.

Os setores mais expostos, segundo a AIE e a S&P

Global, são o petroquímico e a aviação — o querosene de aviação é “a parte do barril sob maior pressão”. Na agricultura, há um vetor adicional pouco notado: a Península Arábica importa cerca de 1 0% do açúcar bruto mundial e exporta aproximadamente 5% do açúcar refinado global via Ormuz.

Para o Brasil, o efeito é duplo e assimétrico. A Petrobras, que opera refino integrado exatamente na bacia onde as margens explodiram, está diante de uma janela de rentabilidade excepcional. Mas

aviação, logística rodoviária, mineração e agronegócio — todos intensivos em diesel — enfrentam pressão de custo que não se resolve com

queda do Brent, porque o problema não está no bruto.

1 .8 Sanções, petróleo e o cerco àChina

Na quinta-feira (20), o secretário do Tesouro americano Scott Bessent ameaçou o Irã com “as sanções mais duras da história”, prometendo detalhes para segunda-feira, 24 de agosto, com o objetivo de pressionar Teerã a reabrir Ormuz e

encerrar a guerra. Trump havia ameaçado, na sexta-feira anterior, impor sanções econômicas aos parceiros comerciais do Irã e alertado para “consequências econômicas tremendas” a quem continuasse a fazer negócios com Teerã.

As sanções estão funcionando. As exportações de petróleo iraniano para compradores chineses caíram para aproximadamente 534 mil barris/dia no acumulado de agosto, contra 823 mil em julho e 785 mil em junho — o menor nível desde fevereiro de 2023. A média de 2025 havia sido de 1 ,4 milhão de barris/dia. Não se observou travessia de

superpetroleiros com bruto iraniano por Ormuz desde meados de julho.

As respostas foram duras. A China rejeitou

publicamente as medidas, afirmando que sanções unilaterais “não devem ser reconhecidas, aplicadas nem respeitadas” e que não atendem ao interesse de nenhuma parte — e Washington tem pouca

alavancagem sobre Pequim nesse ponto. O Irã

declarou postura “totalmente ofensiva” em Ormuz e prometeu resposta “devastadora”; o porta-voz da chancelaria, Esmaeil Baghaei, classificou a ameaça como “uma receita para um retorno abissal ao

colonialismo clássico”.

O preço. O Brent do contrato de outubro fechou a sexta-feira (21 ) a US$ 94,39 por barril, alta de 0,65% no dia e de 6,39% na semana — segunda semana consecutiva de fortes ganhos. O WTI encerrou a US$ 87,06, com alta semanal de 5,66%. Ambos tocaram, na quinta-feira, as maiores cotações desde 24 de

julho. Nesta segunda-feira (24), os preços recuavam: Brent a cerca de US$ 93,1 6 (–1 ,3%) e WTI a US$ 85,70 (–1 ,6%), com o mercado ajustando posições à espera do anúncio das sanções.

Há uma mudança de natureza no prêmio de risco que vale registrar. Phil Flynn, do Price Futures Group, resumiu: “Ormuz ainda é um problema, mas não é mais a única questão.” Oleodutos, navios de transporte, o xisto americano, uma Venezuela em recuperação — ainda que com gargalos — e os Emirados sem restrição estão suprindo parte do

vazio. Isso reduz a sensibilidade marginal do preço a cada manchete, mas mantém o piso elevado.

O que muda quando uma guerra completa seis meses. No início, predominam choque, volatilidade, corrida por estoques e aversão ao risco. Depois de alguns meses, surgem novas rotas, novos

fornecedores, capacidade alternativa, substituição de insumos, sanções secundárias e mudanças estruturais de investimento. A guerra deixa de ser um

evento e passa a reorganizar cadeias globais. É nessa fase que estamos.

1 .9 A dívida americana cruza US$ 40 trilhões

Uma das notícias mais importantes da semana circulou pouco fora dos mercados financeiros.

Em 1 8 de agosto, a dívida federal bruta dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões, atingindo US$ 40.047.426.000.000, segundo o Daily Treasury Statement. Desse total, aproximadamente US$ 32,27 trilhões são dívida em poder do público e US$ 7,78 trilhões são intragovernamentais. A passagem de US$ 39 trilhões

— atingidos em março — para US$ 40 trilhões levou menos de cinco meses.

O número ganhou relevância porque os investidores começaram a exigir juros maiores para financiar os vencimentos longos. O Treasury de 30 anos superou 5,33% em 1 8 de agosto, máxima de quase duas décadas, recuando depois para a faixa de 5,1 8% a 5,27%.

A intervenção. Na quarta-feira (1 9), Bessent anunciou a duplicação das operações de recompra de títulos de 1 0 a 30 anos, de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação — o que implica algo em torno de US$ 32 bilhões por trimestre. No dia

seguinte, à CNBC, sinalizou que o valor “poderia ser mais de US$ 4 bilhões por emissão”. As operações estão programadas de meados de setembro a início de novembro. Anteriormente, a administração já havia ajustado requisitos de capital de grandes bancos para incentivá-los a manter mais Treasuries em carteira.

O efeito durou um dia. Os rendimentos caíram no anúncio; na quinta-feira (20), voltaram a subir.

Bessent prometeu apresentar, ao lado de Russ Vought, do OMB, um plano de “consolidação fiscal” — sem que o déficit, projetado em cerca de 6% do PIB neste ano, tenha entrado na estratégia. O dólar caiu à mínima de três meses.

Por que isso pode importar mais para as empresas do que um movimento de 0,25 ponto no Fed. A

discussão pública se concentra na taxa básica. Mas empresas e governos captam em prazos longos. Se os juros de 1 0, 20 e 30 anos permanecerem elevados independentemente do Fed, então hipotecas

continuam caras, infraestrutura continua cara, valuations permanecem pressionados, empresas

alavancadas seguem vulneráveis e o private equity

enfrenta custo maior de financiamento.

O mundo pode estar entrando num regime em que bancos centrais cortam juros curtos, mas o custo estrutural do capital permanece alto. É a hipótese mais importante a testar para 2027 — e o principal canal de transmissão para o Brasil, porque Treasuries longos elevados retêm capital nos Estados Unidos e drenam liquidez dos emergentes. É a explicação mais econômica para os R$ 22 bilhões que deixaram a B3 em agosto.

1 .1 0 O Walmart derruba Wall Street

Na quinta-feira (20), os três principais índices americanos caíram: Dow Jones –1 ,32% (703,84

pontos, a 52.759,21 ), S&P 500 –0,87% (7.641 ,1 6) e

Nasdaq –1 % (26.067,1 7).

O gatilho foi o Walmart, cujas ações recuaram cerca de 9%, no pior dia em mais de quatro anos. O paradoxo é que a empresa bateu as estimativas de lucro — EPS ajustado de US$ 0,81 , contra US$ 0,74 esperado, e receita de US$ 1 87,9 bilhões, alta de

5,9% — e elevou o guidance anual. O que derrubou o papel foram as vendas comparáveis nos Estados Unidos, que cresceram 2,6% contra 3,5% esperados pelo consenso FactSet: o pior ritmo desde o fim de 2020. O presidente-executivo John Furner resumiu: “os clientes nos dizem que ainda sentem alguma pressão”.

O que o movimento revela. Nas semanas anteriores, resultados fortes de tecnologia conseguiam compensar quase todo dado econômico negativo.

Agora, o mercado começa a separar com mais clareza empresas beneficiadas pela Inteligência

Artificial, consumo tradicional, negócios expostos a juros e companhias dependentes de crédito. A economia americana está cada vez menos homogênea — e o Walmart é o termômetro mais

confiável da metade que não participa do boom de IA.

1 .1 1 Nvidia: o maior teste do ciclo de Inteligência Artificial

A Nvidia divulga os resultados do segundo trimestre do ano fiscal de 2027 em 26 de agosto, após o fechamento. O consenso Bloomberg projeta receita de aproximadamente US$ 92 bilhões, alta de 96% em doze meses, e lucro por ação ajustado de US$ 2,09, contra US$ 1 ,05 um ano antes. O guidance da própria companhia era de US$ 91 bilhões, com margem de 2%, e margem bruta não-GAAP de 75%, excluindo qualquer receita de data center proveniente da China. A divisão de data center deve responder por cerca de US$ 85 bilhões.

A companhia reportou carteira de pedidos de US$ 1 trilhão para 2026 e 2027, e os embarques dos processadores Vera Rubin começam no segundo semestre de 2026. Os hyperscalers acumulam backlog contratado da ordem de US$ 2,3 trilhões.

Por que o resultado transcende a empresa. Ele

funciona como teste para data centers, chips, nuvem, energia, construção, financiamento estruturado e software empresarial. A tese de investimento em IA deixou de ser uma discussão tecnológica e passou a ser uma discussão macroeconômica. Se a Nvidia confirmar crescimento excepcional, o ciclo permanece forte. Se sinalizar desaceleração, toda a cadeia será reprecificada — e o risco principal está no guidance decepcionar expectativas elevadas, mais do que num eventual erro de lucro.

1 .1 2 Alibaba levanta US$ 1 0,2 bilhões para financiar a corrida chinesa de IA

No domingo (23), a Alibaba anunciou uma colocação de ações de HK$ 80 bilhões (US$ 1 0,2 bilhões) em Hong Kong — a maior oferta primária subsequente da história de uma empresa listada na praça e a terceira maior globalmente em 2026, atrás apenas de

Alphabet (cerca de US$ 85 bilhões) e Intel (cerca de US$ 20 bilhões).

Foram 71 0 milhões de novas ações a HK$ 1 1 2,70, com desconto de aproximadamente 8,4% sobre o fechamento de sexta-feira, destinadas a investidores fora dos Estados Unidos. A demanda superou em cerca de três vezes o volume ofertado, com ordens totais próximas de US$ 28 bilhões, incluindo cerca de US$ 6 bilhões de fundos soberanos e gestoras long-only. O fechamento está previsto para 26 de agosto.

A destinação é integral para IA de “pilha completa” — chips, infraestrutura e modelos. A companhia reduziu o prazo estimado de payback dos investimentos em

Inteligência Artificial de três para dois anos e meio. No trimestre abril-junho, o lucro líquido caiu 75% em doze meses, com o capex saltando 75%, a 67,7

bilhões de yuans (cerca de US$ 9,5 bilhões). A família de modelos Qwen, incluindo o recém-lançado Qwen3-Max, está entre as mais adotadas globalmente.

As ações caíram até cerca de 1 0% em Hong Kong nesta segunda-feira, fechando o pregão matinal em queda de 9,8%, a HK$ 1 1 1 — reflexo da diluição e do risco de execução.

A mudança de fase que isso sinaliza. A transparência sobre prazo de retorno é o elemento novo. A corrida global de Inteligência Artificial entrou no estágio em que o capital exige demonstração de retorno sobre o

investimento — não mais apenas visão. É exatamente a lógica que deve orientar qualquer empresa

brasileira que esteja avaliando investimento em IA: o

critério passou a ser ROI auditável.

1 .1 3 China: os “Jogos Olímpicos dos robôs” e o próximo choque industrial

Entre 22 e 26 de agosto, Pequim sediou a segunda edição do World Humanoid Robot Games, no National Speed Skating Oval — o “Ice Ribbon” das Olimpíadas de Inverno. Foram 666 equipes, 2.056 robôs, 1 6 países e 51 eventos, totalizando 1 .301 provas e combates. Participaram as principais empresas

chinesas do setor: Unitree, UBTech, AgiBot, Fourier, EngineAI e X-Humanoid.

Entre os destaques técnicos, um robô da X-Humanoid teria completado os 1 00 metros em 9,39 segundos — abaixo do recorde humano — e o modelo “Superman”mda Unitree confirmou velocidade de 1 2,66 metros por segundo e salto de dois metros. A Unitree abriu

capital na STAR Market de Xangai com valorização de aproximadamente 629% na estreia, atingindo

valuation próximo de US$ 66 bilhões.

Wang Peng, da Academia de Ciências Sociais de Pequim, sintetizou a evolução: “ano passado era sobre chegar à linha de chegada; este ano é sobre concluir a tarefa.”

Pode parecer curiosidade tecnológica. Não é. A

China está tentando transformar Inteligência Artificial, robótica, manufatura, baterias e sensores numa única plataforma industrial, com prioridade política

explícita. O Morgan Stanley projeta mais de 300

milhões de robôs humanoides no país até 2050, com foco em volume, custo baixo e escala.

Para a indústria brasileira, esse pode ser um vetor mais disruptivo do que veículos elétricos ou painéis solares. O próximo “China Shock” pode não ser de produtos baratos — pode ser de automação barata. Uma indústria de transformação que já compete em desvantagem de produtividade enfrentaria um concorrente com custo de automação

estruturalmente inferior. É um risco de médio prazo que precisa entrar no planejamento agora, não em 2030.

1 .1 4 Europa surpreende positivamente

A atividade empresarial da Zona do Euro acelerou em agosto ao ritmo mais forte do ano, segundo os dados preliminares da S&P Global/HCOB divulgados em 21 de agosto.

O PMI Composto subiu a 52,1 , ante 52,0 em julho — máxima desde novembro —, sinalizando crescimento de PIB próximo de 0,3% no terceiro trimestre. A manufatura avançou a 52,8, ante 51 ,9, atingindo o maior nível em cerca de quatro anos e meio, puxada pela Alemanha, cujo PMI industrial chegou a 54,1 , com a produção mais forte desde janeiro de 2022. Os serviços ficaram em 51 ,7.

Os detalhes são os mais encorajadores: novos

pedidos no maior nível em quarenta meses, primeira expansão de novos pedidos de exportação em quatro anos e meio, emprego crescendo pela primeira vez em 2026 e custos de insumos desacelerando à

mínima de seis meses. No Reino Unido, os índices de composto e serviços também contrariaram previsões de queda.

Para o Brasil, isso é positivo, porque a Europa representa destino de exportações, fonte de

investimento, parceiro tecnológico, mercado para

alimentos e fonte de financiamento. A recuperação da manufatura alemã favorece particularmente autopeças, alimentos, metais, aeronáutica e serviços empresariais brasileiros.

Mas há o outro lado: crescimento resiliente

combinado com inflação persistente reduz o espaço do Banco Central Europeu para aliviar juros e mantém o viés restritivo para a decisão de setembro.

1 .1 5 A eleição brasileira entra em zona de empate técnico

Datafolha, divulgada em 21 de agosto — primeiro

levantamento após o início oficial da campanha. No primeiro turno, Lula 39% e Flávio Bolsonaro 33%. No segundo pelotão: Ronaldo Caiado (PSD) 5%, Renan Santos (Missão) 4%, Romeu Zema (Novo) 3% e Augusto Cury (Avante) 2%. Na simulação de segundo turno, Lula 47% e Flávio 43% — diferença de quatro pontos, dentro da margem de erro de dois pontos, configurando empate técnico. Lula venceria também Caiado (47% a 40%) e Zema (48% a 38%).

Ficha técnica: 2.058 eleitores com 1 6 anos ou mais, entrevistados entre 1 8 e 20 de agosto em 1 27

municípios, margem de erro de dois pontos percentuais, nível de confiança de 95%, registro no TSE sob BR-04496/2026. Contratada pelo Grupo Folha e pelo Grupo Globo.

BTG/Nexus, 1 0ª rodada, divulgada em 1 7 de agosto. Primeiro turno: Lula 41 % e Flávio 36%; Caiado 5%, Renan Santos 4%, Zema 4%. Segundo turno: Lula 47% e Flávio 44%. Ficha técnica: 2.003 entrevistados por telefone nas 27 unidades da federação, margem de erro de dois pontos, 95% de confiança, registro TSE BR-0331 7/2026.

A trajetória é o dado, não a fotografia. No Datafolha, a vantagem de Lula no primeiro turno era de dez pontos em junho (41 % a 31 %), oito em julho (40% a 32%) e agora seis. No segundo turno, passou de

cinco para quatro pontos. Na série do BTG/Nexus, Flávio vem avançando consistentemente desde o início de agosto.

A conclusão política é inequívoca: a eleição está competitiva e o segundo turno tende a produzir volatilidade crescente de mercado. A fidelidade

eleitoral é alta em ambos os campos — entre 80% e 88% dos eleitores com voto definido.

O contexto institucional inclui a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro e a inelegibilidade de Pablo Marçal, que o TSE proibiu de usar fundo partidário ou fazer propaganda em televisão até o julgamento de sua candidatura, previsto para até 1 4 de setembro.

1 .1 6 As campanhas ganham equipes econômicas

A semana marcou a profissionalização do debate econômico eleitoral.

Em 1 8 de agosto, Flávio Bolsonaro formalizou Adolfo Sachsida — ex-ministro de Minas e Energia e ex-secretário de Política Econômica — na coordenação econômica da campanha, ao lado de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa. Entraram também Adriano Pires, fundador do CBIE e indicado à

presidência da Petrobras em 2022, e o advogado Alexandre Chequer, chefe de energia do escritório Mayer Brown, para as pautas de energia e

infraestrutura — além de Lyvia Montezano e Carolina Ragazzi, ex-Goldman Sachs. O senador Rogério

Marinho integra a coordenação.

Em 21 de agosto, mais sete nomes foram

anunciados: Eduardo Cavendish Carvalho, Alexandre Ywata, Alexandre Messa (Ipea e ex-Camex), Andrei Spacov, Arilton Teixeira, Myrian Prado e Vladimir Kühl Teles — totalizando nove na coordenação econômica. O movimento inclui ainda Luiz Felipe Trevisan, ex-Itaú BBA, e aproxima a candidatura do mercado

financeiro.

O programa, batizado “Para o Brasil Vencer o Atraso”, organiza-se em nove eixos e propõe crescimento sustentado de 4% ao ano na próxima década, redução gradual do custo do trabalho formal, revisão de

impostos, R$ 900 bilhões em infraestrutura em quatro anos e agenda de desregulamentação. Sachsida enfatizou o combate à “perigosa combinação de juros altos, endividamento e

comprometimento das contas públicas”, com foco em estabilização e redução da dívida pública e menor uso de crédito subsidiado.

A campanha de Lula, apoiada na equipe de governo, tende a enfatizar renda, emprego, investimento

público, programas sociais e política industrial.

O que isso significa para os mercados. À medida que a eleição avança, o acompanhamento deixa de ser apenas de pesquisas e passa a ser comparação de programas: regras fiscais, tributação, estatais, concessões, política industrial e relação com Estados Unidos e China. A partir de 28 de agosto, com o início do horário eleitoral gratuito, esse debate ganha

alcance de massa.

1 .1 7 Tarifas americanas: o empilhamento chegou a 37,5%

O regime tarifário aplicado ao Brasil merece descrição precisa, porque a soma das camadas mudou o cálculo de exposição de vários setores.

Vigoram cumulativamente duas medidas baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio americana: (a)

tarifa de 25%, em vigor desde 22 de julho, resultante de investigação sobre práticas consideradas desleais em comércio digital, meios de pagamento,

propriedade intelectual e desmatamento; e (b) sobretaxa adicional de 1 2,5% por trabalho forçado, em vigor desde 24 de julho, decorrente de

investigação sobre a suposta falha brasileira em coibir a importação de bens produzidos nessas condições. O empilhamento resulta em carga adicional de aproximadamente 37,5%.

As novas tarifas atingem cerca de US$ 6,6 bilhões em exportações brasileiras, segundo o MDIC. Ficam de fora bens já submetidos à Seção 232 (aço,

alumínio, cobre, veículos e autopeças, madeira, semicondutores), além de energia, fertilizantes,

produtos agrícolas tropicais e insumos farmacêuticos qualificados. Os grupos mais expostos são máquinas, vestuário, calçados e etanol.

A resposta brasileira segue em rito. O governo abriu processo com base na Lei de Reciprocidade Econômica, com a Secretaria-Executiva da Camex compartilhando o pleito com o Comitê-Executivo de Gestão; o Itamaraty notifica Washington e solicita consultas diplomáticas, e o Brasil já apresentou

pedido de consultas na OMC. A abertura do processo não implica aplicação imediata de contramedidas.

Em paralelo, o Congresso acelera o PL 2.799/201 5, que proíbe a importação de bens produzidos com trabalho forçado ou infantil — resposta direta ao argumento americano. O governo classifica as tarifas como “arbitrárias e injustificadas” e destaca que a Organização Internacional do Trabalho reconhece o Brasil como referência no combate ao trabalho forçado.

A recomendação que faço pela quarta semana consecutiva permanece: empresas com poucos clientes, venda majoritária aos Estados Unidos, margem estreita e ausência de certificações em

mercados alternativos são as mais vulneráveis a uma escalada. A hora de diversificar é antes do desfecho, não depois.

1 .1 8 O agronegócio tem sua melhor semana do ano

Seis das onze ações do agro acompanhadas pelo mercado subiram mais de 1 5% na semana. São Martinho liderou, com +24,64%, seguida por MBRF (+21 ,59%), Jalles Machado (+20,69%), SLC Agrícola (+20,20%), Boa Safra (+1 8,81 %) e Minerva Foods (+1 5,99%). Na ponta oposta, a Raízen destoou e recuou 7,69%; 3tentos (–0,96%) e JBS (–0,51 %) também fecharam no vermelho.

Três motores explicam o movimento.

O açúcar. A commodity acumula alta de 1 9% em agosto. A produção de açúcar do Centro-Sul está 1 1 ,2% abaixo do ano anterior, com as usinas

alocando mais cana para etanol; as chuvas no Sudeste Asiático seguem abaixo do necessário, com atrasos acumulados na Índia e na Tailândia; e ondas de calor pressionam a beterraba europeia.

A volta da Índia ao mercado importador. Em

notificação publicada na quinta-feira (20), o Ministério do Comércio e Indústria indiano autorizou a

importação de 1 milhão de toneladas de açúcar por cota tarifária, até 31 de outubro de 2026. Marcelo Di Bonifacio Filho, analista da StoneX, avaliou que a entrada da Índia adiciona demanda relevante num

intervalo curto — pouco mais de dois meses —, o que explica boa parte da reação das cotações. O país, um dos maiores produtores e consumidores do mundo, vinha anos sem recorrer a importações relevantes.

A política brasileira de biocombustíveis. O PLP 1 1 4/2026, aprovado na semana anterior e

aguardando sanção presidencial, prevê redução ou

suspensão de impostos sobre a cadeia do etanol. Se sancionado, tende a estimular a produção do

biocombustível, reduzindo ainda mais a oferta de açúcar. A Conab elevou a previsão de produção de etanol no ciclo 2026/27 para 41 ,88 bilhões de litros.

Nos grãos, entre 1 3 e 20 de agosto os contratos de soja (novembro/2026) e milho (dezembro/2026) em Chicago avançaram 4,57% e 6,36%. O UBS BB elevou o preço-alvo da SLC Agrícola de R$ 1 3,80 para R$ 1 6, avaliando que o mercado já teria incorporado aos preços o risco de queda de produtividade provocado pelo El Niño — leitura que merece cautela, já que o pico do fenômeno está previsto para o trimestre outubro-dezembro. A companhia anunciou proventos de R$ 0,90 por ação.

1 .1 9 Trump abre janela de 90 dias para a carne moída

Na sexta-feira (21 ), Trump anunciou que os Estados Unidos permitirão, pelos próximos 90 dias, a importação de até 300 mil toneladas de produto para carne moída sem tarifa e fora de cota. “Enquanto trabalhamos para reconstruir nosso rebanho e ajudar nossos pecuaristas”, escreveu, acrescentando que a carne seria vendida com desconto de 25% sobre os preços de mercado.

O contexto é inflacionário e eleitoral: o poder de compra é a principal preocupação dos americanos às vésperas das eleições de meio de mandato de novembro, e em maio o bife custava 1 5% mais que um ano antes. Em 1 º de julho de 2026, o rebanho de vacas de corte americano foi estimado em 28,5 milhões de cabeças, redução anual de 1 %.

Para o Brasil, a oportunidade é real, mas estreita. O volume global equivale a cerca de 661 ,4 milhões de libras, e não há parcela reservada ao país — a fatia

dependerá de regras aduaneiras, requisitos sanitários e capacidade de embarque no prazo. A ordem executiva deve ser assinada em até duas semanas.

Vale lembrar que carnes, café e minérios já estavam fora da tarifa de 25%: a medida não reverte o tarifaço, amplia uma janela de cota.

O contrapeso é a China, que desde 2026 limita compras de seus principais fornecedores, com cota de aproximadamente 1 ,1 06 milhão de toneladas para o Brasil no ano e tarifa adicional de 55% sobre

volumes excedentes.

1 .20 Movimentações corporativas brasileiras

Suzano anunciou, em ata de reunião de conselho de 1 2 de agosto divulgada em 21 de agosto, a saída de três vice-presidentes e a reorganização das

atribuições da diretoria executiva. Para uma companhia que se tornou líder global de celulose por excelência de execução, uma mudança dessa escala no comando é evento a monitorar.

Cosan confirmou, em 20 de agosto, que recebeu propostas vinculantes por parte de sua participação na Rumo — passo relevante no plano de

desalavancagem da holding, que já havia anunciado a venda do Terminal Porto São Luís por R$ 300

milhões. A ação subiu 1 3,04% na semana.

Embraer teve a compra de mais oito jatos E1 90-E2 aprovada pela ANA Holdings, em negócio de aproximadamente US$ 670 milhões.

Lojas Renner cortou a projeção de crescimento de receita líquida do varejo para 2026 de 9%–1 3% para 4%–8%, citando fluxo menor de clientes e ambiente macroeconômico desafiador. No mesmo segmento, a Riachuelo surpreendeu positivamente — evidência de que a crise do consumo não atinge todos os operadores da mesma forma.

Allos confirmou dividendos intermediários de R$ 0,291 91 761 8 por ação, com pagamento em 2 de setembro.

Entre as maiores altas da semana na B3: Recrusul (+27,27%), Jalles (+25,00%), Americanas (+22,63%),

São Martinho (+21 ,84%), MBRF (+21 ,37%), Minerva

(+1 7,70%), SLC (+1 5,65%), Dasa (+1 5,1 8%), Azevedo &

Travassos (+1 4,57%) e Cosan (+1 3,04%).

No plano estadual, o Datafolha apontou o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) liderando a disputa pelo governo do Rio de Janeiro com 41 % das intenções de voto.

1 .21 O caso Lulinha entra na campanha

O pano de fundo político da semana foi o avanço das investigações contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, alvo de três inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal a pedido da Polícia Federal, sob relatoria do ministro André Mendonça.

A apuração investiga suspeitas de tráfico de

influência e corrupção em articulações com o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e com a empresária Roberta Luchsinger. Os

investigadores apuram se houve influência indevida no Ministério da Saúde e no gabinete da Presidência para favorecer a liberação e a comercialização de canabidiol medicinal em programas do governo, além da participação da empresária em reuniões no

Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.

Nos últimos dias, reportagens baseadas em documentos da investigação apontaram possível “comunhão de interesses econômicos” entre os

investigados em negociações relacionadas a contratos públicos, e vieram a público mensagens sobre uma viagem internacional que teria sido financiada pela empresária. Em episódio correlato, pagamentos de R$ 249 mil feitos por Roberta Luchsinger ao ex-assessor Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, levaram-no a deixar a equipe

responsável pela agenda de campanha do presidente; ele afirma que se tratou de empréstimo pessoal, já quitado, e nega irregularidade.

O Instituto Democracia em Xeque registrou 1 81 mil menções ao caso nas primeiras vinte e quatro horas após a nova rodada de revelações. Lulinha não foi condenado e as suspeitas seguem sob apuração — mas o caso já é citado por mesas de operação como fator que eleva a percepção de competitividade da candidatura de oposição.

1 .22 Jackson Hole: sexta-feira é o dia

O simpósio de política econômica do Fed de Kansas City ocorre de 27 a 29 de agosto, no Jackson Lake Lodge, em Wyoming. Kevin Warsh faz o discurso principal na manhã de sexta-feira, 28, às 1 0h no horário de Nova York — sua estreia como presidente do Federal Reserve, diante de cerca de 1 20

banqueiros centrais, economistas e autoridades de mais de setenta países. O tema deste ano é “Inovação Financeira: Implicações para Pagamentos e Política”.

O discurso ocorre dezenove dias antes da decisão do FOMC de 1 6 de setembro, e o mercado precifica aproximadamente uma chance em três de alta de juros.

Por que este discurso carrega mais informação que os anteriores. Warsh assumiu em 22 de maio, sucedendo Jerome Powell, e desde então reduziu deliberadamente a orientação prospectiva: omitiu projeções específicas de taxas, encurtou os

comunicados e passou a focar na função de reação em vez de sinalizar movimentos. O efeito é que

qualquer pronunciamento relevante seu tem valor informacional genuíno — algo que os discursos

telegrafados da era anterior não tinham. As atas de

julho revelaram ainda que ele estuda reduzir de oito para seis o número de reuniões anuais do comitê, e ele convocou quinze especialistas externos para revisar o arcabouço de política monetária, com recomendações esperadas até o fim de 2026.

O contexto é de comitê dividido. A reunião de 29 de julho terminou em votação de nove a três para manter os juros em 3,50%–3,75%, com Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan dissentindo em favor de alta imediata — o maior nível de

dissidência restritiva em quase uma década. Após aquela reunião, Warsh ofereceu pouca visão sobre a economia; investidores interpretaram como falta de determinação em trazer a inflação à meta, e os juros longos subiram para máximas de duas décadas.

Warsh já sinalizou que a alta das taxas longas por si só já contribui para apertar as condições financeiras

— argumento que, se repetido, funciona como justificativa para não elevar a taxa básica.

O que o mercado espera. Pesquisa do Bank of

America de meados de agosto mostrou que 69% dos gestores esperam tom neutro. E é justamente aí que mora o risco: quando o consenso precifica

neutralidade, é a surpresa que move preços. A TD Securities avalia que o discurso deve produzir volatilidade cambial mais do que direção, com Warsh concentrado em temas estruturais — produtividade, crescimento impulsionado por Inteligência Artificial, dinâmica de oferta e potencial mudança de regime no arcabouço de metas.

    2. FONTES

Primárias e institucionais: Petrobras (fato relevante à CVM e formulário 6-K à SEC, 1 4/08; coletiva de 1 7/08)

· ANP · EPE · IBAMA · Banco Central do Brasil (IBC-Br de junho; Boletim Focus de 1 7/08) · IBGE · Ministério da Fazenda/SPE · Federal Reserve (FOMC de 29/07 e atas; agenda de Jackson Hole) · Tesouro dos Estados Unidos (Daily Treasury Statement) · Agência

Internacional de Energia (Oil Market Report de agosto/2026) · EIA · UKMTO · Kpler · Windward · S&P Global e HCOB (PMI preliminar de agosto) · Ministério do Comércio e Indústria da Índia · Conab · MDIC · Camex e Ministério das Relações Exteriores · USTR · Tribunal Superior Eleitoral (registros BR-04496/2026 e BR-0331 7/2026) · Tribunal Regional do Trabalho da

1 0ª Região · 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo · B3 · SEC · comunicados corporativos via relações com investidores.

Imprensa brasileira: InfoMoney · Money Times · Exame · Seu Dinheiro · Forbes Brasil · NeoFeed · Suno

· Finance News · Bora Investir/B3 · Agência Brasil ·

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3. PANORAMA ATUAL E IMPACTOS

        3.1 Economia mundial

A economia global entrou numa fase que se descreve melhor por uma frase do que por um número: crescimento baixo com custo de capital estruturalmente elevado.

Durante meses, a hipótese dominante foi de que o fim do choque do petróleo permitiria a sequência clássica

— inflação menor, juros menores, crescimento maior.

A semana mostrou que pode não ser tão simples. Mesmo que o petróleo eventualmente ceda, permanecem dívida pública em expansão, tarifas, gastos militares, investimentos massivos em

Inteligência Artificial, necessidade de infraestrutura e cadeias redundantes. Tudo isso demanda capital — e essa demanda pode manter os juros longos elevados independentemente do que os bancos centrais façam com as taxas curtas.

Cinco tensões operam simultaneamente:

Energia. Ormuz a 1 0% do tráfego normal, seis meses de guerra e o gargalo migrando do bruto para os

derivados, com margens de refino recordes no Atlântico.

Capital. Dívida americana em US$ 40 trilhões, Treasury de 30 anos em máximas de duas décadas, intervenção do Tesouro sem efeito duradouro.

Tecnologia. Corrida de IA entrando na fase de cobrança de retorno — Alibaba levantando US$ 1 0,2 bilhões com payback declarado de dois anos e meio, Nvidia sob teste na quarta-feira.

Comércio. Protecionismo com válvula de escape eleitoral: tarifas estruturais mantidas, exceções pontuais abertas para conter preços domésticos.

Produtividade. A China transformando IA, robótica e manufatura numa plataforma industrial única — o vetor mais subestimado de todos.

        3.2 Estados Unidos

O maior paradoxo macroeconômico do mundo desenvolvido ficou mais evidente nesta semana.

A economia real desacelera — o Walmart sinalizou o consumidor sob pressão e as vendas comparáveis mais fracas desde 2020. O mercado acionário segue relativamente forte, sustentado por lucros de tecnologia. A Inteligência Artificial atrai investimento histórico. A dívida pública ultrapassou US$ 40

trilhões. O Fed ainda não sabe se precisará subir juros novamente. E o Treasury de longo prazo já cobra prêmio elevado, independentemente do que o Fed decida.

O maior risco para 2027 talvez não seja uma recessão clássica. Pode ser um regime de crescimento razoável convivendo com custo de capital persistentemente alto — o que penaliza

empresas alavancadas, infraestrutura, imobiliário e ativos de duração longa, e favorece companhias com caixa e geração de fluxo próxima.

Para o Brasil, o canal de transmissão é direto: Treasuries longos elevados retêm capital nos Estados Unidos e drenam liquidez de emergentes.

        3.3 Europa

A Europa surpreendeu positivamente na atividade, com a manufatura alemã liderando a recuperação e a primeira expansão de novos pedidos de exportação em quatro anos e meio. Mas enfrenta inflação

persistente, energia cara, gastos de defesa crescentes, juros restritivos e demografia adversa.

A recuperação industrial é particularmente relevante para o Brasil, porque abre demanda para autopeças, alimentos, metais, aeronáutica e serviços empresariais. O contrapeso é que o crescimento

melhor reduz o espaço do BCE para cortar juros — o que sustenta o euro e altera o diferencial de taxas com os Estados Unidos.

        3.4 China

A fraqueza doméstica chinesa continua, reduzindo a demanda por determinadas commodities brasileiras. Mas o país acelera simultaneamente em Inteligência Artificial, robótica, veículos elétricos, baterias e automação.

Para o Brasil, a China é ao mesmo tempo mercado, investidor, fornecedor e concorrente. Essa relação

precisa deixar de ser pensada apenas como “exportar commodities”. O World Humanoid Robot Games e o

IPO da Unitree — com valorização de 629% na estreia

— são sinais de que a próxima onda competitiva chinesa pode vir na forma de automação de baixo custo, com impacto direto sobre a indústria de transformação brasileira.

        3.5 Brasil

A economia brasileira está desacelerando exatamente no momento em que a disputa eleitoral se intensifica. Esse cruzamento tende a dominar setembro e outubro.

O que melhorou: inflação corrente de 4,44% em doze meses, dentro da banda; ciclo de corte da Selic

iniciado; câmbio a R$ 5,1 4, bem abaixo dos níveis de estresse projetados no primeiro semestre; recuperação técnica da Bolsa; agronegócio com ciclo de preços virando a favor; e a maior descoberta

exploratória em duas décadas.

O que continua difícil: Selic em 1 4%; IBC-Br de junho em queda de 0,6% e segundo trimestre crescendo apenas 0,2%; projeção de IPCA para o ano fechado ainda acima do teto; dívida pública elevada; saída estrangeira de R$ 22 bilhões em agosto; tarifas americanas somando 37,5%; eleição competitiva; e o pico do El Niño previsto para o quarto trimestre.

O quadro cria pressão para cortes de juros — e

simultaneamente limita a velocidade desses cortes. A leitura mais provável segue sendo: um corte em setembro, para 1 3,75%, e pausa em seguida.

        3.6 Impacto direto sobre as empresas brasileiras

A recuperação judicial da Casas Bahia reorganiza o mapa de risco corporativo brasileiro em cinco frentes concretas.

Crédito bancário. Bradesco (R$ 4,78 bilhões somado ao Digio) e Banco do Brasil são os mais expostos. No segundo trimestre, os bancos já haviam elevado provisões e visto a inadimplência piorar. A consequência prática é o aperto na concessão de crédito ao varejo e a setores alavancados.

Indústria fornecedora. Samsung, Whirlpool, Electrolux, TCL Semp, LG, Motorola, Britânia,

Multilaser, Apple e Lenovo somam bilhões a receber.

O problema é duplo: a perda contábil e a perda de um canal de escoamento relevante do varejo físico

brasileiro de eletroeletrônicos. Fabricantes instalados na Zona Franca de Manaus estão particularmente expostos.

Seguros e recebíveis. A Zurich, com R$ 1 ,977 bilhão, é o maior credor individual. FIDCs e fundos

imobiliários também figuram na lista. O efeito sobre a

precificação de risco em antecipação de recebíveis no varejo tende a ser imediato.

Efeito de segunda ordem. Com R$ 1 6,4 bilhões nas mãos de credores sem garantia real, fornecedores podem enfrentar perdas relevantes, necessidade de provisões, falta de caixa, redução de produção e

demissões. Para empresas que dependem de poucos clientes grandes, a lição é direta: concentração de receita é também risco de crédito.

Concorrência. Magazine Luiza, Amazon, Mercado

Livre e o varejo regional ganham participação — mas num mercado em contração, não em expansão.

Do lado positivo, três grupos tiveram alívio real: os exportadores agrícolas, com açúcar, soja e milho virando a mão e a Índia voltando ao mercado; os frigoríficos, com uma janela de noventa dias no mercado americano de carne moída; e a Petrobras, beneficiada simultaneamente pelo Brent elevado, pelas margens de refino recordes e pela

opcionalidade da Margem Equatorial.

4. ANÁLISE POR SEGMENTO DE MERCADO

Petróleo e gás — o melhor momento em anos

A combinação é rara: Brent acima de US$ 93, margens de refino da Bacia do Atlântico em máximas históricas e, agora, a maior descoberta exploratória desde o pré-sal. A Petrobras tem produção de baixo custo, refino integrado exatamente na bacia onde as margens explodiram e uma fronteira nova a

desenvolver.

Os riscos são domésticos e conhecidos: intervenção em preços de combustíveis em ano eleitoral, taxa de exportação de petróleo, regulação ambiental e o ritmo do IBAMA na Margem Equatorial.

Perspectiva: positiva. A descoberta do Morpho é opcionalidade de longo prazo — não altera o fluxo de caixa de 2026, mas eleva o valor terminal. Preços-

alvo de R$ 63 (Itaú BBA e XP) contra R$ 47 (Citi) delimitam o intervalo de debate.

Agronegócio e alimentos — ciclo virando a favor

Açúcar em alta de 1 9% no mês, Índia importando 1 milhão de toneladas até 31 de outubro, produção do Centro-Sul 1 1 ,2% abaixo do ano anterior, soja e milho subindo em Chicago, PLP 1 1 4/2026 aguardando sanção e dólar acima de R$ 5,1 0. É a melhor

combinação que o setor viu em 2026.

Em destaque: São Martinho, Jalles Machado, SLC Agrícola, Boa Safra, MBRF e Minerva. A Raízen destoou negativamente e merece acompanhamento próprio.

Os riscos permanecem no clima — com o pico do El Niño previsto para outubro-dezembro — e no custo do diesel, que a crise de derivados mantém pressionado.

Perspectiva: positiva em preço, com risco climático e de custo logístico. Prioridades: hedge, barter, seguro rural, irrigação, armazenagem, antecipação de

fertilizantes e frete, e diversificação de mercados de destino.

Frigoríficos e proteína animal —

janela aberta, prazo curto

A liberação de 300 mil toneladas de carne moída sem tarifa por noventa dias é oportunidade concreta, mas sem cota reservada ao Brasil e dependente de regras aduaneiras, requisitos sanitários e capacidade de embarque. O contrapeso é a cota chinesa de 1 ,1 06

milhão de toneladas, com tarifa adicional de 55% sobre o excedente.

Perspectiva: mista, com assimetria positiva no curto prazo. Quem tiver capacidade de embarque rápida captura a janela.

Sucroenergético — mista, com vento a favor

Petróleo elevado sustenta a atratividade do etanol, e o PLP 1 1 4/2026 pode reforçar a alocação de cana para o biocombustível — reduzindo a oferta de açúcar e sustentando preços. A flexibilidade de mix segue sendo a vantagem competitiva central, e

alavancagem continua sendo o fator eliminatório.

Perspectiva: positiva, com dispersão alta entre operadores.

Mineração — cautelosa

A China é o principal risco, e ele não melhorou. O

minério de ferro depende mais de imóveis chineses, infraestrutura e estímulos de Pequim do que de

qualquer variável ligada a Ormuz. A Vale acompanhou a recuperação geral do índice, mas o cenário de demanda segue frágil.

Perspectiva: cautelosa.

Siderurgia e indústria de transformação — o segmento mais pressionado

O IBC-Br mostrou a indústria caindo 1 ,4% em junho — o pior desempenho entre os componentes. Somam-se tarifas americanas, concorrência chinesa, crédito caro e demanda doméstica fraca. E, no horizonte, o

risco de um choque de automação chinesa barata.

A resposta não pode ser apenas proteção tarifária.

Precisa envolver automação, eficiência, produtos de maior valor agregado, exportação e revisão do modelo de negócio.

Perspectiva: desafiadora. Investimento em

capacidade nova segue congelado; o foco realista é modernização e produtividade.

Varejo e bens duráveis — o epicentro

A Casas Bahia é o alerta que se tornou fato. Juros elevados atacam simultaneamente o consumidor, o

estoque, a dívida e o capital de giro — e o modelo de crediário com Selic acima de 1 3% não fecha a conta. A Renner cortou guidance; o Magazine Luiza teve comércio eletrônico em queda; a Americanas segue em prejuízo.

O que funciona: alimentos e essenciais, alta renda, e operações com estrutura de custo enxuta e baixa

alavancagem — a Riachuelo é o contraexemplo útil da temporada.

Perspectiva: crítica. Prioridades: reduzir estoque

improdutivo, encurtar prazo de recebimento, cortar custos fixos, reduzir dependência de crediário e revisar covenants antes que o balanço obrigue.

Bancos e serviços financeiros —resiliente, com provisão a fazer

Os bancos lideraram a recuperação da Bolsa na sexta-feira, sinal de que o mercado considerou exagerado o desconto das semanas anteriores. Mas a exposição à Casas Bahia é real e concentrada, e as provisões vinham subindo desde o segundo

trimestre.

A questão do terceiro trimestre não é margem — é qualidade de carteira. Instituições precisam revisar concentração, provisões, garantias e risco setorial.

Perspectiva: resiliente no curto prazo, com deterioração de ativos no horizonte.

Logística e transporte — pressionada pelo diesel

O gargalo de derivados é o vetor mais relevante e o menos discutido. Com margens de refino em recorde e o querosene de aviação sob pressão máxima, o custo de combustível deixou de depender apenas do Brent.

Vamos foi destaque positivo na semana (+1 0,48%). O setor se beneficia da recuperação do agro, mas enfrenta custo de frota elevado e a perspectiva de chuvas intensas no Sul no quarto trimestre.

Perspectiva: mista, com risco crescente de custo.

Tecnologia pode gerar ganhos relevantes em roteirização, ocupação, manutenção preditiva e gestão de combustível.

Aviação — a mais exposta ao gargalo de derivados

O querosene de aviação é, segundo a AIE, a parte do barril sob maior pressão. Para Azul e Gol, isso

significa que o alívio no Brent não se traduz em alívio no custo. A Embraer, no lado industrial, segue em

ciclo próprio e favorável — com o pedido adicional de oito E1 90-E2 pela ANA Holdings, embora tenha

liderado a ponta negativa do índice na sexta-feira.

Perspectiva: crítica para o transporte aéreo, positiva para a indústria aeronáutica.

Energia elétrica — estruturalmente positiva

Inteligência Artificial, data centers, indústria e

eletrificação aumentam a demanda estrutural. O El Niño adiciona risco hidrológico ao quarto trimestre e ao primeiro de 2027.

Perspectiva: positiva no longo prazo, incerta no curto. Oportunidades em mercado livre, armazenamento, geração, transmissão e eficiência

Papel e celulose — reorganização na liderança

A Suzano reorganizou a diretoria executiva com a saída de três vice-presidentes. Em uma companhia que se tornou líder global por execução operacional, mudança de comando dessa escala é risco de execução a monitorar.

Perspectiva: neutra.

Construção e mercado imobiliário —

ainda restritiva

A Selic de 1 4% continua elevada demais para destravar o setor. Infraestrutura, Minha Casa Minha Vida, saneamento, data centers e galpões logísticos permanecem relativamente mais resilientes que o residencial de médio padrão.

Perspectiva: restritiva.

Saúde — defensiva, com dispersão

Dasa subiu 1 5,1 8% na semana e a Hapvida avançou 7,39% na sexta-feira, impulsionada pela decisão da ANS de suspender cautelar que impedia reajustes. Juros e custos pressionam, mas a demanda é resiliente. A dispersão entre operadores segue extrema.

Perspectiva: defensiva. Inteligência Artificial e automação podem melhorar faturamento, gestão de glosas, agendamento, compras e financeiro.

Tecnologia e Inteligência Artificial —

positiva, porém seletiva

O mercado passou da fase de experimentação para a de cobrança de retorno econômico — a Alibaba

declarando payback de dois anos e meio é o marco dessa transição. Empresas que apenas adicionarem “IA” ao discurso perderão espaço.

As oportunidades brasileiras concentram-se em agentes de IA, backoffice, logística, financeiro,

jurídico, saúde, vendas e atendimento.

Perspectiva: fortemente positiva, com exigência de ROI auditável.

Defesa e cibersegurança —

estruturalmente positiva

Seis meses de guerra tornam evidente que gastos militares e de segurança dificilmente retornarão rapidamente aos níveis anteriores. A divisão deDefesa e Segurança da Embraer cresceu 22% no último trimestre reportado.

Perspectiva: fortemente positiva.

M&A, turnaround e recuperação judicial — o segmento do momento

A Casas Bahia é o exemplo mais visível, mas não será o único. Juros elevados por período prolongado tendem a produzir renegociação de dívidas, recuperações extrajudiciais e judiciais, venda de

ativos e consolidação. A Cosan, recebendo propostas vinculantes por sua fatia na Rumo, ilustra o outro lado do mesmo ciclo: desalavancagem via venda de ativos não centrais.

Empresas capitalizadas encontrarão oportunidades de aquisição em condições que não se viam desde 201 6.

Perspectiva: muito favorável para compradores com liquidez.

5. CENÁRIOS PARA OS PRÓXIMOS 90 DIAS

As probabilidades abaixo são estimativas analíticas.

Cenário 1 — Crescimento baixo com estabilidade imperfeita | 42%

Gatilhos: Ormuz permanece parcialmente bloqueado; Brent entre US$ 85 e US$ 1 00; Warsh entrega tom neutro e o Fed mantém juros em setembro; Copom corta para 1 3,75% e sinaliza pausa; China segue fraca; Europa continua melhorando; Casas Bahia obtém financiamento e mantém abastecimento.

Brasil: PIB desacelera, inflação controlada, Selic termina próxima de 1 3,75%, dólar entre R$ 5,1 0 e R$ 5,25, Ibovespa entre 1 68 mil e 1 78 mil pontos.

Empresas: crédito continua caro, mas sem novo choque. Consolidação acelera; companhias com caixa ganham participação.

Por segmento: Petróleo positivo · Agro positivo · Bancos neutro · Varejo negativo · Indústria negativo · Crédito privado muito positivo

Cenário 2 — Estagflação moderada |

23%

Gatilhos: petróleo permanece alto e o gargalo de derivados persiste; crescimento americano desacelera; inflação global resiste; China segue fraca;

El Niño pressiona alimentos e energia.

Brasil: Selic cai pouco ou para de cair; dólar acima de R$ 5,40; margens e demanda se deterioram simultaneamente.

Por segmento: Varejo muito negativo · Construção muito negativo · Saúde negativo · Logística muito negativo · Petróleo positivo · Energia positivo · Defesa positivo

Cenário 3 — Descompressão geopolítica | 1 8%

Gatilhos: acordo parcial com o Irã; trânsito marítimo melhora; petróleo recua a US$ 70-80; margens de refino normalizam; inflação global cede; juros longos americanos aliviam; fluxo estrangeiro retorna ao Brasil.

Brasil: maior espaço para cortes da Selic; dólar testa R$ 5,00; Ibovespa retoma 1 80 mil pontos.

Por segmento: Varejo muito positivo · Construção muito positivo · Logística positivo · Aviação positivo · Petróleo negativo

Cenário 4 — Contágio da crise do varejo e do crédito | 1 0%

Gatilhos: fornecedores da Casas Bahia suspendem abastecimento; financiamento de urgência não se materializa; outra grande varejista alavancada entra em dificuldade; bancos ampliam provisões de forma relevante.

Brasil: aperto generalizado de crédito ao varejo; revisão para baixo do PIB de 2027; pressão sobre bancos de médio porte expostos a recebíveis.

Por segmento: Bancos negativo · Eletroeletrônicos muito negativo · Shopping centers negativo · FIDCs muito negativo

Cenário 5 — Novo choque geopolítico ou financeiro | 7%

Gatilhos: as sanções provocam retaliação iraniana; Ormuz fecha ainda mais; Brent volta acima de US$ 1 1 0; yields americanos disparam; ações globais corrigem — cenário reforçado se o Fed surpreender com viés restritivo em Jackson Hole.

Brasil: dólar acima de R$ 5,50; cortes de juros interrompidos; modo defensivo generalizado.

Por segmento: Energia e defesa ganham · Varejo, construção, indústria e aviação sofrem

Cenário eleitoral — sobreposto aos cinco acima

Desfecho

Probabilidade

estimada

Leitura de

mercado

Reeleição de Lula

45%

Prêmio de risco fiscal permanece

elevado

Vitória de Flávio

Bolsonaro

40%

Rali inicial, com teste de

credibilidade em 2027

Terceira via em segundo turno

8%

Reprecificação ampla, direção incerta

Cenário

judicializado ou indefinido

7%

Volatilidade máxima

O horário eleitoral gratuito começa em 28 de agosto

— historicamente o maior ponto de inflexão das pesquisas brasileiras.

    6. AGENDA EXECUTIVA E CALENDÁRIO CRÍTICO

Esta semana (24 a 29 de agosto)

    • Segunda (24): Boletim Focus · anúncio das novas sanções americanas ao Irã · Alibaba precifica a oferta de US$ 1 0,2 bilhões.

    • Quarta (26): Segunda estimativa do PIB americano do 2º trimestre (BEA) · Nvidia divulga resultados após o fechamento · fechamento da oferta da Alibaba.

    • Quinta (27): Abertura do Simpósio de Jackson Hole.

    • Sexta (28): Discurso de Kevin Warsh às 1 0h (horário de Nova York) · Início do horário eleitoral gratuito no Brasil · Núcleo do PCE de julho nos EUA · IGP-M de agosto (FGV).

Nota operacional: três eventos de alto impacto — resultados da Nvidia, discurso de Warsh e virada da campanha brasileira — concentram-se em quarenta e oito horas. Posições relevantes devem ser dimensionadas antes de quarta-feira.

Setembro

    • 1 º/09: IBGE divulga o PIB do 2º trimestre. Depois do IBC-Br em 0,2%, é o teste da tese de

desaceleração.

    • 02/09: Allos paga dividendos intermediários.

    • 07/09: Feriado do Dia do Trabalho nos EUA;

mercados fechados.

    • Meados de setembro a início de novembro: operações de recompra de títulos longos do Tesouro americano, de pelo menos US$ 4 bilhões cada.

    • 1 4/09 (limite): Julgamento da candidatura de Pablo Marçal no TSE.

    • 1 6/09: FOMC. Probabilidade atual de alta: cerca de uma em três.

    • 1 6/09: IGP-1 0 de setembro.

    • Setembro: Copom — expectativa de corte para 1 3,75% · BCE decide sobre juros, com viés restritivo reforçado pelos PMIs.

    • Setembro: Rito da Camex sobre a Lei da

Reciprocidade — eventual instalação de grupo de trabalho e consulta pública de trinta dias.

Outubro a dezembro

    • Início de outubro: Encerramento das consultas Brasil-EUA na OMC.

    • Outubro: 1 º turno da eleição presidencial.

    • 31 /1 0: Prazo final da cota tarifária de importação de açúcar pela Índia.

    • Meados de novembro: Fim da janela de noventa dias da isenção americana para carne moída.

    • Outubro a dezembro: Janela de pico do El Niño, com risco para safra, energia e logística.

    • Fim de 2026: Entrega das recomendações da revisão do arcabouço de política monetária do Fed.

Monitoramento contínuo

    • Decisões do IBAMA sobre os três poços adicionais na Foz do Amazonas — principal gatilho de reprecificação da Petrobras.

    • Evolução do processo da Casas Bahia:

deferimento, financiamento de urgência, reação de fornecedores e cumprimento da liminar trabalhista.

    • Provisões dos bancos no terceiro trimestre.

    • Fluxo estrangeiro diário na B3.

    • Margens de refino da Bacia do Atlântico e importações asiáticas de destilados.

    • Sanção presidencial do PLP 1 1 4/2026 e

assinatura da ordem executiva americana sobre carne moída.

    7. AGENDA ESTRATÉGICA PARA AS EMPRESAS BRASILEIRAS

A leitura das últimas semanas sugere trabalho

simultâneo em três horizontes — e a semana que se encerra reforça que tratá-los em sequência já não é uma opção.

Urgente — antes de quarta-feira (26)

    1. Dimensione exposição a mercado antes da tríade Nvidia–Warsh–horário eleitoral. Quando 69% dos gestores esperam tom neutro, é a surpresa que move preço.

    2. Mapeie sua exposição à cadeia de varejo de bens duráveis. Se você fornece, financia, segura ou antecipa recebíveis desse setor, refaça o cálculo de risco esta semana.

    3. Se você renegociou passivo em 2023 ou 2024, verifique quando vencem suas carências. É a

lição literal da Casas Bahia.

    4. Revise sua exposição ao custo de diesel e querosene, que deixou de acompanhar o Brent. O gargalo está nos derivados, não no bruto.

Horizonte 1 — Sobrevivência

financeira

    5. Reforçar caixa e liquidez antes da janela de volatilidade de outubro.

    6. Alongar dívida enquanto a curva ainda precifica corte de Selic em setembro.

    7. Reduzir estoques improdutivos e encurtar prazo de recebimento.

    8. Revisar covenants, cláusulas de cross-default e condições de retenção de recebíveis em todos os contratos relevantes.

    9. Não depender de crédito bancário local de curto prazo.

Horizonte 2 — Eficiência operacional

1 0. Automatizar backoffice, onde o retorno da

Inteligência Artificial é mais rápido e mensurável.

1 1 . Usar IA com retorno explícito e auditável — o capital ficou mais exigente, não mais generoso.

1 2. Rever contratos de energia, com migração para o mercado livre, e de logística, precificando o custo estrutural de combustível e seguro marítimo.

1 3. Priorizar modernização e automação de linhas existentes sobre investimento em capacidade nova.

Horizonte 3 — Transformação estratégica

1 4. Capturar as janelas abertas com prazo definido: cota indiana de açúcar até 31 de outubro; isenção americana de carne moída por noventa dias. São oportunidades curtas e sem reserva para o Brasil.

1 5. Diversificar clientes e mercados de destino — a concentração simultânea em Estados Unidos e China é o ponto frágil estrutural do exportador brasileiro.

1 6. Exportadores atingidos pelas tarifas: avaliar drawback, rotas alternativas, certificações em mercados novos e reclassificação fiscal antes do desfecho da disputa.

1 7. Tratar a competição chinesa como problema de produtividade e modelo de negócio — e incorporar o risco de automação barata ao planejamento de médio prazo.

1 8. Avaliar M&A nas duas pontas: comprador de ativos estressados ou vendedor de ativos não centrais.

1 9. Fechar operações estruturalmente deficitárias antes que o balanço obrigue.

A empresa que focar exclusivamente em corte de custos pode atravessar 2026. Mas talvez saia dele estruturalmente mais fraca.

SÍNTESE FINAL

A semana de 1 7 a 24 de agosto trouxe uma mensagem diferente das anteriores.

O petróleo continua importante, mas deixou de explicar tudo. Ormuz permanece praticamente

paralisado — apenas quatro embarcações cruzaram o

estreito no domingo — e, mesmo assim, o verdadeiro gargalo começa a migrar para o diesel e o querosene de aviação, com as margens de refino do Atlântico em máximas históricas. A guerra continua, mas as sanções estão substituindo parte da ofensiva militar, e as exportações iranianas para a China caíram pela metade em um mês.

O Fed continua central, mas os juros longos do Tesouro americano passaram a impor sua própria disciplina ao mercado — a ponto de o secretário do

Tesouro precisar dobrar as recompras de títulos, com efeito que durou vinte e quatro horas. A dívida

americana cruzou US$ 40 trilhões, e o Walmart

lembrou a todos que existe uma economia real abaixo do boom de Inteligência Artificial, e que ela está cansada.

A IA continua crescendo, mas os investidores passaram a exigir retorno econômico — e a Alibaba levantou US$ 1 0,2 bilhões declarando payback de dois anos e meio, algo que nenhuma empresa do setor fazia dezoito meses atrás. A China continua desacelerando, mas acelera robótica e automação a uma velocidade que deveria preocupar a indústria brasileira mais do que qualquer painel solar. A Europa, contra o prognóstico, começa a surpreender

positivamente.

E o Brasil reduz inflação, mas perde crescimento. Encontra petróleo na Foz do Amazonas, mas vê sua maior varejista de bens duráveis pedir recuperação

judicial. Vê a Bolsa subir 2,45% e o estrangeiro retirar R$ 22 bilhões no mesmo mês. Tem o melhor momento do agronegócio em 2026 e a pior semana do varejo em três anos.

O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia talvez seja a melhor tradução empresarial desse momento. Uma empresa pode sobreviver por muito tempo a margem baixa, dívida, estoque, juros altos e consumo fraco. Mas quando vários desses fatores aparecem simultaneamente, a margem de erro desaparece. E o que derrubou a companhia não foi a ausência de esforço: ela gerou caixa livre, cortou 76% da dívida líquida em doze meses e reduziu estoques. Foi o tempo. As carências venceram antes que a transformação terminasse.

Por isso, o principal conceito estratégico para as empresas brasileiras não é mais eficiência. É opcionalidade.

Opcionalidade financeira: ter caixa e prazo.

Opcionalidade operacional: ter fornecedores, rotas e energia alternativas.

Opcionalidade comercial: não depender de poucos clientes ou de poucos países.

Opcionalidade tecnológica: poder automatizar rapidamente quando a economia exigir.

Opcionalidade societária: poder captar, vender

participação, adquirir ou se associar.

E opcionalidade estratégica: ter coragem de rever o próprio modelo de negócio antes que o mercado obrigue.

A conclusão das últimas semanas vai ficando cada vez mais clara: a empresa mais vulnerável em 2026 não é necessariamente a que está dando prejuízo hoje. É a que depende de apenas um cenário para continuar funcionando.

Sobreviver, no ambiente atual, exige eficiência. Crescer exige inovação. E continuar decidindo exige opcionalidade.