
Os Estados Unidos atacam a ilha de Larak, o Irã retalia na Jordânia e Trump publica um vídeo gerado por Inteligência Artificial anunciando a destruição de Kharg, que não aconteceu. O Brent volta acima de US$ 90. Warsh endurece em Jackson Hole e a chance de alta de juros nos Estados Unidos retorna a 60%. A Nvidia entrega US$ 96,22 bilhões. A Reuters revela que a Meta abortou o plano de substituir milhares de funcionários por agentes de IA. No Brasil, o IPCA- 15 registra deflação de 0,40%, o desemprego cai a 5,3%, mas a criação de vagas formais desaba 56%. E a Justiça suspende a tarifa de exportação de petróleo no mesmo dia em que a Camex a prorroga.
SUMÁRIO EXECUTIVO
O quadro em uma frase: agosto termina provando que nenhuma das crises de 2026 foi resolvida, e que a velocidade com que os riscos mudam de direção hoje supera a capacidade de adaptação de qualquer empresa.
Os sete fatos que definem a semana:
- A guerra voltou. No domingo, 30, o Comando Central americano atacou dois lançadores iranianos na ilha de Larak, no Estreito de Ormuz. Foi o primeiro ataque americano conhecido desde o fim de julho. O Irã retaliou contra bases americanas na Jordânia. O Brent voltou acima de US$ 90.
- Trump publicou um vídeo falso. O presidente americano anunciou nas redes sociais que a ilha de Kharg, principal terminal de exportação iraniano, estava sendo reduzida a escombros. A publicação vinha acompanhada de um vídeo gerado por Inteligência Artificial. Não houve ataque. A Reuters não encontrou evidência, o Irã negou e o presidente da estatal iraniana classificou a mensagem como ridícula.
- Warsh endureceu. O discurso de estreia em Jackson Hole levou a probabilidade implícita de alta de juros em setembro de volta à faixa de 58% a 60%. O Barclays, que não previa nenhuma alta em 2026, passou a projetar duas.
- A Nvidia confirmou o ciclo de IA. Receita de US$ 96,22 bilhões, mais que o dobro do ano anterior, com projeção de crescimento de 70% no próximo exercício fiscal.
- A Meta mostrou o outro lado. Investigação da Reuters revelou que o Project OT previa cortar até 60% de algumas equipes substituindo-as por agentes de IA. O plano foi abortado horas antes da segunda onda de demissões, depois que os incidentes técnicos e de segurança subiram 40%.
- O Brasil teve a melhor inflação do ano e o pior fluxo de emprego. O IPCA-15 registrou deflação de 0,40% e o desemprego caiu a 5,3%, recorde da série histórica. Mas foram criadas apenas 58.568 vagas formais em julho, queda de 56,3% em doze meses.
- A Justiça derrubou a tarifa de exportação de petróleo. No mesmo dia em que a Camex prorrogou a alíquota de 12% por mais sessenta dias, um juiz federal de Brasília suspendeu a cobrança e barrou antecipadamente novas prorrogações.
A orientação prática da semana: trabalhe cenários de Brent em quatro faixas, não com uma projeção única. E, se estiver planejando automação, automatize processos antes de automatizar organogramas.
ABERTURA
Há três semanas escrevi nesta coluna que o mercado havia passado a precificar paz em Ormuz antes que a paz existisse. Nesta segunda-feira, voltou a precificar guerra antes que a diplomacia estivesse oficialmente encerrada.
No domingo, 30 de agosto, forças americanas atacaram dois lançadores de foguetes iranianos na ilha de Larak, junto ao ponto mais estreito de Ormuz. O capitão de mar e guerra Tim Hawkins, porta-voz do Comando Central americano, confirmou a operação: “Posso confirmar que hoje mais cedo forças dos Estados Unidos atingiram dois lançadores iranianos na ilha de Larak. Forças do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica foram observadas preparando o lançamento de foguetes com minas marítimas no Estreito de Ormuz.” Foi o primeiro ataque americano publicamente reconhecido contra o
Irã desde o fim de julho. A Guarda Revolucionária respondeu atacando duas bases aéreas americanas na Jordânia.
E então veio o episódio que define o ambiente informacional de 2026 melhor do que qualquer análise geopolítica.
Trump publicou no Truth Social que a ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo do Irã, por onde passa a quase totalidade dos embarques iranianos, estava sendo reduzida a escombros. A publicação veio acompanhada de um vídeo gerado por Inteligência Artificial. Não havia ataque. A Reuters confirmou que não existia evidência de impacto sobre o terminal. O Irã negou. Hamid Bovard, presidente-executivo da National Iranian Oil Company, classificou as mensagens de ridículas e afirmou que as operações petrolíferas em Kharg seguiam normais.
O mercado reagiu assim mesmo. O Brent saltou mais de 2%, para a faixa de US$ 89,50 a US$ 90,50, e o WTI para cerca de US$ 85.
Para quem precisa tomar decisões de hedge, estoque e capital, isso carrega uma consequência incômoda: o preço do petróleo passou a responder também a conteúdo sintético. A checagem de fatos deixou de ser um problema de jornalismo e virou um problema de gestão de risco.
No plano monetário, a semana produziu uma reversão importante. Há duas edições, o payroll negativo de julho e uma inflação ao consumidor mais benigna haviam reduzido substancialmente as apostas de aperto nos Estados Unidos. Depois do discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole e de um PCE ainda em 3,7%, o mercado voltou a atribuir cerca de 60% de probabilidade a uma alta de juros em setembro.
E no Brasil, a semana foi das mais contraditórias do ano: a melhor leitura de inflação em doze meses, o menor desemprego da série histórica e a mais fraca criação de empregos formais desde o início do ciclo.
É esse o cenário. Vamos aos fatos.
- AS PRINCIPAIS NOTÍCIAS DA SEMANA
1.1 Estados Unidos atacam Larak, Irã retalia e o Brent volta acima de US$ 90
O ataque de domingo a dois lançadores na ilha de Larak marcou a retomada da ação militar direta depois de cerca de um mês de negociações indiretas. A justificativa americana, segundo o Comando Central, foi que as forças iranianas preparavam o lançamento de foguetes carregando minas navais para dentro do Estreito. A operação veio depois de os Estados Unidos terem concluído, na semana anterior, uma varredura de minas nas rotas de navegação.
O Irã retaliou contra duas bases aéreas americanas na Jordânia, segundo comunicado da Guarda Revolucionária divulgado pela mídia estatal, com relatos adicionais de alvos nos Emirados Árabes Unidos.
O preço reagiu de imediato. Nas negociações asiáticas de segunda-feira, o Brent de novembro subia entre 1,5% e 2,7% conforme o momento do dia, transitando entre US$ 89,46 e US$ 90,49 por barril. O WTI de outubro avançava para a faixa de US$ 84,60 a US$ 85,56. O movimento desmontou boa parte do alívio observado no meio da semana anterior, quando o Brent havia recuado para cerca de US$ 86 com a retomada das conversas entre Irã e Omã.
Duas leituras de mercado ajudam a calibrar o risco. Suvro Sarkar, chefe de pesquisa de energia do banco DBS, disse à Reuters: “Vemos uma probabilidade maior de confrontos limitados do que de uma escalada prolongada do conflito. O que continua a ser afetado a cada novo agravamento das tensões são os prazos para a reabertura do Estreito de Ormuz.” Michael Alfaro, diretor de investimentos do fundo Gallo Partners, disse ao Financial Times que os novos ataques “não só sublinham a fragilidade da desescalada como também a determinação do Irã em dificultar a circulação no Estreito”.
Um elemento adicional de oferta entrou na equação no mesmo dia. Trump anunciou que Washington começará a repor a Reserva Estratégica de Petróleo com óleo obtido por meio de um novo acordo com a Venezuela.
O conflito completa seis meses. As negociações seguem travadas, com mediadores de Omã e do Catar trabalhando para reabrir a rota por onde passava aproximadamente um quinto do petróleo mundial antes do início da guerra, no fim de fevereiro.
1.2 O vídeo de Kharg: quando a desinformação move o preço da commodity
Este episódio merece tratamento separado, porque não é um detalhe da cobertura de guerra. É um fato de mercado.
A publicação de Trump afirmando que Kharg estava sendo destruída foi acompanhada de um vídeo produzido por Inteligência Artificial, sem qualquer outro detalhe operacional. Nenhuma evidência de ataque foi encontrada. O Pentágono não confirmou. O Irã negou e informou que a produção e o carregamento seguiam normais.
O peso da informação se explica pela geografia. Kharg concentra a infraestrutura de exportação iraniana, e um ataque real ao terminal seria provavelmente o evento mais altista possível para o petróleo. Teerã já avisou que responderia destruindo infraestrutura energética de empresas ligadas aos Estados Unidos. O mercado sabe disso. A simples exibição do alvo, portanto, já produz efeito de preço mesmo quando o ataque não existe.
A consequência operacional é direta. Políticas de hedge acionadas por gatilhos automáticos de preço passaram a ter uma vulnerabilidade nova. Empresas que operam com disparo automático de cobertura em determinados patamares de Brent precisam incluir uma etapa de verificação de fonte antes da execução, algo que dezoito meses atrás soaria excêntrico em um comitê de tesouraria.
1.3 Ormuz: os rastreadores contavam menos do que parecia
Uma informação desta semana resolve uma divergência que venho carregando há várias edições.
Nas semanas anteriores, os rastreadores marítimos públicos indicavam fluxo extremamente reduzido.
Kpler e Windward apontavam algo em torno de 5 milhões de barris por dia de petróleo bruto cruzando Ormuz, contra números oficiais americanos de até 15 milhões.
Agora há explicação. Estimativas do Goldman Sachs, citadas pela Reuters, apontam que as exportações totais do Golfo teriam se recuperado para a faixa de 15 a 16 milhões de barris por dia. Ainda 7 a 8 milhões abaixo do nível anterior à guerra, mas substancialmente acima dos mínimos de março e acima do que os rastreadores captavam. A razão é operacional: navegação noturna, transponders desligados, escolta militar e rotas não convencionais tornam os sistemas convencionais incompletos.
A leitura correta deixou de ser “Ormuz está aberto” ou “Ormuz está fechado”. É esta:
Ormuz opera num regime de navegação militarizada, irregular e economicamente arriscada. Muito abaixo da normalidade, mas com volumes físicos maiores do que os rastreadores públicos indicavam nos momentos de maior tensão.
A distinção importa para quem planeja. Significa que o risco de desabastecimento físico é menor do que parecia, mas que o custo de mover a carga — seguro, tripulação, prêmio de risco, tempo de trânsito — é estruturalmente mais alto e não voltará aos níveis anteriores enquanto durar o conflito.
1.4 Warsh endurece em Jackson Hole e o Fed volta ao radar de alta
O discurso de estreia de Kevin Warsh como presidente do Federal Reserve, na manhã de sexta-feira, 28, no simpósio de Jackson Hole, foi a notícia macroeconômica mais importante da semana.
Warsh, em seu centésimo dia de mandato, manteve a recusa a fornecer orientação prospectiva. A frase que sintetizou a doutrina: “Não devemos alimentar um regime em que os participantes do mercado olham primariamente para o Fed em busca de sua próxima operação.”
Sobre inflação, foi explícito: “Embora as leituras deste verão tenham sido melhores do que o esperado, elas não me dizem que as tendências subjacentes melhoraram de forma significativa.” Ofereceu um dado próprio para sustentar o argumento: mais da metade dos bens e serviços monitorados subiu 3% ou mais no último ano, contra aproximadamente um terço nas duas décadas anteriores à pandemia. Reiterou que o Fed agirá caso a inflação não mostre convergência consistente para 2%.
A reação foi imediata e mensurável. A probabilidade implícita de alta de juros no FOMC de 15 e 16 de setembro, que estava em 39,9% em 21 de agosto e em torno de 35% na véspera do discurso, saltou para a faixa de 57% a 60% após o discurso e a divulgação do PCE. O Treasury de dois anos avançou até 4,34%. O de dez anos rondou 4,73%. As bolsas subiram após digerir o discurso e o ouro caiu.
A leitura mais precisa veio de Heather Long, economista-chefe da Navy Federal Credit Union, à CNBC: “Warsh abriu a porta para uma alta de juros do Fed. Uma alta provavelmente não virá em setembro, mas virá até outubro ou dezembro. Warsh disse explicitamente que as leituras encorajadoras de inflação deste verão não indicam melhora significativa. Os mercados de títulos reagiram rapidamente precificando uma alta.”
As casas se moveram. O Barclays, que antes não previa novas altas em 2026, passou a projetar aumentos de 0,25 ponto em setembro e em dezembro.
Em um mês, a narrativa americana descreveu um círculo completo. Emprego fraco reduziu o risco de alta. Inflação persistente e um presidente do Fed duro trouxeram a alta de volta ao centro do tabuleiro.
1.5 O PCE confirma a inflação desconfortável
O índice de preços de gastos com consumo pessoal, indicador preferido do Fed, divulgado em 26 de agosto pelo Bureau of Economic Analysis, veio em 3,7% em doze meses em julho, com núcleo em 3,3% e alta de 0,2% no mês. A leitura cheia surpreendeu para cima em 0,1 ponto. O núcleo veio em linha. Ambos permanecem muito acima da meta de 2%.
Nas contas de renda e consumo: renda pessoal em alta de 0,4%, renda disponível 0,5%, consumo nominal 0,2% e taxa de poupança em 3,0%.
O consumidor americano não entrou em colapso, mas está claramente menos expansivo. E o dilema do Fed permanece onde estava: inflação alta demais para cortar, crescimento frágil demais para apertar agressivamente.
Completando o quadro da semana, a segunda estimativa do PIB americano do segundo trimestre foi mantida em 1,5% anualizado, os pedidos de bens duráveis de julho subiram 1,1% e o Chicago PMI marcou mínima de oito meses.
1.6 O mercado de trabalho americano não é tão frágil quanto o payroll sugeriu
Depois da inesperada perda líquida de 23 mil empregos em julho, os dados semanais trouxeram correção de perspectiva. Os pedidos iniciais de seguro-desemprego caíram para 203 mil e os pedidos continuados recuaram para 1,778 milhão.
O padrão é conhecido: poucas demissões, contratação lenta. Um mercado de trabalho em equilíbrio frio, não em deterioração.
O payroll de agosto, previsto para 4 de setembro, torna-se decisivo. A expectativa de consenso ronda 58 mil novas vagas, com desemprego em 4,1%. Um número muito acima disso, combinado com o tom de Warsh, praticamente sela a alta de setembro.
1.7 A Nvidia confirma que o ciclo de infraestrutura de IA segue extraordinário
A Nvidia divulgou em 26 de agosto o resultado do segundo trimestre fiscal de 2027: receita recorde de US$ 96,22 bilhões, mais que o dobro do ano anterior, com alta de 106%. A receita de data center somou aproximadamente US$ 89 bilhões, avanço de 117%, e o lucro por ação ajustado ficou em US$ 2,22, contra US$ 2,10 esperados. A ação subiu cerca de 9% no pregão seguinte, adicionando aproximadamente US$ 440 bilhões de valor de mercado e revertendo quatro trimestres consecutivos de queda pós-balanço.
Jensen Huang projetou crescimento de receita de aproximadamente 70% no ano fiscal de 2028 e afirmou que a demanda supera esse número, sendo a oferta o gargalo, especialmente memória de alta largura de banda e capacidade de encapsulamento na TSMC. A diretora financeira Colette Kress foi direta sobre a origem do problema: “a escassez de memória hoje é impulsionada em grande parte pela própria construção de infraestrutura de IA”. A AWS anunciou a compra de 2 milhões de GPUs Nvidia e a adoção da nova CPU Vera.
O balanço trouxe sinais de tensão. A margem bruta deve recuar para a faixa de 71% a 72% no quarto trimestre fiscal, abaixo dos picos recentes, por causa do custo de memória. Somam-se restrições comerciais à China, necessidade gigantesca de energia e de capital, e pressão de custos ao longo de toda a cadeia.
A leitura estrutural é que a IA migra de uma fase dominada por escassez de computação para uma fase em que também pesam energia, memória, capital, construção, rede, refrigeração e, sobretudo, produtividade financeira do investimento.
1.8 A Meta mostra o que acontece quando a IA é implantada errado
Se a Nvidia é a boa notícia da semana para o setor de tecnologia, a investigação da Reuters publicada na quarta-feira, 26, é a notícia mais importante do mês para quem gere empresas em qualquer setor.
A reportagem, baseada em dezenas de documentos internos, gravações e entrevistas com mais de vinte pessoas, revelou o Project OT, de Organization Transformation, plano concebido em um retiro de liderança em janeiro, na propriedade de Mark Zuckerberg no Havaí, para tornar a Meta uma companhia nativa em Inteligência Artificial.
O desenho previa que agentes de IA executassem o trabalho cotidiano, supervisionados por pequenos grupos de funcionários organizados em pods.
Engenheiros, designers e gerentes de produto migrariam para papéis genéricos de construtores. Camadas de gerência média encolheriam. Análise assistida por agentes definiria prioridades diárias. Os executivos consideraram reduzir algumas equipes em até 60%, por meio de demissões, congelamento de vagas e desligamento de baixo desempenho. Um executivo de recursos humanos projetou corte ao menos tão grande quanto o de 2023. O plano previa duas ondas, em maio e em novembro.
Os próprios números internos da Meta desmentiram a tese. Segundo publicação do diretor de tecnologia Andrew Bosworth no início de junho, as alterações de código nas plataformas internas subiram 220% em um ano, mas as mudanças que efetivamente chegaram aos usuários como recursos novos ou aprimorados subiram apenas 36%. Mais código, não mais produto.
Pior: os incidentes técnicos e de segurança relevantes subiram 40% em relação ao ano anterior, e o tempo gasto pelos funcionários respondendo a eles subiu 70%. Uma publicação interna de abril registrou que agentes de IA sem supervisão adequada estavam executando “ações disruptivas em larga escala que humanos dificilmente executariam”. Em junho veio o caso público: hackers exploraram o robô de atendimento ao cliente da Meta, movido a IA, para acessar contas de alto perfil no Instagram, entre elas a conta inativa da Casa Branca de Obama.
Houve também revolta interna. Quando os funcionários passaram a acreditar que o software que registrava cliques de mouse e digitação estava treinando seus próprios substitutos, inundaram a rede interna com publicações de protesto.
Na noite de 19 de maio, horas antes da primeira rodada de demissões, Zuckerberg cancelou a segunda onda, prevista para novembro. A Meta executou o corte de aproximadamente 10% do quadro, cerca de 8 mil pessoas, e Zuckerberg depois comunicou que não esperava novas demissões em massa no ano. A companhia confirmou o projeto à Reuters, descrevendo-o como esforço de um ano voltado a redução de custos e redesenho de estruturas, e enquadrando os cortes mais agressivos como cenários em consideração.
A lição, e a razão de dedicar tanto espaço a uma notícia estrangeira:
A IA funciona extraordinariamente bem como tecnologia de produtividade quando o processo é redesenhado com disciplina. Falha quando é tratada apenas como ferramenta para eliminar pessoas antes de a operação estar pronta.
A Meta tinha os modelos, o orçamento de computação, o talento de engenharia e a convicção do fundador. Ainda assim descobriu que mais código não significa mais produto, e que agentes criam trabalho próprio. Analistas do setor já projetam que mais de 40% dos projetos de IA agêntica sejam abandonados até 2027 por valor pouco claro e custos crescentes.
Automatizar primeiro e descobrir depois quem responde pelo processo é receita para aumentar risco, não para reduzir custo.
1.9 O risco de IA vira questão de estabilidade financeira
Nesta segunda-feira, o Financial Stability Board afirmou que riscos cibernéticos potencializados por Inteligência Artificial estão entre as ameaças mais imediatas à estabilidade financeira internacional. As preocupações incluem ataques automatizados, dependência de poucas plataformas, vulnerabilidade sistêmica, concentração tecnológica, dificuldade regulatória e modelos capazes de contornar salvaguardas.
Em paralelo, economistas reunidos em Jackson Hole discutiram como a IA poderá alterar a própria comunicação dos bancos centrais, já que algoritmos interpretam discursos e decisões em velocidade superior à humana. É um tema com implicação direta sobre a nova doutrina de Warsh, que reduz deliberadamente a orientação prospectiva.
A discussão sobre IA entrou definitivamente em uma nova fase: produtividade, segurança e governança, não mais apenas capacidade.
1.10 O boom de IA sustenta os lucros e concentra o risco
Os lucros das empresas do S&P 500 caminham para crescimento de aproximadamente 34,5% no segundo trimestre, com IA e infraestrutura tecnológica no papel central. Isso ajuda a explicar por que as bolsas americanas seguem próximas de máximas apesar de guerra, inflação, dívida pública e juros altos.
O fluxo conta uma história mais sutil. Fundos de ações americanas registraram saída líquida de US$ 22,33 bilhões na semana encerrada em 26 de agosto, o maior resgate desde março. Em contrapartida, fundos de tecnologia receberam recursos e fundos de renda fixa continuaram atraindo capital.
Não é fuga de ações. É seletividade extrema dentro do próprio mercado acionário, com concentração crescente em um punhado de nomes ligados à IA.
1.11 China: indústria melhora na margem, demanda interna continua fraca
O PMI industrial oficial chinês subiu de 49,2 para 49,8 em agosto, melhor que o consenso, mas segundo mês consecutivo em contração. Produção, em 50,4, e novos pedidos, em 50,6, voltaram ao campo de expansão, mas o emprego seguiu fraco, em 48,7.
O índice não manufatureiro ficou em 49,0, o nível mais fraco desde dezembro de 2022, com serviços em 49,3 e construção em 46,9, afetada por clima extremo. O composto ficou em 49,5. Setores de alta tecnologia e equipamentos registraram PMIs acima de 51.
O diagnóstico é quase perfeito da economia chinesa atual:
O país é forte onde fabrica para o futuro e fraco onde depende da confiança do próprio consumidor.
Para a indústria brasileira, isso reforça a tendência que venho apontando há três edições: o China Shock
2.0 deixou de ser hipótese acadêmica e virou questão estratégica concreta. Para a mineração, sinaliza demanda ainda morna por minério de ferro.
1.12 O comércio global entra em fase de formação de blocos
Três movimentos desta semana, quando lidos juntos, mostram que a disputa comercial deixou de ser uma série de conflitos bilaterais.
O Canadá retaliou. Ottawa anunciou tarifas sobre aproximadamente US$ 20 bilhões de produtos americanos, com alíquotas entre 15% e 50%, após o fracasso das negociações bilaterais. As tarifas entram em vigor em 8 de setembro e atingem aço, alumínio, móveis, alimentos, laticínios e eletrônicos. O país lançou ainda pacote de apoio de 7,5 bilhões de dólares canadenses às empresas afetadas.
Os Estados Unidos pediram frente comum contra a China. No G20, Scott Bessent passou a defender que outros países reconsiderem suas condições comerciais com Pequim, argumentando que o superávit comercial chinês próximo de US$ 1,2 trilhão é insustentável para o resto do mundo absorver indefinidamente.
A Europa se moveu na mesma direção. França e Alemanha preparam agenda conjunta para reduzir os desequilíbrios comerciais chineses, incluindo a questão cambial, embora o problema de fundo seja a combinação de demanda interna fraca e excesso de capacidade industrial na China.
Há, portanto, um alinhamento crescente, ainda incompleto, entre Estados Unidos, Europa, Canadá e outros industrializados. Pode ser o início de uma nova etapa de protecionismo global.
A mensagem canadense é particularmente relevante para o Brasil, que abriu processo de reciprocidade contra as tarifas americanas. Retaliar pode proteger setores específicos, mas transforma uma disputa bilateral numa espiral de aumento de custos. A Lei da Reciprocidade precisa ser usada com precisão cirúrgica, não como instrumento político.
- BRASIL: A SEMANA DOMÉSTICA
2.1 IPCA-15 registra deflação de 0,40%
O IPCA-15 de agosto, divulgado em 26 de agosto, caiu 0,40%, a primeira deflação mensal desde agosto de 2025. Em doze meses, o índice desacelerou de 4,52% para 4,24%, abaixo inclusive das estimativas dos economistas.
As principais contribuições vieram de habitação, com queda de 1,41%, transportes, com recuo de 1,00%, e alimentação e bebidas, com baixa de 0,57%.
Uma ressalva separa a boa notícia da euforia. Parte relevante da queda em habitação decorreu de um desconto extraordinário relacionado ao bônus de Itaipu, que não deve se repetir nos meses seguintes. A inflação subjacente está de fato melhorando, mas o resultado de menos 0,40% não significa que o Brasil entrou numa fase de deflação estrutural.
2.2 Desemprego cai a 5,3% e ocupação bate recorde
A taxa de desemprego no trimestre encerrado em julho caiu para 5,3%, a menor já registrada para esse período na série iniciada em 2012. O número de ocupados alcançou 103,3 milhões, também recorde.
Esse é hoje o principal amortecedor da desaceleração econômica brasileira. Famílias com emprego consomem, mantêm financiamentos, sustentam serviços e evitam deterioração mais rápida da inadimplência.
Mas o dado precisa ser lido em conjunto com o Caged, e é aí que a fotografia muda.
2.3 A criação de vagas formais desaba 56%
O Brasil criou apenas 58.568 empregos formais líquidos em julho, contra 133.932 em julho de 2025, queda de 56,3% em um ano. O número também ficou muito abaixo da expectativa de mercado, de cerca de 112 mil, e representa forte desaceleração ante os 137 mil de junho.
É uma informação mais preocupante do que a taxa de desemprego isoladamente sugere. O quadro correto é este:
Estoque de emprego excepcionalmente forte, com o fluxo de novas contratações mostrando a desaceleração produzida por juros de 14%.
Essa combinação de estoque forte com fluxo fraco costuma aparecer no início de desacelerações do mercado de trabalho. Não significa crise. Significa perda de velocidade. E conversa diretamente com o IBC-Br de junho, que caiu 0,6%, e com o segundo trimestre, que cresceu apenas 0,2% contra 1,2% no primeiro.
2.4 A equação do Copom ficou mais difícil, não mais fácil
A Selic permanece em 14,00%. O Boletim Focus de 24 de agosto trazia IPCA de 2026 em 5,02%, PIB cortado de 1,98% para 1,95%, Selic terminal de 13,75% e dólar a R$ 5,20. Para 2027: IPCA de 4,25%, PIB de 1,50%,
Selic de 12,00% e dólar a R$ 5,30.
No meio da semana, a combinação de IPCA-15 deflacionário, Caged fraco e IBC-Br negativo parecia consolidar o corte de setembro. No fim da semana, três fatores empurraram na direção contrária: o petróleo voltou acima de US$ 90, Warsh endureceu e a probabilidade de alta nos Estados Unidos subiu para 60%.
Os sinais ficaram novamente divididos. Favorecem o corte a inflação corrente menor, a atividade desacelerando e a geração de empregos formais mais fraca. Favorecem a cautela o petróleo em alta, o Fed possivelmente subindo juros, a eleição competitiva e o quadro fiscal deteriorado.
A reunião de 15 e 16 de setembro será consideravelmente mais complexa do que parecia na quarta-feira.
2.5 A Justiça derruba a tarifa de exportação de petróleo no mesmo dia em que a Camex a prorroga
Esta é a notícia regulatória mais importante da semana para o setor de energia, e um caso exemplar de insegurança jurídica.
Na quinta-feira, 27 de agosto, o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior aprovou a prorrogação, por mais sessenta dias a partir de 8 de setembro, do imposto de exportação de 12% sobre petróleo bruto e minerais betuminosos. É a segunda prorrogação da medida.
No mesmo dia, o juiz Diego Câmara, da 17ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal, concedeu liminar em mandado de segurança coletivo impetrado pela Associação Brasileira de Empresas de Exploração e Produção de Petróleo e Gás, suspendendo a cobrança.
O fundamento é formal e vale ser entendido, porque tem implicações que ultrapassam o setor. A medida provisória 1340 de 2026, que instituiu a cobrança, vigorou por 120 dias e caducou em 9 de julho por não ter sido aprovada pelo Congresso. No mesmo dia, o Gecex publicou a Resolução 938 de 2026, reinstituindo a alíquota por ato administrativo, algo juridicamente possível por se tratar de tributo regulatório. A associação sustentou que a resolução era, na prática, reprodução da cobrança que o Legislativo deixara caducar. O juiz concordou: “Reputo descabida, com ainda mais razão, a renovação de tal majoração mediante ato normativo infralegal, sob pena de burla ao devido processo legislativo.”
A decisão foi além do presente. A liminar determina que a Receita Federal se abstenha de exigir o tributo das empresas representadas pela associação conforme a Resolução Gecex 938 e também em eventuais novas normas editadas pela Camex. Na prática, barra antecipadamente a prorrogação aprovada no mesmo dia. Enquanto vigorar a liminar, a decisão da Camex não tem efeito para as associadas.
O magistrado registrou ainda consideráveis questionamentos sobre a adequação material da medida, citando parecer do professor José Maria Arruda de Andrade segundo o qual o imposto de exportação sobre petróleo bruto não é instrumento idôneo para capturar lucros extraordinários, objetivo que seria melhor alcançado por royalties e tributação normal da atividade. A associação argumenta ainda que a alíquota única de 12% sobre receita bruta, sem considerar as especificidades de cada projeto, viola isonomia e capacidade contributiva.
O juiz não autorizou restituição ou compensação do que já foi pago. A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional informou que analisa os recursos cabíveis.
Os números em jogo são relevantes. A Petrobras pagou aproximadamente R$ 4,9 bilhões do tributo apenas no segundo trimestre. Também são afetadas Shell, Equinor, TotalEnergies e produtores independentes.
Na mesma reunião, o Gecex aprovou medidas antidumping definitivas sobre resinas PET da Malásia e do Vietnã e sobre tubos de aço carbono da Ucrânia, além de antidumping provisório contra fibras de vidro da China e do Egito. É sinal de que a agenda de defesa comercial brasileira está se intensificando.
A leitura para o investidor e para o executivo do setor é direta. O problema não é a alíquota. É a previsibilidade. Decisões de capital em exploração e produção têm horizonte de dez a trinta anos e não se acomodam a um tributo que muda de status a cada sessenta dias, entre medida provisória caducada, resolução administrativa e liminar judicial.
2.6 A eleição aperta e surge um nome novo
A pesquisa AtlasIntel para a Bloomberg, divulgada nesta segunda-feira, trouxe dois movimentos relevantes.
No segundo turno, Lula aparece com 47,1% e Flávio Bolsonaro com 42,6%, vantagem de 4,5 pontos, com margem de erro de 1 ponto. Lula recuou 2,1 pontos ante os 49,2% do levantamento anterior, de 29 de julho. Flávio caiu 0,3 ponto ante 42,9%. Brancos, nulos e indecisos subiram de 7,9% para 10,3%. Em outros cenários, Lula venceria Romeu Zema por 47% a 40,7%, Ronaldo Caiado por 46,6% a 41% e Renan Santos por 47,5% a 26%.
No primeiro turno, com treze candidatos, veio a surpresa. Lula obteve 43,4%, ante 44,9%, e Flávio 33,7%, ante 35,8%. Mas o movimento que chama atenção é o de Augusto Cury, do Avante, que saltou de 1,6% para 7,8% e assumiu numericamente a terceira colocação, tecnicamente empatado com Renan Santos, que ficou com 7,6%. Caiado marcou 3,3%.
A disparada de Cury coincide com o início da campanha, sua participação no debate da Band, o crescimento nas redes sociais e a sabatina da Rede Globo no sábado, 29, durante o período de campo da pesquisa. Cury não tem tempo no horário eleitoral gratuito, o que torna o fenômeno ainda mais interessante do ponto de vista de comunicação política: é crescimento por mídia espontânea e digital, não por estrutura partidária.
Somam-se aos levantamentos da semana anterior o Nexus para o BTG, de 24 de agosto, com Lula em 40% e Flávio em 34% no primeiro turno e 46% a 45% no segundo; o Indexa para o Broadcast, de 26 de agosto, com 39% a 33%; e o PoderData, de 27 de agosto, com 38% a 35% no primeiro turno e 45% a 44% no segundo.
As metodologias diferem substancialmente. A AtlasIntel usa recrutamento digital aleatório, Datafolha e Quaest trabalham com entrevistas presenciais, o PoderData usa telefone. Nenhuma leitura isolada deve ser tratada como previsão. Mas a direção é consistente:
A eleição está suficientemente competitiva para gerar volatilidade crescente nos ativos brasileiros ao longo de setembro.
O horário eleitoral gratuito começou em 28 de agosto, e a próxima rodada Datafolha para a Globo está prevista para o início de setembro. O julgamento da candidatura de Pablo Marçal no Tribunal Superior Eleitoral ocorre até 14 de setembro.
2.7 O mercado começa a ver o problema fiscal como independente do vencedor
Uma análise da Reuters publicada na semana traz o argumento mais importante do debate econômico eleitoral. Gestores e economistas veem diferenças políticas significativas entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas diferença bem menor na trajetória provável da dívida pública.
Os números explicam a conclusão. A dívida bruta está em aproximadamente 81,9% do PIB. Segundo estimativa do Barclays, estabilizá-la até 2031 exigiria ajuste fiscal de pelo menos 2,5 pontos percentuais do PIB, algo próximo de R$ 350 bilhões.
A dificuldade está na estrutura do orçamento. Aproximadamente 92% do gasto primário federal é obrigatório, sobra pouco espaço discricionário, o Congresso está fragmentado, e benefícios, Previdência, salários e indexações são politicamente difíceis de alterar.
A conclusão é incômoda e vale ser dita com clareza:
A eleição decidirá a forma do ajuste, mas dificilmente eliminará a necessidade do ajuste.
Para o planejamento empresarial, isso significa construir cenários que não dependam de um único resultado eleitoral, porque a variável fiscal atravessa os dois.
2.8 O real resiste, mas não está imunizado
Apesar da eleição, do quadro fiscal, da guerra e das tarifas, o real continua relativamente forte. Até meados da semana, acumulava valorização de aproximadamente 5,8% no ano frente ao dólar e quase 20% desde o fim de 2024.
A sustentação vem da Selic de 14%, do carry elevado, das contas externas, das commodities e de um dólar global relativamente fraco. O dólar fechou a semana em torno de R$ 5,1959, com alta aproximada de 1%.
A proteção, porém, não é infinita. Entre março e junho, investidores estrangeiros retiraram cerca de US$ 4,2 bilhões de carteiras brasileiras de ações e dívida, depois de terem aportado US$ 18,8 bilhões em janeiro e fevereiro. Em agosto, a saída da B3 já havia superado R$ 22 bilhões até o dia 19.
O câmbio está protegido. Não está imunizado.
2.9 O Ibovespa emenda a oitava alta
O Ibovespa fechou a sexta-feira, 28, em alta de 0,30%, aos 175.664,62 pontos, oitava alta consecutiva, acumulando ganho de 2,71% na semana e interrompendo três semanas de perdas, com volume de aproximadamente R$ 21,8 bilhões. Petrobras, com alta de 1,99%, e Banco do Brasil, com 1%, puxaram o índice na sexta, e o Bradesco BBI elevou a recomendação de PETR4 para compra.
Vale manter a leitura da edição anterior. O movimento tem mais de recomposição técnica e alívio externo do que de melhora de fundamentos domésticos, sobretudo porque o Focus cortou a projeção de PIB no mesmo período.
2.10 Empresas brasileiras: a semana em fatos relevantes
Vale. O Supremo Tribunal Federal tinha maioria formada de 6 a 4 para permitir a tributação de lucros de coligadas no exterior, nos casos de Bélgica, Dinamarca e Luxemburgo, mas o ministro André Mendonça pediu destaque em 28 de agosto, suspendendo o julgamento e zerando o placar. O impacto potencial para a União é de R$ 22 bilhões. A companhia paga R$ 8,64 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio em 2 de setembro, o equivalente a R$ 2,0307 por ação, e mantém programa de recompra de até 100 milhões de ações ordinárias. O presidente-executivo Gustavo Pimenta citou, em 29 de agosto, gargalos na formação de engenheiros para novos projetos.
Petrobras. Sobre a Margem Equatorial, o Ibama confirmou que a licença de operação de outubro de 2025 cobre apenas o poço Morpho. Os três poços adicionais seguem em análise das informações complementares protocoladas em 14 de agosto.
Magda Chambriard reiterou otimismo, ressaltando que a comercialidade só se comprova com os novos poços. A companhia emitiu aviso de resgate antecipado de aproximadamente US$ 1,08 bilhão em títulos de 5,999% com vencimento em 2028, com precificação em 22 de setembro e liquidação em 25 de setembro, e ampliou a linha de crédito mútua com a Braskem de R$ 350 milhões para R$ 2,35 bilhões.
Casas Bahia. A recuperação judicial de R$ 17,3 bilhões segue em curso na 2ª Vara de Falências de São Paulo. A companhia negocia financiamento de urgência de aproximadamente R$ 1 bilhão com Bradesco e Banco do Brasil, como ponte até 2027, envolvendo liberação de depósitos judiciais e renegociação de passivos tributários. Fechou 298 lojas e desligou mais de 3 mil pessoas, com economia estimada de cerca de R$ 400 milhões por ano apenas em pessoal e R$ 2 bilhões de redução estrutural. O Safra cortou o preço-alvo da ação de R$ 3 para R$ 1,20 e o do Magazine Luiza de R$ 10 para R$ 6.
Cosan e Raízen. Seguem em negociação de recapitalização e reestruturação de dívida superior a R$ 30 bilhões. A Raízen tem dívida líquida de aproximadamente R$ 55,3 bilhões. A Cosan, R$ 17,5 bilhões, com alavancagem de 3,4 vezes.
Itaúsa. O JP Morgan elevou o preço-alvo de R$ 18, para o fim de 2026, para R$ 18,50, em 2027, com recomendação de compra e potencial aproximado de 44%, incorporando o segundo trimestre, o aumento de participação em Aegea e Alpargatas e o dividendo extraordinário de R$ 973 milhões do Itaú.
Cemig. Renovou por trinta anos a concessão da hidrelétrica Sá Carvalho, a partir de 31 de agosto.
Axia Energia, antiga Eletrobras. Celebrou Termo de Transação com a União e o Estado do Piauí, a ser homologado no Supremo Tribunal Federal.
Embraer. Comunicou em 28 de agosto a alienação de participação relevante pela gestora Brandes, cuja fatia caiu para 4,92% do capital.
- FONTES
Primárias e institucionais. Banco Central do Brasil, com o Boletim Focus e o IBC-Br. IBGE, com o IPCA-15 de agosto e a PNAD Contínua. Ministério do Trabalho e Emprego, com o Caged. Camex, Gecex e Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Receita Federal e Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. 17ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal. 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Supremo Tribunal Federal. Ibama. Tribunal Superior Eleitoral.
Federal Reserve e Fed de Kansas City. Bureau of Economic Analysis. Bureau of Labor Statistics. Comando Central dos Estados Unidos. National Bureau of Statistics da China. Financial Stability Board. CME Group, com o FedWatch. B3. Comissão de Valores Mobiliários e Securities and Exchange Commission. Comunicados corporativos e relações com investidores.
Imprensa internacional. Reuters, com a investigação sobre o Project OT da Meta, a cobertura de Ormuz e do mercado de petróleo e a análise sobre o quadro fiscal brasileiro. Bloomberg. Financial Times. CNBC. Associated Press. Agence France-Presse. The Decoder. Engadget. TechSpot. Computerworld.
Technology.org. Infobae. ECO. Kiplinger. Investing.com.
Imprensa brasileira. Money Times. InfoMoney. Poder360. SpaceMoney. Exame. NeoFeed. Brazil Journal. Valor Econômico. Agência eixos. Metrópoles. Agência Brasil. Forbes Brasil. BPMoney. CNN Brasil.
ADVFN.
- PANORAMA E IMPACTOS
4.1 Economia mundial
O mundo termina agosto sob uma combinação que se descreve melhor como crescimento resiliente com inflação estruturalmente difícil. Seis forças operam simultaneamente.
A energia continua vulnerável. Mesmo com adaptação de rotas e volumes físicos maiores do que se supunha, o Brent acima de US$ 90 volta a ameaçar a inflação global.
Os juros podem permanecer altos por mais tempo. Warsh recolocou a alta americana no radar, e a Europa mantém viés restritivo.
As dívidas soberanas voltaram a importar. O Treasury de dez anos ronda 4,73%, com a dívida americana acima de US$ 40 trilhões e questionamentos sobre juros longos em várias economias.
A China exporta sua fraqueza interna. Mais capacidade industrial é direcionada ao resto do mundo, ampliando o desequilíbrio.
A Inteligência Artificial sustenta investimento e lucros, mas aumenta a demanda por capital, energia e, agora, governança.
O protecionismo tornou-se multilateral. Estados Unidos, Canadá e Europa adotam ou discutem respostas comerciais mais duras, e a disputa começa a assumir características de formação de blocos.
O mundo não está desglobalizando integralmente. Está construindo uma globalização mais política, mais redundante e mais cara.
4.2 Estados Unidos
O cenário voltou a se aproximar do que os economistas chamam de juros altos por mais tempo. A inflação medida pelo PCE segue em 3,7%, o desemprego continua baixo, as demissões permanecem limitadas, os lucros empresariais são extremamente fortes e a IA continua atraindo investimento. Isso dá ao Fed espaço para manter juros elevados e, se necessário, subir novamente.
Os riscos estão em petróleo, tarifas, déficits, Treasury longo, valuations tecnológicos e concentração de mercado. Os pontos favoráveis, em lucros, emprego ainda sólido, produtividade potencial da IA e balanços corporativos robustos.
O cenário-base não é recessão americana. É crescimento moderado com juros mais elevados do que Wall Street gostaria. Para o Brasil, isso significa dólar globalmente sustentado e liquidez menos generosa para emergentes.
4.3 China
Economia de duas velocidades. Forte em alta tecnologia, equipamentos, Inteligência Artificial, veículos elétricos e manufatura para exportação. Fraca em imóveis, serviços, consumo, construção e confiança.
O grande risco internacional é que Pequim tente resolver a fraqueza doméstica exportando ainda mais. Para o Brasil, isso significa simultaneamente oportunidade em investimento chinês e ameaça à indústria nacional. Ambas precisam ser tratadas ao mesmo tempo, com políticas distintas.
4.4 Europa
Pressão semelhante. A região começa a discutir de maneira mais coordenada como enfrentar o excesso de capacidade chinesa. Ao mesmo tempo, a inflação permanece elevada, a energia continua cara, o Banco Central Europeu pode subir juros na reunião de 11 de setembro, o crescimento é moderado e os gastos em defesa aumentam.
Setores relativamente favorecidos: defesa, automação, energia, redes, infraestrutura e tecnologia industrial, todos com interface possível para fornecedores brasileiros.
4.5 Brasil
A semana brasileira foi das mais contraditórias do ano. A inflação melhorou muito. O emprego total está excelente. A criação de novos empregos está fraca. Os juros seguem muito altos. O câmbio está resiliente. O quadro fiscal preocupa. A eleição ficou mais competitiva.
Não há recessão confirmada. Mas existe desaceleração, e ela está agora documentada em três indicadores independentes: IBC-Br, Caged e PIB trimestral.
O caminho mais provável continua sendo de cortes graduais da Selic, salvo nova escalada de petróleo, câmbio ou expectativas. As três voltaram a ficar mais prováveis na sexta-feira.
4.6 Impacto direto sobre as empresas brasileiras
Cinco vetores concretos saíram desta semana.
Custo de energia e combustível. O Brent acima de US$ 90 reverte parte do alívio das duas semanas anteriores e pressiona diretamente logística, aviação, agronegócio e indústria intensiva em energia.
Insegurança jurídica tributária. O episódio da tarifa de exportação de petróleo, com medida provisória caducada, resolução administrativa, prorrogação e liminar no mesmo dia, é um alerta que ultrapassa o setor de óleo e gás. Empresas com exposição a tributos regulatórios devem revisar provisões e cenários.
Crédito e consumo. O fluxo de emprego formal desacelerando é o indicador antecedente mais confiável de pressão sobre crédito ao consumidor nos próximos dois trimestres. Bancos e varejo devem tratá-lo como sinal precoce.
Custo de capital externo. Com o Fed possivelmente subindo e o Treasury longo elevado, o funding internacional para empresas brasileiras fica mais caro justamente quando várias precisam refinanciar.
Governança de tecnologia. O caso Meta transforma a discussão sobre IA de tema de inovação em tema de risco operacional e de conselho de administração.
- ANÁLISE POR SEGMENTO DE MERCADO
Petróleo e gás — positiva, com risco político elevado
O Brent novamente acima de US$ 90 ajuda produtores, e a Petrobras segue beneficiada pela combinação de preço, margens de refino elevadas e opcionalidade da Margem Equatorial.
Mas o risco regulatório subiu de patamar: imposto de exportação em disputa judicial, política de preços internos, pressão de subsídios e agora judicialização aberta. A prioridade é avaliar investimento usando cenários combinados de Brent e de tributação, não apenas de preço da commodity.
Perspectiva: positiva no resultado, com elevada incerteza regulatória.
Agronegócio e alimentos — positiva e mista
Vantagens estruturais preservadas em alimentos e exportações, com câmbio ainda favorável. O setor precisa acompanhar simultaneamente petróleo, fertilizantes, El Niño, China, seguro e juros.
O fortalecimento do El Niño já provoca incêndios severos na Indonésia, sinal de que o fenômeno ganha intensidade global. Isso não implica repetição automática do padrão no Brasil, mas eleva a importância dos planos climáticos e da antecipação de insumos e frete.
Perspectiva: positiva, com risco climático crescente. Prioridades: hedge, barter, seguro, irrigação, armazenagem, diversificação geográfica e planejamento antecipado de fertilizantes.
Proteínas animais — relativamente favorável
A janela americana de 300 mil toneladas de carne moída sem tarifa por noventa dias segue aberta, e há possibilidade adicional de ampliação de cotas a novos fornecedores, com o Brasil como candidato natural. Riscos: sanidade, câmbio, custo do milho, tarifas e política comercial.
Perspectiva: favorável no curto prazo.
Sucroenergético — positiva e mista
Petróleo acima de US$ 90 volta a aumentar a competitividade potencial do etanol. O El Niño eleva o risco produtivo. Empresas integradas têm vantagem clara ao ajustar entre açúcar, etanol, bioeletricidade, biogás e biometano. A situação de Cosan e Raízen mostra que alavancagem continua sendo o fator eliminatório do setor.
Perspectiva: mista, com dispersão alta entre operadores.
Mineração — cautelosa
O risco central continua sendo a China. PMI industrial ainda abaixo de 50 e demanda doméstica fraca limitam o minério. Metais ligados a eletrificação, data centers, redes e defesa têm perspectiva melhor. A suspensão do julgamento tributário da Vale no Supremo remove, por ora, um risco de R$ 22 bilhões.
Perspectiva: cautelosa.
Siderurgia e metalurgia — difícil
Pressões simultâneas de China, tarifas, demanda interna moderada, juros e energia. A defesa comercial ganha importância, e o Gecex sinalizou nesta semana disposição de usá-la, com antidumping sobre tubos de aço da Ucrânia. Mas produtividade precisa ser a resposta estrutural.
Perspectiva: difícil.
Indústria de transformação — desafiadora
As empresas brasileiras competem simultaneamente com capital caro doméstico, produto chinês barato, tarifa americana e custo logístico elevado. Exige automação, desenho para manufatura, especialização, energia mais barata, inteligência comercial e revisão de portfólio.
Perspectiva: desafiadora, com o risco adicional de um choque de automação chinesa no médio prazo.
Varejo e consumo — melhora parcial
Inflação menor e desemprego baixo ajudam. Mas juros altos, endividamento das famílias e criação de vagas perdendo força limitam a recuperação. Bens essenciais seguem mais resilientes que duráveis, e o caso Casas Bahia continua a pressionar toda a cadeia de eletroeletrônicos e móveis.
Perspectiva: melhora lenta e desigual.
Bancos — resiliente, com atenção crescente ao crédito
O baixo desemprego sustenta as famílias, mas a desaceleração na criação formal é sinal antecedente a acompanhar de perto. Empresas fragilizadas por juros continuam produzindo renegociações, recuperações e provisões, e a exposição à Casas Bahia é concreta em Bradesco e Banco do Brasil.
Perspectiva: resiliente no curto prazo, com deterioração de ativos no horizonte.
Logística e transportes — mista, pressionada pelo combustível
O petróleo acima de US$ 90 volta a pressionar o custo. Empresas precisam acompanhar combustível, ocupação, manutenção, financiamento, seguro e legislação de frete. A tecnologia oferece oportunidade forte em roteirização, manutenção preditiva, precificação, casamento de cargas, rastreamento e gestão de risco.
Perspectiva: mista.
Aviação e turismo — voltou a ficar mais arriscada
O Brent acima de US$ 90 reduz parte do alívio das semanas anteriores, e o querosene de aviação segue como o derivado sob maior pressão global. Empresas com hedge e frota eficiente terão vantagem relevante.
Perspectiva: arriscada.
Construção civil e imobiliário — ainda restritiva
Inflação menor ajuda, mas a Selic de 14% continua limitando financiamento. Segmentos mais protegidos: Minha Casa Minha Vida, infraestrutura, saneamento, data centers, galpões e energia.
Perspectiva: restritiva.
Energia elétrica — estruturalmente positiva
Data centers e Inteligência Artificial aumentam a demanda mundial por eletricidade, e o gargalo global de energia para computação é hoje uma tese de investimento própria. O El Niño aumenta a incerteza hidrológica. Mercado livre, contratos de longo prazo, armazenamento e eficiência tornam-se instrumentos financeiros, não apenas ambientais.
Perspectiva: positiva.
Saúde — defensiva
Juros e custos pressionam, mas a demanda é resiliente. Oportunidades importantes em faturamento, glosas, compras, atendimento, agenda e automação administrativa.
Perspectiva: defensiva.
Tecnologia, IA e software empresarial — uma das melhores, com mudança crucial de método
A Nvidia confirma a demanda. A Meta confirma os riscos da implantação errada. A regra empresarial que emerge desta semana deveria ser afixada em todo comitê de transformação digital:
Automatizar processos antes de automatizar organogramas.
Áreas de melhor retorno no Brasil: financeiro, cobrança, compras, jurídico, atendimento, logística, previsão e vendas.
Perspectiva: fortemente positiva, com exigência de governança.
Recursos humanos e gestão — transformação acelerada
Pesquisa britânica mostrou que mais de um terço dos empregadores já reduziu vagas de entrada, parcialmente em função da Inteligência Artificial. Isso cria um problema de médio prazo pouco discutido: empresas que eliminarem posições juniores hoje podem não formar os gestores, especialistas e líderes técnicos de 2032.
A questão não é apenas produtividade imediata. É pipeline de talento.
Perspectiva: transformação estrutural, com risco de sucessão.
Defesa e cibersegurança — fortemente positiva
A renovação dos ataques entre Estados Unidos e Irã reforça a tese, e o alerta do Financial Stability Board sobre riscos cibernéticos potencializados por IA amplia a demanda por segurança digital em instituições financeiras.
Perspectiva: fortemente positiva.
Fusões, aquisições e reestruturação
— favorável
Os juros podem cair lentamente, mas isso não desfaz o estoque de problemas acumulado por anos de crédito caro. As oportunidades devem permanecer fortes em aquisição de ativos estressados, renegociação, entrada de sócio, recuperação extrajudicial, venda de ativos e consolidação regional.
Perspectiva: muito favorável para compradores com liquidez.
- CENÁRIOS PARA OS PRÓXIMOS 90 DIAS
As probabilidades são estimativas analíticas.
Cenário 1 — Instabilidade administrada com juros altos | 40%
Gatilhos: ataques entre Estados Unidos e Irã continuam pontuais; Brent entre US$ 85 e US$ 100; Fed sobe 0,25 ponto ou mantém com forte viés restritivo; China cresce lentamente; Copom corta a Selic de forma muito gradual; eleição brasileira permanece apertada.
Mundo: crescimento moderado com inflação persistente.
Estados Unidos: juros elevados, sem recessão. Brasil: Selic entre 13,75% e 14% no fim do ano, inflação controlada, crescimento próximo de 2%.
Empresas: crédito seletivo, eficiência como prioridade permanente.
Por segmento: petróleo positivo, agro positivo, bancos neutro, varejo negativo, indústria negativo, crédito privado muito positivo.
Cenário 2 — Nova escalada energética | 25%
Gatilhos: ataque relevante a Kharg ou a outra infraestrutura de exportação; nova interrupção severa em Ormuz; Brent acima de US$ 110; Fed sobe juros; dólar ganha força globalmente.
Mundo: risco renovado de estagflação.
Brasil: inflação volta a subir, cortes do Copom são interrompidos, dólar acima de R$ 5,50.
Empresas: energia e defesa ganham; varejo, transporte, indústria e construção sofrem.
Cenário 3 — Descompressão com inflação menor | 20%
Gatilhos: acordo parcial no Golfo; Brent abaixo de US$ 80; inflação americana desacelera; Fed permanece parado; Copom continua cortando.
Brasil: ativos domésticos melhoram, crédito começa lentamente a destravar, dólar testa R$ 5,00.
Empresas: varejo, construção e logística apresentam
a maior recuperação.
Cenário 4 — Correção de IA e choque financeiro | 15%
Gatilhos: crescimento tecnológico desacelera; um grande hyperscaler reduz investimento; valuations corrigem; yields permanecem altos; a experiência da Meta se repete em escala e o mercado reprecifica a produtividade prometida da IA.
Mundo: queda relevante de bolsas e menor apetite por risco.
Brasil: câmbio piora e capital estrangeiro recua. Empresas: startups e negócios dependentes de captação sofrem; compradores capitalizados encontram oportunidades.
Cenário eleitoral — sobreposto aos quatro acima
Desfecho Probabilidade estimada Leitura de mercado
Reeleição de Lula
45% Prêmio de risco fiscal permanece elevado
Vitória de Flávio Bolsonaro
40% Rali inicial, com teste de credibilidade em 2027
Terceira via em segundo turno
8% Reprecificação ampla, direção incerta
Cenário judicializado ou indefinido
7%
Volatilidade máxima
O crescimento de Augusto Cury na AtlasIntel merece acompanhamento na próxima rodada. Se sustentado, altera a aritmética do primeiro turno.
- O QUE MUDOU DESDE A SEMANA PASSADA
Ormuz voltou a piorar no encerramento da semana, com retomada dos ataques.
Petróleo saiu da faixa de US$ 86 e voltou acima de US$ 90.
Fed ficou claramente mais duro depois de Jackson Hole, com a probabilidade de alta em setembro subindo de cerca de 40% para cerca de 60%.
Inflação brasileira melhorou mais que o esperado, com deflação no IPCA-15.
Mercado de trabalho brasileiro manteve o estoque forte, mas viu o fluxo de contratações enfraquecer de forma expressiva.
China teve melhora marginal na indústria, mas a demanda doméstica segue fraca.
Inteligência Artificial ganhou duas notícias opostas e igualmente verdadeiras: a Nvidia confirmou a força do investimento; a Meta expôs os riscos de automatizar mal.
Comércio mundial deixou de ser uma série de disputas bilaterais e começou a assumir características de formação de blocos.
Tributação de petróleo no Brasil entrou em judicialização aberta.
Eleição brasileira segue competitiva, com um nome novo em ascensão.
- AGENDA EXECUTIVA E CALENDÁRIO CRÍTICO
Esta semana
1º de setembro. PIB brasileiro do segundo trimestre, pelo IBGE, o teste definitivo da tese de desaceleração. Feriado do Dia do Trabalho nos Estados Unidos, com mercados fechados.
2 de setembro. Vale paga R$ 8,64 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio.
4 de setembro. Payroll americano de agosto, com consenso de aproximadamente 58 mil vagas e desemprego de 4,1%. Decisivo para o FOMC.
Início de setembro. Nova rodada Datafolha para a Globo e pesquisa Quaest.
Setembro
8 de setembro. Entrada em vigor das tarifas retaliatórias canadenses. Vencimento e prorrogação, contestada judicialmente, da tarifa de exportação de petróleo brasileira.
10 de setembro. IPCA de agosto, pelo IBGE.
11 de setembro. Reunião do Banco Central Europeu.
Até 14 de setembro. Julgamento do registro de candidatura de Pablo Marçal no Tribunal Superior Eleitoral.
15 e 16 de setembro. FOMC, com probabilidade atual de alta na faixa de 58% a 60%. E Copom, com decisão sobre a Selic hoje muito mais incerta do que parecia.
22 e 25 de setembro. Precificação e liquidação do resgate de títulos da Petrobras.
Monitoramento contínuo
Evolução militar em Ormuz e eventual ataque real a infraestrutura de exportação iraniana. Recursos da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional contra a liminar da tarifa de exportação de petróleo. Decisão do Ibama sobre os três poços adicionais na Foz do Amazonas. Financiamento de urgência e plano de recuperação da Casas Bahia. Recapitalização de Cosan e Raízen. Retomada do julgamento tributário
da Vale no Supremo. Atualizações sobre a intensidade do El Niño.
- AGENDA ESTRATÉGICA PARA AS EMPRESAS BRASILEIRAS
Caixa. Trabalhar com projeções de 13, 26 e 52 semanas, não com orçamento anual.
Dívida. Alongar passivos sempre que a janela aparecer. Não apostar que os juros cairão rapidamente: a semana provou que a direção pode inverter em cinco dias.
Estoque. Reduzir o improdutivo, preservar o estratégico.
Energia. Trabalhar cenários de Brent em US$ 75, US$ 95 e US$ 115. E incluir uma etapa de verificação de fonte antes de acionar hedge por gatilho automático de preço.
Comércio exterior. Mapear tarifas, clientes, destinos e alternativas. Acompanhar o precedente canadense: retaliação protege setores, mas eleva custos sistêmicos.
China. Avaliar separadamente as quatro Chinas: cliente, fornecedora, concorrente e investidora. Cada uma exige política distinta.
Tributação. Revisar provisões e cenários para tributos regulatórios sujeitos a alteração administrativa. O caso do imposto de exportação de petróleo é o alerta.
Inteligência Artificial. Não começar por “quantas pessoas podemos cortar”. Começar por “qual processo podemos tornar dez vezes melhor”. Medir produtividade entregue ao cliente, não volume de código ou de tarefas automatizadas. Contabilizar o custo dos incidentes.
Pessoas. Planejar requalificação e preservar o pipeline de talentos. Cortar vagas juniores hoje é hipotecar a liderança técnica da próxima década.
Cibersegurança. Tratar risco de IA como risco operacional de conselho, não como tema de tecnologia da informação.
Fusões e aquisições. Mapear concorrentes fragilizados e parceiros estratégicos. O estoque de ativos estressados continua crescendo.
Eleição e fiscal. Construir cenários que não dependam de um único resultado eleitoral. O ajuste fiscal atravessa os dois candidatos.
SÍNTESE FINAL
A semana de 24 a 31 de agosto encerra o mês demonstrando a principal característica econômica de 2026: a capacidade dos riscos de mudar de direção muito mais rapidamente do que empresas e governos conseguem se adaptar.
Há poucos dias, parecia que Ormuz caminhava para alguma normalização. Nesta manhã, Estados Unidos e Irã voltaram a trocar ataques. Há duas semanas, o mercado reduzia a chance de uma alta do Fed. Hoje, depois de Jackson Hole e do PCE, a probabilidade voltou para perto de 60%.
No Brasil, a inflação surpreendeu para baixo e o desemprego atingiu o melhor número da série. Mas a geração de novos empregos formais caiu pela metade. A China melhorou seu PMI industrial e continua com serviços em contração. A Nvidia confirmou o boom da Inteligência Artificial. A Meta mostrou que IA mal implantada destrói produtividade em vez de aumentá-la.
E o presidente dos Estados Unidos publicou um vídeo gerado por Inteligência Artificial anunciando a destruição de um terminal de petróleo que não foi atacado. O preço do barril se moveu mesmo assim.
Esse conjunto revela a transformação real em andamento. Não estamos apenas diante de guerra, juros, tarifas, IA e eleição. Estamos vivendo uma reorganização simultânea de cadeias globais, custos de capital, modelos industriais, trabalho, tecnologia, informação e segurança econômica.
Para as empresas brasileiras, isso tem uma consequência fundamental. A busca por eficiência precisa continuar, mas já não pode ser confundida com simples redução de custos.
Eficiência sem resiliência cria fragilidade. A Casas Bahia cortou dívida em 76% e quebrou assim mesmo.
Automação sem governança cria risco. A Meta tinha modelos, capital e talento, e ainda assim viu incidentes subirem 40%.
Dívida barata esperada para amanhã não resolve o caixa de hoje. A curva mudou de direção em cinco dias.
Uma cadeia mais barata, mas dependente de um único país, não é realmente eficiente.
E um grande cliente que concentra 40% da receita não é apenas oportunidade comercial. É risco de crédito. Os fornecedores da Casas Bahia aprenderam isso este mês.
A empresa melhor preparada para os próximos anos será aquela que construir simultaneamente liquidez, produtividade, diversificação, tecnologia, governança e capacidade de adaptação.
A palavra que venho usando nas últimas semanas continua sendo a mais adequada: opcionalidade.
E a notícia mais importante desta semana talvez não seja o Brent novamente acima de US$ 90, a inflação brasileira abaixo do esperado ou a Nvidia projetando crescimento de 70%.
É o fato de que todos esses acontecimentos podem coexistir. Em 2026, administrar uma empresa significa aprender a tomar boas decisões sem esperar que o cenário pare de mudar.

