
Drones vindos do Iraque incendeiam o oleoduto que a Arábia Saudita construiu para contornar Ormuz, e o porto de Yanbu fica com estoque para cinco a sete dias. Os houthis tomam uma ilha na entrada do Bab el-Mandeb. O Brent salta para US$ 1 08 e o diesel americano rompe US$ 6 por galão. O Irã publica uma lista de 77 navios que teriam violado seus protocolos. O Banco Central Europeu sobe juros. O Federal Reserve deve subir na quarta-feira. E o Copom deve cortar no mesmo dia, enquanto o Brasil gasta R$ 40 bilhões em subsídios para impedir que o choque externo chegue ao consumidor.
o mundo deixou de enfrentar um choque de energia localizado e entrou num regime de escassez múltipla, em que petróleo, diesel, rotas marítimas, capital barato e previsibilidade política tornaram-se simultaneamente mais raros.
Os nove fatos que definem a semana:
1. A alternativa a Ormuz foi atingida. Drones lançados do território iraquiano incendiaram instalações do oleoduto Leste-Oeste saudita,
forçando a paralisação de uma rota que redirecionava cerca de 4 milhões de barris por dia. Yanbu tem estoque para cinco a sete dias.
2. Os houthis fecharam o cerco no Mar Vermelho. Tomaram uma ilha estrategicamente situada na entrada do Bab el-Mandeb e declararam a navegação segura para todos, menos para os sauditas.
3. O Brent chegou a US$ 1 08. Alta de
aproximadamente 9% na semana. O WTI voltou a superar US$ 1 00 e o diesel americano ultrapassou US$ 6 por galão pela primeira vez.
4. O Irã tenta institucionalizar controle sobre Ormuz. Publicou lista de 77 embarcações que teriam violado seus protocolos e ameaçou multas, detenções e confiscos.
5. O BCE já subiu juros. Elevou a taxa de depósito para 2,50% em 1 0 de setembro, a segunda alta do ano, com a inflação da Zona do Euro acima de 3%.
6. O Fed deve subir na quarta-feira. O CPI de agosto avançou 0,4% no mês, com núcleo em 0,3%, e o PPI acumulou 5,4% em doze meses, o ritmo mais intenso de 2026. As apostas saltaram de 60% para a faixa de 70% a 73%, e 85% dos economistas ouvidos pela Reuters esperam a alta.
7. O Brasil vai na direção oposta. O IPCA de agosto registrou deflação de 0,32%, a maior queda mensal em quatro anos. O Focus desta manhã reduziu a
inflação de 2026 para 4,90% e o PIB para 1 ,89%. O mercado precifica 95% de chance de corte da Selic para 1 3,75%.
8. O custo dessa calmaria é fiscal. Os subsídios a combustíveis devem somar aproximadamente R$ 40 bilhões entre março e setembro, com custo mensal corrente perto de R$ 7 bilhões.
9. A eleição está estatisticamente empatada. A pesquisa BTG/Nexus desta segunda-feira mostra Lula com 47% e Flávio Bolsonaro com 46% no segundo turno. Na rodada anterior, a liderança numérica era do senador.
A orientação prática da semana: simule Brent a US$ 85, US$ 1 05 e US$ 1 25, e câmbio a R$ 4,90, R$ 5,30 e R$ 5,80. Nenhum orçamento único sobrevive a esta configuração.
Durante sete meses, acompanhei nesta coluna uma pergunta que parecia difícil, mas era relativamente simples: quanto petróleo consegue atravessar o Estreito de Ormuz enquanto Estados Unidos e Irã
alternam ataques, negociações e restrições à navegação?
Essa pergunta deixou de ser suficiente na quinta-feira passada.
Drones lançados a partir do território iraquiano atingiram e incendiaram instalações do oleoduto
Leste-Oeste, também conhecido como Petroline, a
infraestrutura de 1 .200 quilômetros que liga Abqaiq, perto do Golfo Pérsico, ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. É exatamente a rota que a Arábia Saudita vinha usando para manter suas exportações fluindo sem passar por Ormuz. Segundo dados da Agência
Internacional de Energia, os embarques sauditas por Yanbu mais que dobraram desde o início da guerra.
Riad fechou o sistema na sexta-feira, 1 1 , como medida de precaução. O Ministério das Relações
Exteriores saudita relatou incêndio próximo a Medina, com danos humanos e materiais. Imagens de satélite confirmaram fogo e avarias em pelo menos uma das estações de bombeamento.
Há um detalhe que dimensiona a fragilidade da
situação: o porto de Yanbu tem estoque suficiente para manter as exportações por apenas cinco a sete dias sem o oleoduto. A capacidade de armazenagem é de 35 milhões de barris em Yanbu, mais 1 8 milhões em Ain Sukhna e 20 milhões em Sidi Kerir, no Egito, mas todos esses estoques se esgotam sem reabastecimento. As estimativas de reparo variam entre poucos dias e cinco a seis semanas.
Um dia antes, os houthis haviam tomado o controle de uma ilha de importância estratégica no Estreito de Bab el-Mandeb, anunciando que a navegação ali era segura para todos, menos para os sauditas.
Dispararam também dezenas de mísseis e drones contra território saudita, com danos a residências e a uma mesquita na província de Jazan.
Some-se a isso o adiamento, nesta segunda-feira, da reunião que Omã sediaria com Irã e países do Golfo para discutir a reabertura de Ormuz.
O resultado é o cenário que venho tratando como
risco de cauda desde julho e que agora é o cenário-base: a crise deixou de ser uma crise do Estreito de Ormuz. Passou a ameaçar simultaneamente Ormuz, o Bab el-Mandeb, a infraestrutura terrestre saudita construída para contornar Ormuz e a capacidade russa de produzir e exportar derivados.
Nassim Taleb chamaria isso de perda de
opcionalidade. Uma cadeia funciona enquanto
existem rotas alternativas e torna-se frágil quando as alternativas são atingidas ao mesmo tempo. É
precisamente o que aconteceu nesta semana.
O efeito no preço foi imediato. O Brent, que já havia rompido US$ 1 00 na quarta-feira após o confronto naval entre navios de guerra americanos e iranianos, chegou nesta segunda-feira a aproximadamente US$ 1 08 por barril, cerca de 9% acima da semana anterior. O WTI voltou a superar US$ 1 00. E o diesel americano ultrapassou US$ 6 por galão pela primeira vez.
Esse choque chegou no pior momento possível para os bancos centrais. Na quinta-feira, o BCE subiu juros. Na quarta-feira desta semana, o Fed provavelmente fará o mesmo. E o Banco Central brasileiro, no mesmo dia, provavelmente cortará.
É esse o cenário. Vamos aos fatos.
1. AS PRINCIPAIS NOTÍCIAS DA SEMANA
1 .1 O oleoduto que contornava Ormuz é atingido
Este é o acontecimento geopolítico mais importante da semana, e provavelmente do mês.
O oleoduto Leste-Oeste tem aproximadamente 1 .200 quilômetros e liga Abqaiq, no leste saudita, ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. A capacidade total chega a 7 milhões de barris por dia, dos quais cerca de 5
milhões podem atender exportações, segundo a Saudi Aramco. Na configuração atual da guerra, estava redirecionando aproximadamente 4 milhões de barris diários, o equivalente a cerca de 4% da oferta mundial.
O ataque ocorreu na quinta-feira, 1 0, com o sistema sendo fechado na sexta-feira, 1 1 . O governo saudita atribuiu os drones ao território iraquiano. Bagdá reconheceu que o ataque partiu de seu território e exonerou o comandante da província de Maysan, no sul do país. Riad afirmou que não retaliaria de imediato, concedendo ao governo iraquiano uma janela para agir. O tom comedido não esconde a gravidade do episódio, já que o reino tem histórico de ação militar quando suas instalações petrolíferas são atingidas.
O contexto de produção é o que mais preocupa.
Antes da guerra, o Oriente Médio fornecia
aproximadamente 22 milhões de barris por dia. Hoje, os fluxos por Ormuz estariam entre 6 e 9 milhões de barris diários. E a produção saudita caiu de 1 0,9
milhões de barris por dia em fevereiro para cerca de 6,2 milhões em agosto. A margem de manobra do maior produtor do Golfo já estava comprimida antes deste ataque.
Três variáveis determinarão a intensidade do choque, e vale acompanhá-las de perto.
A primeira é o tempo de reabertura. Se o fluxo for restabelecido em poucos dias, o impacto tende a ser pontual. Se a interrupção se estender por semanas, o Brent pode buscar patamares não vistos desde o pico de 2022.
A segunda é a resposta diplomática saudita. Uma retaliação direta contra milícias no Iraque ou contra alvos iranianos mudaria completamente o cálculo de risco.
A terceira é a postura americana. Qualquer ação militar dos Estados Unidos na região, mesmo
limitada, elevaria o prêmio de risco de forma significativa e prolongada.
1 AS PRINCIPAIS NOTÍCIAS DA SEMANA
1 .2 Os houthis tomam ilha no Bab el-Mandeb
Na quarta-feira, 9, os houthis avançaram no litoral iemenita e tomaram o controle de uma ilha
estrategicamente situada na entrada do Estreito de Bab el-Mandeb, o gargalo que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Anunciaram que a navegação era segura para todos, menos para os sauditas, numa declaração de bloqueio seletivo
dirigida especificamente a Riad, que apoia o governo iemenita.
O problema estratégico que isso cria é elegante em sua crueldade. Até esta semana, a alternativa a Ormuz era transportar o petróleo saudita por terra até o Mar Vermelho. Mas o acesso ao Mar Vermelho depende do Bab el-Mandeb.
Se Ormuz está restrito, o Petroline está danificado e o Bab el-Mandeb está ameaçado, a redundância que sustentava a oferta mundial simplesmente desaparece.
1 .3 A negociação de Omã é adiada e o Irã tenta institucionalizar Ormuz
Omã deveria sediar nesta segunda-feira uma reunião com Irã e países do Golfo sobre possíveis
entendimentos para a reabertura de Ormuz. A reunião foi adiada. O chanceler omanita afirmou que o
adiamento ocorreu no interesse do consenso; Teerã disse que o pedido partiu da Arábia Saudita.
Em paralelo, o Irã fez um movimento que merece atenção. Publicou uma lista de 77 embarcações que teriam violado seus protocolos de navegação em Ormuz e ameaçou aplicar multas, detenções e confiscos em futuras passagens.
Isso representa uma mudança conceitual. Teerã já não busca apenas interromper a navegação. Busca institucionalizar algum nível de governança própria sobre a passagem. Se essa pretensão sobreviver às
negociações, a discussão futura não será mais reabrir ou não Ormuz, e sim quem determina as condições sob as quais o comércio mundial atravessa o estreito.
Registre-se ainda que, em 9 de setembro, o Irã foi
levado ao Conselho de Segurança das Nações Unidas pela primeira vez em vinte anos no contexto da
escalada com os Estados Unidos.
1 .4 O Brent a US$ 1 08 e a crise específica do diesel
A sequência de preços da semana conta a história.
Na segunda-feira, 7, o Brent operava a US$ 97,26, após um fim de semana de ataques entre forças americanas e iranianas. Na terça, navios de guerra dos dois países trocaram tiros em Ormuz. Na quarta-feira, 9, o Brent rompeu US$ 1 00 pela primeira vez desde julho, fechando a US$ 1 01 ,21 , com o WTI a US$ 95,60. Na quinta, o Brent seguia a US$ 1 01 ,30. Após o ataque ao Petroline e a tomada da ilha no Bab el-Mandeb, saltou nesta segunda-feira para a faixa de US$ 1 07 a US$ 1 08, acumulando alta de
aproximadamente 9% na semana.
O Brent datado, referência física que precifica cerca de dois terços da oferta mundial, está acima de US$ 1 00 de forma contínua desde 3 de setembro. E o barril acumula valorização de quase 30% em relação às mínimas do início de agosto.
Mas o problema mais grave não está no barril genérico. Está no diesel.
A Ucrânia intensificou os ataques com drones de
longo alcance contra refinarias russas, reduzindo a produção de derivados a ponto de provocar falta de gasolina dentro da própria Rússia e contribuir para
escassez internacional de diesel. A situação chegou ao ponto de Donald Trump pedir publicamente a
Volodymyr Zelensky que interrompa os ataques a esse tipo de instalação. A Rússia já reduziu sua projeção de produção de petróleo para 2026 ao menor nível em dezessete anos.
Este é um ponto pouco discutido e que merece destaque. Petróleo bruto e diesel não são substitutos perfeitos. Pode haver petróleo no mercado e faltar
simultaneamente capacidade de refino, diesel, querosene de aviação e combustível marítimo.
Para Brasil, Índia, Estados Unidos e Europa, o diesel é o combustível de caminhões, máquinas agrícolas,
mineração, navios, trens e geradores. O problema
energético mundial está cada vez mais concentrado em moléculas específicas, não no barril em geral. O diesel americano acima de US$ 6 por galão é o
sintoma.
Há um dado operacional que completa o quadro. O trânsito em Ormuz caiu 28% em uma semana, para 77 navios, com os carregamentos recuando de 45 para
- Em paralelo, o Canal do Panamá pode restringir a passagem a 27 navios por dia por preocupações com o nível da água. Três gargalos logísticos globais apertando simultaneamente.
1 .5 O CPI americano sela o caso do Fed
O índice de preços ao consumidor de agosto,
divulgado na sexta-feira, 1 1 , trouxe os números que provavelmente definem a decisão de quarta-feira.
O CPI avançou 0,4% no mês, depois de 0,1 % em julho, mantendo o acumulado em doze meses em 3,4%. O núcleo subiu 0,3% no mês, embora tenha recuado para 2,4% na comparação anual.
O dado não foi desastroso. Mas foi suficiente para confirmar que a desinflação não avança em
velocidade confortável, e isso antes da incorporação plena do petróleo novamente acima de US$ 1 00.
O índice de preços ao produtor, divulgado na quinta-feira, reforçou o diagnóstico. O PPI subiu 0,4% no mês e acumulou 5,4% em doze meses, o ritmo mais
intenso de 2026, com núcleo em 0,2% no mês e 4,6% no ano. Os detalhes apontaram disparada nos preços de passagens aéreas, serviços hospitalares e custos de transporte e armazenagem. Os dados sugerem que parte da recente desaceleração da inflação está sendo revertida, à medida que as hostilidades no
Oriente Médio prejudicam a distribuição global de petróleo e o aumento dos investimentos em
Inteligência Artificial impulsiona a demanda por eletrônicos.
Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3
Investimentos, sintetizou: os números evidenciam que a convergência da inflação americana ao centro da meta segue travada, e a leitura mensal mais forte convive com uma base anual ainda elevada,
combinação que reduz o espaço para flexibilização e obriga o Fed a manter o tom duro.
A precificação virou. Os contratos futuros do CME Group saíram de cerca de 60% antes dos dados para 70% a 73% de probabilidade de alta de 0,25 ponto na reunião de 1 5 e 1 6 de setembro, com leituras chegando perto de 90% ao longo desta segunda-feira. Pesquisa Reuters divulgada hoje mostra que 85% dos economistas esperam a alta para a faixa de 3,75% a 4,00%, e 53% esperam pelo menos mais um aumento até março de 2027.
Se confirmada, será a primeira alta de juros do Fed em três anos e a primeira do ciclo comandado por Kevin Warsh. A taxa está em 3,50% a 3,75% desde dezembro, e o PCE, indicador-meta do banco central, permanece acima do objetivo há cinco anos e meio.
Vale lembrar que o gráfico de projeções de junho já mostrava nove dos dezoito membros esperando pelo menos um aumento em 2026. O comitê está
genuinamente dividido, e isso aparece no preço: as probabilidades oscilaram de 63% para perto de 50% e voltaram a subir em questão de dias, com Christopher
Waller sinalizando apoio à manutenção caso a inflação continuasse cedendo.
1 .6 O mercado de trabalho americano recuperou a força
O relatório de agosto, divulgado em 4 de setembro, reviu a percepção criada pelo payroll fraco de julho.
Foram 1 62 mil vagas criadas, a maior expansão em cinco meses e mais de três vezes as 50 a 55 mil esperadas. O desemprego ficou estável em 4,1 %, a participação melhorou e os dois meses anteriores foram revisados para cima em 55 mil postos. O julho que registrara perda de 23 mil vagas virou criação de 44 mil. Os pedidos de auxílio-desemprego permaneceram baixos, em 206 mil na semana encerrada em 5 de setembro.
Há nuances. Os salários desaceleraram para 3,1 % em doze meses e o Jolts segue mostrando poucas contratações e poucas demissões. Não é um mercado superaquecido. Mas a combinação agora é emprego relativamente forte, inflação acima da meta e petróleo caro, configuração muito mais favorável a uma alta de juros do que a de três semanas atrás.
1 .7 O Treasury de dez anos volta para perto de 5%
Este é, na minha avaliação, o indicador mais
importante da semana para empresas, e o menos comentado.
Os rendimentos dos títulos americanos de dez anos chegaram muito próximos de 5%, enquanto os papéis alemães atingiram máximas de vários anos.
A taxa do Fed determina o custo do dinheiro de curtíssimo prazo. O Treasury de dez anos determina boa parte do custo estrutural do capital em todo o mundo. Se os juros longos permanecerem nesse patamar, as consequências são diretas e duradouras: fusões e aquisições alavancadas ficam mais difíceis, o private equity reduz múltiplos, imóveis encarecem, projetos de infraestrutura exigem retorno maior, startups são avaliadas com desconto e governos pagam mais para refinanciar dívida.
A tese de juros altos por muito mais tempo deixou de ser uma posição de bancos centrais. Virou uma característica do próprio mercado.
1 .8 O BCE sobe juros e o gás entra
no radar europeu
Em 1 0 de setembro, o Banco Central Europeu elevou a taxa de depósito de 2,25% para 2,50%, a segunda alta de 2026, diante de inflação da Zona do Euro superior a 3% impulsionada pelo choque energético. O banco também revisou algumas projeções, passando a trabalhar com inflação média de 3,0% em 2026 e 2,5% em 2027, com crescimento de 0,9% neste ano.
O próprio BCE reconheceu simultaneamente riscos maiores para a inflação e menores para o
crescimento, a definição clássica de dilema estagflacionário.
Membros do conselho passaram a enfatizar a alta do gás natural como risco adicional, com o temor de que energia cara, especialmente na aproximação do
inverno, deixe de ser choque transitório e penetre em salários, serviços, contratos e expectativas. A memória institucional de 2022 continua operando, e os bancos centrais europeus não querem repetir o erro de esperar demais.
1 .9 O BRICS tenta abrir um canal diplomático paralelo
A cúpula do BRICS em Nova Délhi produziu uma notícia politicamente significativa, ainda que sem efeito imediato.
Irã e Emirados Árabes Unidos aceitaram uma declaração conjunta pedindo máxima contenção,
proteção a civis, preservação de cadeias comerciais, fluxos de energia e segurança marítima. O presidente iraniano reuniu-se com o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, no encontro de mais alto nível entre os dois países desde o início da guerra. Xi Jinping defendeu que o bloco assuma papel ativo de mediação.
Não se deve superestimar o efeito. A declaração não reabriu Ormuz nem suspendeu ataques. Mas sinaliza uma mudança na arquitetura internacional, com países emergentes construindo canais diplomáticos paralelos aos liderados por Estados Unidos e Europa.
Para o Brasil, membro fundador do bloco, isso pode ampliar influência diplomática e oportunidades comerciais, mas exigirá equilibrar relações
simultâneas com Washington, Pequim, Nova Délhi, o Golfo e a Europa, num momento em que o país já enfrenta tarifas americanas de 37,5% sobre parte de suas exportações.
2. TECNOLOGIA E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: DUAS VERDADES OPOSTAS
2.1 Os próprios líderes de IA começam a pedir desaceleração
Durante o fim de semana, lideranças ligadas a Anthropic, OpenAI e xAI passaram a defender maior cautela no avanço de sistemas extremamente capazes. Dario Amodei, Sam Altman e Elon Musk
sinalizaram preocupação com riscos associados à velocidade de desenvolvimento. O mercado reagiu de imediato: Nvidia e diversos fabricantes de chips recuaram no pré-mercado desta segunda-feira.
Trump rejeitou a maior parte dessas preocupações, afirmando que os Estados Unidos precisam manter liderança sobre a China.
A mudança qualitativa é relevante. Até recentemente, a pergunta dominante era quem consegue
desenvolver mais rápido. Agora surge uma segunda:
existe uma velocidade a partir da qual avançar mais rápido destrói valor ou cria risco mais depressa do que gera benefício?
A discussão de Inteligência Artificial passou a combinar competição tecnológica, segurança nacional, segurança de modelos, concentração
econômica e produtividade, tudo ao mesmo tempo.
2.2 E a infraestrutura física continua vendida anos à frente
Enquanto as ações ligadas à IA sofrem com o debate regulatório, a economia física do setor segue em outro ritmo.
A ASML informou que suas máquinas EUV, de aproximadamente US$ 200 milhões cada, estão praticamente vendidas até 2027, enquanto TSMC, Samsung, SK Hynix e Intel avançam na adoção das novas máquinas High NA, que custam cerca de US$ 400 milhões por unidade. A companhia holandesa
detém aproximadamente 94% do mercado mundial de litografia e monopólio nas tecnologias EUV mais avançadas.
Daí uma distinção estratégica essencial, que venho tentando fixar desde julho: a valorização das ações de IA pode corrigir sem que o ciclo de investimento em infraestrutura de IA tenha terminado.
Bolha financeira e revolução tecnológica não são conceitos mutuamente exclusivos. A internet provou isso há vinte e cinco anos.
2.3 O BIS alerta para o financiamento
do boom
O Banco de Compensações Internacionais alertou nesta segunda-feira para sinais de vulnerabilidade no mercado global associado à Inteligência Artificial.
Entre os riscos citados estão valuations elevados, dívida de empresas tecnológicas, estruturas privadas opacas, financiamento alavancado e rendimentos soberanos já altos.
A pergunta dos reguladores mudou de natureza.
Deixou de ser apenas se a IA é segura tecnologicamente e passou a incluir se o
financiamento desse boom é seguro financeiramente.
É a mesma pergunta que Hyman Minsky faria, e ela costuma aparecer tarde demais.
3. CHINA: O CRÉDITO CONFIRMA O PROBLEMA DOMÉSTICO
3.1 O crédito chinês decepciona de forma severa
Os bancos chineses concederam apenas 60 bilhões de yuans em novos empréstimos em agosto.
Economistas esperavam aproximadamente 400 bilhões. O crescimento do estoque total de crédito desacelerou para 4,9%, o menor ritmo da série
histórica.
O dado mais preocupante está nas famílias: o crédito ao consumidor encolheu pelo sexto mês consecutivo, refletindo mercado imobiliário fraco, menor procura por hipotecas e pouca disposição a financiar consumo.
A China tem capacidade produtiva. O que falta é confiança doméstica.
3.2 A consequência para a indústria brasileira
A fraqueza do consumo e do crédito torna Pequim mais dependente de exportações, tecnologia,
investimento estatal e indústria. Isso reforça a probabilidade de mais bens chineses chegando aos mercados latino-americano, europeu, asiático e
africano.
Para as empresas brasileiras, esta é provavelmente a tendência de maior impacto estrutural depois dos
juros. Um produto chinês barato não aparece por
alguns meses e some. Ele reorganiza um setor inteiro.
Há, porém, um contraponto que vale registrar. Houve também revisão positiva para o agronegócio
brasileiro. O Ministério da Agricultura da China elevou a estimativa de importações de soja para 1 08
milhões de toneladas na safra 2025/26, aumento de 4,7 milhões de toneladas sobre a projeção anterior, atribuído à demanda acima do esperado e à melhora nas margens de esmagamento. Para 2026/27, projeta 95,5 milhões. No milho, o movimento foi inverso, com corte para 5 milhões de toneladas.
3.3 A interdependência sobrevive à disputa
Apesar da guerra comercial e tecnológica, a China Gas assinou contrato de vinte anos para comprar gás natural liquefeito da americana Venture Global a partir de 2030.
Esse tipo de acordo lembra que desglobalização é expressão simplificadora. O mundo não está
deixando de comerciar. Está politizando,
securitizando, redirecionando e duplicando cadeias. É uma globalização mais cara e menos eficiente, mas continua sendo globalização.
4. BRASIL: A DEFLAÇÃO QUE CUSTA R$ 40 BILHÕES
4.1 O IPCA registra a maior deflação mensal em quatro anos
O IBGE informou na sexta-feira, 1 1 , que o IPCA caiu 0,32% em agosto, a maior deflação mensal desde 2022. Em doze meses, o índice desacelerou de 4,44% para 4,22%, ficando abaixo do teto de 4,5% da meta. A expectativa na pesquisa Reuters era de queda de 0,29%.
A composição por grupos mostra habitação recuando 1 ,87%, transportes 0,86% e alimentação e bebidas 0,34%.
O principal fator foi o desconto temporário
relacionado ao bônus de Itaipu na conta de energia elétrica. Houve também melhora em serviços, grupo que o Banco Central acompanha com mais atenção por refletir a inflação subjacente, e essa parte é genuinamente boa notícia.
Mas a leitura honesta exige a ressalva: a melhora inflacionária é real, e o número mensal exagera a
intensidade da melhora estrutural. O bônus de Itaipu não se repete nos meses seguintes. E o petróleo a US$ 1 08 ainda não entrou no índice.
4.2 O Focus cai abaixo de 5% pela primeira vez desde maio
O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 1 4, trouxe revisões nas duas pontas:
Indicador
Anterior
Agora
IPCA 2026
5,00%
4,90%
PIB 2026
1 ,93%
1 ,89%
Selic fim de 2026
1 3,75%
1 3,75%
Dólar fim de 2026
R$ 5,20
R$ 5,20
É a primeira vez desde maio que a projeção de
inflação para o ano cai abaixo de 5%. E a fotografia é a de menos inflação com menos crescimento, exatamente o efeito esperado de uma política monetária restritiva funcionando conforme o manual.
O quadro converge com o PIB do segundo trimestre, divulgado em 1 º de setembro: crescimento de 0,5%, contra 1 ,1 % no primeiro trimestre, com consumo das famílias recuando 0,4% e serviços avançando apenas 0,2%.
4.3 O Copom deve cortar, mas o comunicado importará mais que a decisão
Os contratos de Opções de Copom negociados na B3 atribuíam, no fechamento de 8 de setembro,
probabilidade de aproximadamente 95% a um corte de 0,25 ponto, levando a Selic de 1 4,00% para 1 3,75%. Na leitura mais recente, de hoje, a probabilidade estava em 94,25%. Havia 3,27 milhões de contratos em aberto atrelados à reunião, contra 3,1 9 milhões em 1 1 de agosto.
A reunião de 1 5 e 1 6 de setembro ocorre num
ambiente incomum. Internamente, a inflação caiu, a atividade desacelera e o Focus melhorou.
Externamente, o Brent está em US$ 1 08, o Fed provavelmente subirá juros, o BCE já subiu e o dólar global pode ganhar força.
O debate entre as casas é instrutivo. Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA, sustenta que os indicadores de atividade dão margem para seguir cortando e avalia que, se o
Banco Central entrar no ciclo eleitoral em movimento de queda, deve preservar o ritmo. A casa projeta Selic terminal de 1 3,25%. Arnaldo Lima, da Polo Capital, espera o corte de setembro e mais um em novembro, levando a taxa a 1 3,50% no fim deste ano e 1 1 ,50% no fim de 2027. Na direção oposta, boa parte do mercado trabalha com 1 3,75% como o último corte do ano.
A decisão brasileira será tão importante pela
linguagem quanto pelo corte. Se o comunicado enfatizar petróleo, Fed e risco fiscal, o mercado lerá 1 3,75% como piso temporário e a curva poderá abrir mesmo com o corte entregue. A ata sai em 22 de setembro.
4.4 O governo gasta R$ 40 bilhões para conter o choque
Aqui está a parte da história brasileira que não aparece no índice de inflação.
Para impedir que o choque externo fosse
integralmente transmitido ao consumidor, o governo ampliou os subsídios ao diesel e reduziu PIS/Cofins sobre gasolina e etanol. O gasto acumulado com essas medidas entre março e setembro deve alcançar aproximadamente R$ 40 bilhões, com custo mensal corrente estimado em cerca de R$ 7 bilhões.
O argumento oficial tem lógica econômica parcial. O Brasil é exportador líquido de petróleo, e parte do custo é compensada por royalties, tributos sobre produção e maior receita da estatal.
Mas há uma assimetria que qualquer executivo reconhece de imediato: receita extraordinária depende do preço da commodity, e gasto criado tende a ser politicamente difícil de retirar. É uma troca direta entre inflação menor agora e custo fiscal maior depois, e ela acontece em ano eleitoral, com a dívida bruta já em torno de 82% do PIB.
Esse é o preço real da deflação de agosto.
4.5 O Ibovespa bate a máxima de quatro meses
A semana teve o melhor desempenho do mercado brasileiro em meses.
Na quinta-feira, 1 0, o Ibovespa subiu 1 ,42% e fechou aos 1 88.269 pontos, o maior patamar em quatro meses, puxado pelos bancos. Bradesco avançou 3,9%, Banco do Brasil 2,8% e Itaú 1 ,8%. O rali ocorreu apesar de sessão fraca em Nova York, sinal de que a bolsa brasileira se movia por fatores locais.
Na sexta-feira, 1 1 , veio a realização: queda de 0,56%, aos 1 87.206,89 pontos, encerrando uma sequência de onze pregões consecutivos de alta. Na semana,
alta de 1 ,1 1 %. No mês, 5,52%. No ano, 1 6,1 9%. O dólar à vista fechou a R$ 5,1 25, com queda de 0,09% na semana.
O movimento combinou a deflação do IPCA, a expectativa de corte da Selic, o fechamento da curva de juros e a reprecificação do cenário eleitoral com o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas.
Vale o mesmo registro de cautela que fiz na semana passada. O Ibovespa subiu enquanto o PIB
desacelerava e a curva americana pressionava. É um rali de reprecificação política e monetária doméstica, não de melhora de fundamentos empresariais.
5. ELEIÇÃO: A VOLATILIDADE VIROU ESTRUTURAL
5.1 O empate técnico se confirma
A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira, 1 4, trouxe, no primeiro turno, Lula com 42%, Flávio Bolsonaro com 37%, Augusto Cury com 6%,
Ronaldo Caiado com 5% e Renan Santos com 2%. No segundo turno, Lula aparece com 47% e Flávio
Bolsonaro com 46%, com margem de erro de 2
pontos.
Na rodada anterior do mesmo instituto, Bolsonaro aparecia numericamente um ponto à frente, com 46% contra 45%
A interpretação correta não é que Lula retomou a
liderança, nem que Bolsonaro virou definitivamente. É que a eleição está estatisticamente empatada, e a
liderança numérica oscila dentro do ruído estatístico
a cada rodada.
Some-se a isso a pesquisa Quaest de 7 de setembro, que mostrou, no primeiro turno, Lula com 36%, Flávio com 29% e Augusto Cury saltando de 2% para 8%, com ambos os líderes recuando dois pontos em
relação ao levantamento anterior. E a pesquisa Veritá de 6 de setembro, que apontou empate entre os dois primeiros.
O fenômeno Cury, que registrei pela primeira vez há duas semanas a partir da AtlasIntel, aparece agora em três institutos distintos, com leituras entre 6% e 8%. É um candidato praticamente sem tempo no horário eleitoral gratuito, crescendo por mídia espontânea, redes sociais, debates e sabatinas.
5.2 O TSE barra Marçal por unanimidade
Na sexta-feira, 1 1 , em sessão virtual extraordinária, o Tribunal Superior Eleitoral rejeitou por unanimidade o registro da candidatura de Pablo Marçal.
O voto da relatora, ministra Estela Aranha, foi seguido por Ricardo Villas Bôas Cueva, Nunes Marques, André Mendonça, Antonio Carlos Ferreira, Dias Toffoli e
Floriano de Azevedo Marques. A corte concluiu que Marçal não cumpriu o requisito de filiação partidária e que está inelegível até 2032. O tribunal proibiu
qualquer ato de campanha, determinou a retirada do nome da urna eletrônica e autorizou o PRTB a
substituir o candidato.
Em 4 de setembro, o TSE já havia homologado oito candidaturas presidenciais: Lula, Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema, Edmilson Costa, Rui Costa Pimenta, Hertz Dias e Samara Martins. Seguem pendentes as de Augusto Cury, Clariana Barão, Renan Santos e
Wilson Grassi. Dado o crescimento de Cury nas pesquisas, o julgamento de seu registro tornou-se um evento de mercado.
5.3 O caso Banco Master entra na campanha
Documentos tornados públicos pelo Supremo
Tribunal Federal revelaram que Flávio Bolsonaro é
investigado por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro no contexto do caso Banco Master, que envolve também suspeitas de câmbio ilegal.
O senador reconheceu ter procurado apoio financeiro do banqueiro Daniel Vorcaro para um filme sobre Jair
Bolsonaro, mas nega irregularidades e defendeu a divulgação integral das investigações.
Trata-se de investigação em curso: não há condenação nem conclusão sobre culpabilidade. Politicamente, contudo, o efeito potencial é real,
porque a eleição está empatada e qualquer alteração marginal de voto pode ser decisiva. No pano de fundo institucional, a semana também teve tensão no Supremo, com Gilmar Mendes sugerindo adiar a sessão sobre a conduta de Alexandre de Moraes e pedindo análise conjunta do caso envolvendo André Mendonça.
5.4 O fiscal não depende do vencedor
Repito o argumento que venho sustentando há três edições, porque ele se confirmou nesta semana com os R$ 40 bilhões de subsídios. O risco maior não é quem vence. É a trajetória da dívida.
A eleição definirá a composição do ajuste, a
tributação, o tratamento das estatais, a política
industrial, o gasto social, as privatizações e a relação internacional. Mas qualquer governo eleito herdará dívida elevada, juros reais altos e uma estrutura orçamentária em que aproximadamente 92% do gasto primário é obrigatório.
A eleição muda como o problema será tratado. Não elimina o problema.
6. FONTES
Primárias e institucionais. IBGE, com o PIB do segundo trimestre e o IPCA de agosto. Banco Central do Brasil, com o Boletim Focus e o calendário do Copom. B3, com os contratos de Opções de Copom. Bureau of Labor Statistics dos Estados Unidos, com o payroll, o CPI e o PPI de agosto. Federal Reserve e Comitê Federal de Mercado Aberto. CME Group, com o FedWatch. Banco Central Europeu. Banco Popular da China e estatísticas de crédito. Ministério da
Agricultura da China. Agência Internacional de Energia. Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos. Banco de Compensações
Internacionais. Saudi Aramco e Ministérios saudita das Relações Exteriores e da Energia. Tribunal Superior Eleitoral. Supremo Tribunal Federal. LSEG. Comissão de Valores Mobiliários e comunicados corporativos.
Imprensa internacional. Reuters. Bloomberg. Financial Times. CNBC. Euronews. Trading Economics. TheStreet. Executive Digest.
Imprensa brasileira. InfoMoney. Money Times. Times Brasil. SpaceMoney. Suno. Forbes Brasil. Seu
Dinheiro. Bloomberg Línea. Finance News. Poder360.
Agência Brasil. CNN Brasil. Gazeta do Povo. Metrópoles. BPMoney. Bora Investir e B3. The Rio Times. Diário do Grande ABC e Broadcast. BM&C News. TradeNews. Gazeta Mercantil.
Lentes analíticas. A interpretação econômica desta edição recorre a quatro tradições consolidadas: a análise de pontos de estrangulamento geopolítico aplicada às rotas de energia; a leitura de Hyman
Minsky sobre ciclos de crédito e alavancagem,
aplicada ao financiamento do boom de Inteligência Artificial; o arcabouço de Michael Porter para estrutura competitiva, aplicado à concorrência
chinesa; e o conceito de opcionalidade e
antifragilidade de Nassim Taleb, aplicado à perda simultânea de rotas alternativas de suprimento.
7. PANORAMA ATUAL E IMPACTOS
7.1 Economia mundial
A economia mundial entrou num regime que descrevo como estagflacionário assimétrico.
Não há recessão global generalizada. Mas coexistem energia cara, inflação resistente, juros subindo,
crescimento desigual e investimento tecnológico extraordinariamente forte.
Os países mais vulneráveis são os que importam energia, carregam grandes dívidas, dependem de capital estrangeiro e dispõem de pouca capacidade fiscal. O Brasil pontua bem no primeiro critério e mal nos outros três.
A grande mudança desta semana é que a hipótese de normalização energética rápida ficou muito menos provável. Não porque Ormuz piorou, mas porque as
alternativas a Ormuz foram atingidas.
7.2 Estados Unidos
O cenário americano é de resiliência cara.
A economia continua criando empregos, os lucros corporativos seguem fortes e a tecnologia continua investindo. Mas a inflação permanece em 3,4%, o núcleo mensal acelerou, o petróleo passou de US$
1 00, o Treasury de dez anos ronda 5% e o Fed está a um dia de voltar a subir juros.
Isso aumenta a probabilidade de crescimento menor em 2027 sem recessão imediata.
Mais expostos: imóveis, small caps, private equity, empresas alavancadas e consumo financiado.
Beneficiados relativos: energia, defesa, empresas com caixa e bancos bem capitalizados.
7.3 Europa
Quadro ainda mais sensível à energia. O BCE já voltou a subir juros, o gás começa a preocupar e o
crescimento segue positivo, porém baixo, em 0,9% projetados para o ano.
Favorece defesa, redes elétricas, energia, automação e eficiência industrial. Pressiona química, siderurgia, automóveis e indústria eletrointensiva.
7.4 China
A fragilidade é doméstica e se aprofundou. Crédito às famílias caindo pelo sexto mês, imóveis fracos, consumo financiado praticamente inerte e novos empréstimos a um sétimo do esperado.
Pequim continuará buscando crescimento em exportações, tecnologia, infraestrutura e manufatura. Para o Brasil, isso significa simultaneamente mercado para commodities e concorrência para manufaturas, e a revisão de soja desta semana mostra que as duas coisas acontecem no mesmo mês.
7.5 Brasil
A economia brasileira apresenta uma combinação genuinamente incomum.
Do lado favorável: inflação corrente em queda, com deflação de 0,32% em agosto; câmbio ainda
relativamente estável a R$ 5,1 2; expectativa
consolidada de corte da Selic; mercado de trabalho resistente; Ibovespa na máxima de quatro meses.
Do lado desfavorável: petróleo a US$ 1 08; subsídios de R$ 40 bilhões; atividade desacelerando a 0,5% no trimestre; risco fiscal; eleição empatada; Fed e BCE subindo juros.
O espaço para o Copom cortar existe. O espaço para uma sequência longa de cortes é muito menor, e depende de variáveis que estão fora do controle de Brasília.
7.6 Impacto direto sobre as empresas brasileiras
Seis vetores concretos para as próximas semanas.
Diesel, não petróleo. O gargalo migrou para
derivados. Empresas que orçam combustível pelo Brent estão subestimando o custo. Diesel e querosene têm dinâmica própria e mais apertada.
Câmbio e diferencial de juros. Com o Fed subindo, o BCE subindo e o Copom cortando, o diferencial que sustentou o real ao longo de 2026 se comprime. É o maior vetor de volatilidade cambial do ano.
Custo estrutural do capital. Com o Treasury de dez anos perto de 5%, captações internacionais, fusões alavancadas e projetos de infraestrutura ficam mais caros, justamente quando várias companhias
brasileiras precisam refinanciar.
Risco fiscal como risco de negócio. Os R$ 40 bilhões em subsídios protegem margens hoje e criam pressão fiscal amanhã. Setores dependentes de
política pública devem construir cenários de reversão.
Concorrência chinesa. O crédito doméstico chinês no menor ritmo da série reforça a tese de exportação de excedentes. Para a indústria de transformação, é a ameaça estrutural de maior prazo.
Seguro e logística. Três gargalos marítimos
simultâneos elevam de forma permanente o custo de servir o cliente. Não se reverte com queda da Selic.
8. ANÁLISE POR SEGMENTO
DE MERCADO
Petróleo e gás — fortemente positiva na operação, elevada incerteza política
Brent a US$ 1 08 amplia receita, e a Petrobras lidera as carteiras recomendadas de setembro em seis casas de análise, com dividend yield estimado em aproximadamente 9% para 2027.
Mas a alta aumenta simultaneamente a pressão por subsídio, por contenção de preços internos, por
tributação e por intervenção política. O imposto de exportação de petróleo segue em disputa judicial, e a política de preços é sensível ao calendário eleitoral.
A melhor empresa não será a de maior produção. Será a que combinar custo baixo, balanço forte, capacidade exportadora e previsibilidade regulatória.
Perspectiva: fortemente positiva no resultado, com risco político elevado.
Agronegócio — mista, com pressão de custo e demanda chinesa melhor
Petróleo e diesel pressionam custos de máquinas, frete e secagem. Fertilizantes encarecem com o gás.
Em contrapartida, a China elevou a estimativa de
importação de soja em 4,7 milhões de toneladas.
Há uma oportunidade específica que merece registro. A Nestlé informou estar aumentando as compras de cacau brasileiro e trabalhando com produtores para reduzir o uso de fertilizantes. À medida que insumos encarecem, o clima fica menos previsível e as
cadeias globais buscam redundância, países capazes de combinar escala, água, terra, tecnologia agrícola e previsibilidade institucional ganham valor relativo.
Perspectiva: mista, com oportunidade em proteínas, cacau e diversificação asiática. Prioridades: hedge, barter, seguro, estoque de insumos críticos, irrigação e logística contratada com antecedência.
Sucroenergético — positiva
Petróleo caro aumenta a competitividade relativa do etanol, e a redução de PIS/Cofins melhora a demanda doméstica. O El Niño segue como principal risco agrícola, com pico entre outubro e dezembro.
Flexibilidade de mix é a vantagem competitiva central.
Perspectiva: positiva.
Química e petroquímica — negativa
Nafta, gás, energia e frete simultaneamente mais caros. A capacidade de repasse determinará a margem. Empresas precisam acelerar substituição de matéria-prima, eficiência energética e renegociação contratual.
Perspectiva: negativa.
Fertilizantes — pressionada
Gás caro pressiona nitrogenados e a logística
marítima piora. A recomendação para o agro é evitar concentração de compras em um único período ou fornecedor.
Perspectiva: negativa para consumidores, positiva para produtores locais.
Mineração — mista
China fraca pressiona o minério de ferro, e energia e diesel elevam custos operacionais. Metais ligados a redes elétricas, eletrificação, semicondutores e defesa seguem estruturalmente melhores. A Vale aparece em quatro carteiras recomendadas do mês.
Perspectiva: mista.
Siderurgia — difícil, com exceção internacionalizada
China exportando excedentes, energia alta, juros altos e barreiras comerciais formam combinação desafiadora. A exceção é a Gerdau, com cerca de 75% do EBITDA exposto aos Estados Unidos, o que o BTG trata explicitamente como proteção cambial em cenário eleitoral incerto.
Perspectiva: difícil no doméstico, positiva no internacionalizado.
Indústria de transformação — a mais complexa
Quatro pressões simultâneas: tarifa americana de 37,5%, concorrência chinesa, capital caro e energia cara.
A estratégia de competir apenas por preço tornou-se praticamente inviável. Será necessário competir por nicho, velocidade, tecnologia, customização, serviço e proximidade.
Perspectiva: desafiadora.
Logística e transportes — negativa no curto prazo
O diesel é novamente o principal problema, e desta vez com dinâmica própria, descolada do barril.
Empresas devem revisar gatilhos de reajuste, rotas,
ocupação, manutenção e crédito de frota.
Software de logística e Inteligência Artificial aplicada ganham valor desproporcional, porque cada ponto percentual de ocupação ou de eficiência de
roteirização vai direto para a margem.
Perspectiva: negativa em custo, positiva em oportunidade tecnológica.
Aviação — negativa
O querosene de aviação é o derivado sob maior pressão global, e a EIA projeta aperto prolongado nos estoques de destilados. Azul e Gol enfrentam o pior ambiente de custo do ano. Companhias com hedge, frota eficiente e poder de precificação ficam
relativamente protegidas. A Embraer, do lado industrial, segue em ciclo próprio e favorável.
Perspectiva: crítica no transporte aéreo, positiva na indústria aeronáutica.
Varejo — mista e negativa
A deflação ajuda a renda real. Mas combustível caro, crédito caro e juros ainda elevados retiram parte do benefício, e o consumo das famílias já recuou 0,4% no segundo trimestre.
Atacarejo e essenciais seguem defensivos. Duráveis permanecem vulneráveis, com a Casas Bahia em recuperação judicial de R$ 1 7,3 bilhões pressionando toda a cadeia de eletroeletrônicos.
Perspectiva: crítica para duráveis, defensiva para essenciais.
Bancos — resiliente, mas seletiva
Bradesco, Banco do Brasil e Itaú lideraram o rali da quinta-feira. A Selic elevada continua sustentando spreads, e empresas endividadas mantêm demanda por renegociação, capital de giro e reestruturação.
A variável de atenção é a inadimplência empresarial, num ambiente de atividade desacelerando e crédito caro.
Perspectiva: positiva no curto prazo, com atenção ao ciclo de crédito.
Fintechs — seletiva, com um marco de internacionalização
Funding caro exige excelência em originação, cobrança, prevenção a fraude e margem.
Mas a semana trouxe um marco. O Nubank entrou no mercado bancário americano, lançando conta remunerada, cartão e remessas internacionais. A operação começa por meio de parceria com um banco segurado pelo FDIC, enquanto a companhia aguarda autorização para licença própria.
A relevância é tripla. É uma empresa latino-americana competindo no maior sistema financeiro do mundo. É internacionalização baseada em tecnologia, marca e baixo custo marginal, não em commodities. E demonstra que empresas brasileiras podem pensar expansão internacional de forma digital, não apenas física.
Perspectiva: seletiva, com teto alto para plataformas eficientes.
Construção e imobiliário — restritiva
Um corte para 1 3,75% é positivo, mas insuficiente para transformar o setor, sobretudo com os juros longos globais em alta. Minha Casa Minha Vida e
infraestrutura permanecem relativamente protegidos. Média e alta renda dependem de redução mais profunda da curva longa.
Perspectiva: restritiva.
Energia elétrica — estruturalmente positiva
Combinação extremamente favorável para eficiência, mercado livre, contratos de longo prazo, armazenamento e geração distribuída. Petróleo caro torna alternativas elétricas economicamente mais atraentes, e a demanda de data centers para
Inteligência Artificial segue crescendo.
O contrapeso é o El Niño, com risco hidrológico concentrado no quarto trimestre, e o bônus de Itaipu que ajudou a deflação de agosto não se repete.
Perspectiva: positiva no estrutural, com risco tarifário no curto prazo.
Tecnologia e Inteligência Artificial — extraordinária, mas menos indiscriminada
Duas mensagens simultâneas e ambas verdadeiras: a infraestrutura física continua escassa e vendida anos à frente, e o mercado começa a questionar risco, governança e retorno.
Para a empresa brasileira, o melhor caminho permanece o mesmo: IA aplicada a problema mensurável. Cobrança, conciliação, compras, previsão de demanda, gestão de estoque, vendas,
jurídico, recursos humanos e manutenção preditiva.
Perspectiva: fortemente positiva, com exigência crescente de governança.
Saúde — defensiva, com custo em alta
A demanda é resiliente, mas energia e logística encarecem equipamentos, medicamentos, transporte e operação. A eficiência administrativa torna-se ainda mais determinante, e a alavancagem segue sendo o fator eliminatório, como mostrou a Oncoclínicas, com prejuízo de R$ 475,7 milhões no segundo trimestre.
Perspectiva: defensiva.
Defesa, aeroespacial e cibersegurança — estruturalmente positiva
Conflitos prolongados em três teatros simultâneos e fragmentação política consolidam níveis elevados de gasto por vários anos.
Perspectiva: fortemente positiva.
Reestruturação e aquisições — muito favorável para quem tem capital
O ambiente combina dívida cara, margens comprimidas, necessidade de investimento
tecnológico, empresários cansados, questões de sucessão familiar e consolidação setorial.
A tendência é de mais venda de ativos, mais
aquisições de empresas estressadas, mais entrada de sócios, mais renegociação e mais recuperações extrajudiciais e judiciais.
Perspectiva: muito favorável para compradores com liquidez.
9. CENÁRIOS PARA OS PRÓXIMOS 90 DIAS
As probabilidades são estimativas analíticas.
Cenário 1 — Choque energético prolongado, mas administrável | 45%
Gatilhos: o oleoduto Leste-Oeste volta parcialmente em semanas; Ormuz permanece severamente restrito; Brent entre US$ 95 e US$ 1 1 5; o Fed sobe 0,25 ponto e depois espera; o Copom reduz a Selic para 1 3,75% e pausa.
Mundo: crescimento desacelera sem recessão ampla.
Estados Unidos: inflação permanece acima de 3%. Brasil: inflação fecha perto de 5%, atividade cresce perto de 1 ,9%, dólar entre R$ 5,20 e R$ 5,45.
Empresas: energia e capital permanecem caros;
liquidez é a prioridade.
Por segmento: petróleo muito positivo, defesa positivo, agro misto, siderurgia internacionalizada positiva, varejo negativo, aviação muito negativo, logística negativo.
Cenário 2 — Nova escalada regional | 25%
Gatilhos: o oleoduto saudita demora a voltar; os houthis comprometem efetivamente o Bab el-Mandeb; Ormuz piora; Brent supera US$ 1 20;
retaliação saudita contra alvos no Iraque ou no Irã.
Mundo: estagflação clara.
Estados Unidos: mais de uma alta de juros.
Brasil: subsídios crescem, câmbio piora acima de R$ 5,60, o Copom interrompe a flexibilização.
Empresas: pressão severa sobre transporte, indústria, aviação, química e consumo.
Cenário 3 — Descompressão diplomática | 20%
Gatilhos: a reunião de Omã é retomada; Irã e Golfo acertam regras de passagem; o oleoduto saudita
volta integralmente; Brent retorna à faixa de US$ 80 a US$ 90.
Mundo: inflação desacelera.
Estados Unidos: o Fed faz apenas uma alta, ou nenhuma adicional.
Brasil: os cortes podem prosseguir em 2027, o dólar testa R$ 5,00, o Ibovespa rompe 1 95 mil pontos.
Empresas: varejo, construção, logística, aviação e indústria recuperam fôlego.
Cenário 4 — Correção financeira do ciclo de Inteligência Artificial | 1 0%
Gatilhos: o debate de segurança reduz o
investimento; valuations corrigem; o crédito a empresas tecnológicas piora; os rendimentos soberanos permanecem altos.
Mundo: bolsas corrigem e o investimento diminui.
Brasil: fluxo estrangeiro recua e o câmbio piora. Oportunidade: empresas e fundos capitalizados compram ativos tecnológicos a preços menores.
Cenário eleitoral — sobreposto aos
quatro acima
Desfecho
Probabilidade
estimada
Leitura de
mercado
Reeleição de Lula
42%
Prêmio de risco fiscal permanece
elevado
Vitória de Flávio
Bolsonaro
40%
Rali inicial, com teste de
credibilidade em
2027
Terceira via em segundo turno
1 1 %
Reprecificação ampla, direção incerta
Cenário
judicializado ou indefinido
7%
Volatilidade máxima
O desdobramento do caso Banco Master e o
julgamento do registro de Augusto Cury no TSE são os dois eventos que podem alterar essa distribuição nas próximas semanas.
1 0. AGENDA EXECUTIVA E
CALENDÁRIO CRÍTICO
Esta semana
1 5 e 1 6 de setembro. Reunião do Copom, com
decisão na noite de quarta-feira. Expectativa de corte de 0,25 ponto, para 1 3,75%.
1 5 e 1 6 de setembro. Reunião do FOMC, com
decisão, gráfico de projeções atualizado e entrevista de Kevin Warsh às 1 5h no horário de Nova York.
1 6 de setembro. Dia de decisão dupla, o principal evento de mercado do trimestre para ativos
brasileiros.
Ao longo da semana. Prazo crítico dos estoques de Yanbu, com cinco a sete dias de autonomia a partir do fechamento do oleoduto em 1 1 de setembro.
21 de setembro. Petrobras paga a segunda parcela de juros sobre capital próprio, de R$ 0,35 por ação.
22 de setembro. Divulgação da ata do Copom.
Outubro a dezembro
Outubro. Primeiro turno da eleição presidencial. Pico do El Niño entre outubro e dezembro, com risco para safra, reservatórios e bandeiras tarifárias.
3 e 4 de novembro. Penúltima reunião do Copom em 2026.
Dezembro. Última reunião do Copom e reunião do FOMC em que o consenso concentra a expectativa de uma segunda alta americana.
Monitoramento contínuo
Prazo de reparo do oleoduto Leste-Oeste e eventual retaliação saudita. Situação da ilha tomada pelos houthis no Bab el-Mandeb e segurança da navegação para embarcações sauditas. Retomada da reunião de Omã e desdobramento da lista iraniana de 77 embarcações. Ataques ucranianos a refinarias russas e disponibilidade global de diesel. Segurança da usina nuclear de Zaporizhzhia. Julgamento do registro de Augusto Cury no TSE e substituição do candidato do PRTB. Desdobramentos do caso Banco Master e da tensão institucional no Supremo. Custo mensal dos subsídios a combustíveis.
1 1 . AGENDA ESTRATÉGICA PARA AS EMPRESAS BRASILEIRAS
A experiência acumulada desde fevereiro sugere uma mudança na forma de planejar. Não trabalhar com um orçamento. Trabalhar com cenários.
Energia. Simular Brent a US$ 85, US$ 1 05 e US$ 1 25. E, separadamente, simular diesel, que já não acompanha o barril.
Câmbio. Simular R$ 4,90, R$ 5,30 e R$ 5,80.
Dimensionar exposição antes de quarta-feira.
Juros. Não assumir queda rápida. O Copom corta enquanto Fed e BCE sobem, e essa divergência tem limite.
Caixa. Projeção rolante de 1 3, 26 e 52 semanas.
Fornecedores. Ter alternativa funcional para cada
insumo crítico. A lição da semana é literalmente essa: a Arábia Saudita tinha uma rota alternativa, e a rota
alternativa foi atingida.
Clientes. Nenhum cliente deveria ser economicamente indispensável.
Estoque. Separar estoque improdutivo de estoque estratégico. Combustível, insumos importados e componentes críticos mudaram de categoria.
Tecnologia. Investir em Inteligência Artificial apenas com indicador, responsável, retorno esperado e governança definidos.
Pessoas. Não cortar capacidade crítica antes que a automação esteja efetivamente validada.
Fusões e aquisições. Mapear concorrentes
pressionados antes que a oportunidade chegue ao mercado.
Eleição. Testar a empresa para mais de um cenário fiscal, tributário e cambial.
CONCLUSÃO
A semana de 6 a 1 4 de setembro talvez seja a que mais claramente mostra por que 2026 não pode ser administrado com previsões lineares.
Há poucos meses, Ormuz era o problema. A Arábia Saudita construiu uma alternativa pelo Mar Vermelho. Nesta semana, essa alternativa foi atingida por drones vindos do Iraque, e a entrada do Mar Vermelho foi ocupada por um grupo armado que declarou a passagem segura para todos, menos para os
sauditas.
A Rússia continuava fornecendo derivados ao mercado mundial. Agora suas refinarias são alvo sistemático de drones ucranianos, ao ponto de o presidente americano pedir publicamente que os ataques cessem.
O Fed parecia caminhar para permanecer parado.
Agora tem uma alta praticamente precificada, e 85% dos economistas a esperam.
O Brasil parecia ter vencido parte da inflação. Mas está gastando cerca de R$ 40 bilhões para impedir que o choque externo chegue ao consumidor, uma troca direta entre inflação menor agora e custo fiscal maior depois.
A Inteligência Artificial parecia uma corrida em velocidade máxima. Agora alguns dos próprios
líderes do setor pedem desaceleração, enquanto as
máquinas necessárias para fabricar os chips mais avançados estão praticamente vendidas até 2027.
A China é fraca no consumo. E extraordinariamente forte na capacidade de produzir.
E o Brasil entra na reta decisiva da eleição com uma disputa estatisticamente empatada, um terceiro nome crescendo em três institutos diferentes e a
política fiscal cada vez mais conectada à precificação dos ativos.
Tudo isso aponta para uma conclusão que venho construindo há semanas e que esta edição torna inescapável.
A maior vantagem competitiva de uma empresa hoje não é prever corretamente o Brent, o dólar, a Selic ou a eleição. É não depender de que nenhuma dessas previsões esteja correta.
Isso significa construir caixa, fornecedores alternativos, clientes diversificados, estruturas de custo flexíveis, capacidade tecnológica, acesso a capital, governança e velocidade de decisão.
Eficiência maximiza o desempenho dentro de um cenário. Opcionalidade permite sobreviver quando o cenário deixa de existir.
E em 2026, os cenários estão desaparecendo muito mais rapidamente do que os planejamentos empresariais tradicionais conseguem acompanhar. A Arábia Saudita descobriu isso na quinta-feira passada, com uma rota de fuga de 1 .200 quilômetros e um porto com sete dias de estoque.

