Relatório de inteligência estratégica semanal

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2026 deixou de ser um ano de choque e passou a ser um ano de adaptação estrutural ao choque e adaptação custa dinheiro, em petróleo, em juros e em orçamento público. O Brasil é hoje uma das poucas grandes economias cortando juros, a treze dias de uma eleição empatada, com o petróleo acima de US$ 100 e os principais bancos centrais do mundo apertando ao mesmo tempo.

• Fed sobe, Copom corta, no mesmo dia. O Federal Reserve elevou os juros pela primeira vez desde 2023, para 3,75%–4,00%, e 16 de 18 dirigentes esperam mais uma alta neste ano. O Copom cortou a Selic pela quinta vez, para 13,75%. O Focus já projeta 13,50% em dezembro.
• O Brasil ficou sozinho. Estados Unidos, Zona do Euro, Reino Unido e Japão estão em ciclo de aperto. O diferencial de juros com os EUA encolheu meio ponto numa única tarde, e o Treasury de dez anos rompeu 5%.
• O mundo aprendeu a contornar Ormuz, pagando caro. Transferências de petróleo em alto-mar chegam a 2,5 milhões de barris/dia. O frete Golfo–China passou de US$ 30 por barril, mais de um quarto do preço do petróleo.
• O barril recuou, o diesel não. O Brent caiu de US$ 109 para US$ 101, mas a Rússia proibiu exportações de diesel, o combustível bateu recorde nos EUA e chegou a R$ 7,13 nas bombas brasileiras.
• O custo fiscal da calmaria. O subsídio ao diesel dobrou para R$ 2,12 por litro, a Petrobras já recebeu R$ 9,9 bilhões em subvenções e o Bolsa Família subiu 15% a dezessete dias da eleição.
• Eleição empatada em todas as frentes. Datafolha: Lula 39%, Flávio Bolsonaro 36%. BTG/Nexus: 46% a 45% no segundo turno. Na Quaest, Augusto Cury empata com Lula num confronto direto.
• Trump recebe Xi na quinta-feira. Em pauta, a trégua que vence em 10 de novembro, terras raras e compras chinesas de US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas americanos — concorrência direta para o agro brasileiro.
• O estrangeiro voltou. Setembro acumula entrada de R$ 6,3 bilhões na B3, revertendo a saída de R$ 22 bilhões de agosto.

A Superquarta aconteceu como previsto, e isso não a torna menos extraordinária. Às 15h no horário de Nova York da quarta-feira, 16 de setembro, o Federal Reserve anunciou a primeira alta de juros desde julho de 2023. Duas horas e meia depois, em Brasília, o Copom anunciou o quinto corte consecutivo da Selic. Duas das instituições monetárias mais importantes do Ocidente moveram-se em direções opostas, no mesmo dia, pelas razões corretas para cada uma.
O dado mais revelador, porém, veio dois dias depois, quando o Banco do Japão também subiu juros. Os quatro grandes blocos monetários do mundo desenvolvido estão agora em ciclo de aperto. O Brasil é a exceção.
Há uma segunda história, menos visível e talvez mais importante. Durante sete meses, esta coluna acompanhou uma crise que parecia de interrupção: Ormuz fechado, oleoduto saudita atingido, Mar Vermelho ameaçado. Nesta semana ficou claro que o sistema começou a fazer o que sempre faz quando uma crise deixa de ser temporária: adaptou-se. O petróleo voltou a sair do Golfo por meio de transferências em alto-mar. O diesel brasileiro deixou de subir nas refinarias porque o Tesouro passou a pagar R$ 2,12 por litro. A economia continua funcionando. Mas alguém está pagando a conta da adaptação.
Faltam treze dias para o primeiro turno. É esse o cenário.

1. As principais notícias da semana

1.1 A Superquarta: Fed e Copom em direções opostas

Na quarta-feira, 16, o Comitê Federal de Mercado Aberto votou por unanimidade elevar os juros americanos em 0,25 ponto, para 3,75%–4,00% — a primeira alta desde julho de 2023. O gráfico de projeções levou a mediana para o fim de 2026 de 3,8% para 4,1%, e 16 dos 18 dirigentes esperam ao menos mais uma alta neste ano. O Fed projeta inflação pelo PCE de 3,7%, crescimento de 2,3% e desemprego de 4,1%.

Projeção do Fed
Junho
Setembro
Juros no fim de 2026 (mediana)
3,8%
4,1%
Dirigentes que esperam nova alta em 2026
9 de 18
16 de 18
Desemprego no fim de 2026
4,3%
4,1%
Inflação PCE em 2026

3,7%

Kevin Warsh foi direto: “A realidade é que a inflação está muito alta e permanece assim há muito tempo.” E manteve sua doutrina: “Não trabalho com orientação futura.” Mais importante que a alta foi a mudança de diagnóstico. O Fed passou a enxergar não apenas um choque de oferta, mas uma economia com demanda suficiente para absorver preços mais altos. Austan Goolsbee, do Fed de Chicago, disse nesta segunda-feira que, se a inflação for sustentada por excesso de demanda, “não haverá ambiguidade”: os juros terão de subir.
A decisão ocorre a menos de dois meses das eleições de meio de mandato, com a gasolina 33% mais cara que há um ano e hipotecas perto de 7%, e testa a relação de Warsh com a Casa Branca, que ameaçou retaliar países superavitários caso o Fed não cortasse juros.
Duas horas e meia depois, o Copom cortou a Selic de 14,00% para 13,75%, por unanimidade, em linha com 75 das 78 casas consultadas pelo Broadcast. O comunicado reconheceu a desaceleração da atividade e a inflação abaixo do teto da meta, mas elevou a projeção do próprio BC para 2026 a 5,2%, manteve 3,2% para o horizonte relevante e registrou riscos “com assimetria altista”. O mercado leu o texto como brando. A mensagem de fundo, porém, foi: a economia permite cortes pequenos, desde que a inflação continue convergindo. A próxima reunião é em 3 e 4 de novembro, depois do segundo turno. A ata sai nesta terça-feira.

    1.2 O mundo aperta, o Brasil afrouxa

Na sexta-feira, o Banco do Japão também subiu juros, somando-se à Inglaterra, aos Estados Unidos e à Zona do Euro, onde o BCE levou a taxa de depósito a 2,50% em 10 de setembro. É o primeiro aperto sincronizado dos quatro grandes blocos desde 2022.
Um dia antes da Superquarta, o Treasury de dez anos rompeu 5%, empurrado por petróleo, inflação e uma dívida americana acima de US$ 40 trilhões. Esse é o indicador que mais importa para empresas: quem disputa capital hoje compete com o Tesouro americano pagando 5% sem risco de crédito. É um freio direto sobre valuations, fusões, private equity e infraestrutura.
O Brasil corta contra a corrente, com a justificativa correta — sua inflação cede —, mas com um custo: o diferencial de juros que sustentou o real ao longo do ano encolheu meio ponto em uma tarde. O real segue resiliente, mas a margem de segurança ficou menor.

    1.3 Ormuz: o mundo aprende a contornar e paga caro

Depois de meses de interrupções, o sistema começou a se adaptar. A ADNOC iniciou em abril transferências de petróleo entre navios no Golfo de Omã, e a Saudi Aramco seguiu o modelo: um navio menor atravessa Ormuz repetidamente e, em águas seguras, entrega a carga a embarcações que fazem o percurso internacional. Em setembro, cerca de 2,5 milhões de barris/dia devem ser movimentados assim, contra 1,4 milhão em agosto — quase 40% do que atravessa o estreito. O fluxo total chegou a 6,5 milhões de barris diários, o maior desde junho.
A solução funciona, mas custa muito. O frete de um superpetroleiro do Golfo à China, que antes da guerra equivalia a 2% ou 3% do barril, passou de US$ 30 por barril — mais de um quarto do preço do petróleo, recorde histórico. Isso explica por que, em 18 de setembro, apenas quatro navios de commodities foram vistos cruzando Ormuz enquanto as exportações cresciam: transponders desligados, corredores escoltados e transferências em alto-mar.

    1.4 O barril recua, o diesel dispara, o subsídio dobra

O Brent passou de US$ 109 na segunda-feira, 14, após o fechamento do oleoduto saudita Leste-Oeste por ataques de drones vindos do Iraque. Com a recuperação parcial — exportações sauditas acima de 4 milhões de barris/dia em setembro, contra 2,4 milhões em agosto —, fechou a semana a US$ 103,87 e recuou nesta segunda-feira para cerca de US$ 101,20. Mas a Aramco avisou clientes europeus que não entregará cargas, e estimativas citadas pela Reuters indicam que os estoques globais de petróleo e derivados cobrem apenas cinco a dez semanas. O Brent acumula alta superior a 70% no ano.
O dado mais importante, porém, é o diesel. Os ataques ucranianos às refinarias russas levaram Moscou a proibir a maior parte das exportações do combustível, possivelmente até outubro. O diesel bateu recorde nos EUA e chegou a R$ 7,13 por litro nas bombas brasileiras, alta semanal de 2,3%, segundo a ANP. Petróleo e diesel deixaram de andar juntos.
No Brasil, a resposta foi fiscal. A Petrobras elevou o diesel em R$ 1 por litro às distribuidoras e, no mesmo movimento, aderiu ao subsídio federal da MP 1.391, que lhe paga R$ 1 por litro por 30 dias, prorrogáveis. Os dois se anulam. Somado ao subsídio anterior, de R$ 1,12, o diesel carrega R$ 2,12 por litro de dinheiro público. A estatal já recebeu R$ 9,9 bilhões em subvenções a diesel, gasolina e GLP.

    1.5 O custo fiscal da calmaria

Na quinta-feira, 17, o governo anunciou reajuste de 15% no Bolsa Família, a dezessete dias da eleição. O mercado apontou a medida como o principal detrator do Ibovespa na sexta-feira. No mesmo dia, o Datafolha mostrou Lula com 60% contra 33% de Flávio entre os beneficiários do programa. Somado aos subsídios a combustíveis — cerca de R$ 40 bilhões desde março —, o Brasil está comprando inflação baixa com dívida pública. É uma troca que funciona no curto prazo e cobra no médio. Subsídios não eliminam o custo; apenas mudam quem paga.

    1.6 Atividade e mercados brasileiros

O IBC-Br caiu 0,20% em julho, pior que o esperado, na segunda queda seguida, e acumula contração de 0,30% no trimestre móvel. O Focus desta segunda-feira passou a projetar Selic de 13,50% em dezembro, com IPCA de 4,92% em 2026 e 4,30% em 2027 — juros menores com inflação ligeiramente maior, sinal de que o mercado vê espaço para cortar pela fraqueza da atividade, não pelo fim do problema inflacionário. Pelo Focus, a Selic só fica abaixo de dois dígitos depois de 2028.

Boletim Focus
14 de setembro
21 de setembro
Selic no fim de 2026
13,75%
13,50%

Boletim Focus
14 de setembro
21 de setembro
IPCA 2026
4,90%
4,92%
IPCA 2027
4,30%
4,30%
Selic no fim de 2027
12,00%
12,00%

O Ibovespa fechou a sexta-feira aos 185.229 pontos, com queda de 1,06% na semana, a primeira desde meados de agosto. O dólar terminou a R$ 5,14. Mas o estrangeiro voltou: entrada líquida de R$ 6,3 bilhões em setembro, revertendo a saída de R$ 22 bilhões de agosto. As maiores quedas vieram de CSN (–6,4%), CSN Mineração (–4,9%), MRV e Santander; as maiores altas, de Minerva, Cury e Multiplan. A B3 passou a divulgar o Ibovespa em dólares.

    1.7 A eleição: empate técnico e o fator Cury

O primeiro turno é em 4 de outubro; o segundo, se houver, em 25 de outubro.

Pesquisa
1º turno
2º turno (Lula x Flávio)
Datafolha (17/09)
Lula 39%, Flávio 36%, Cury 6%,
Caiado 4%
46% x 44%
BTG/Nexus (21/09)
Lula 40%, Flávio 37%, Cury 6%,
Caiado 5%
46% x 45%
Quaest (14/09)
Lula 36%, Flávio 31%
Lula 38% x Cury 36%
AtlasIntel/Bloomberg
Lula 44,1%, Flávio 41,7%

Nos votos válidos do Datafolha, Lula tem 43% e Flávio 39%. O dado mais surpreendente é o da Quaest: Augusto Cury, que há cinco semanas marcava 1,6%, empata tecnicamente com Lula num confronto direto. O desafio de Cury é chegar ao segundo turno — no primeiro, segue em terceiro. Seu registro ainda aguarda julgamento no Supremo. O pano de fundo segue carregado pela crise no STF e pelas investigações do caso Banco Master, nas quais Flávio é investigado por suspeitas que nega. A leitura correta: a eleição está estatisticamente empatada, e o segundo turno segue aberto.

    1.8 Trump recebe Xi: o que está em jogo para o Brasil

Xi Jinping chega a Washington na quarta-feira, 23, para a cúpula de quinta-feira, 24, na Casa Branca. Scott Bessent e o vice-premiê He Lifeng prepararam o encontro no domingo, em Nova York. A prioridade é estender a trégua de Busan, que vence em 10 de novembro, com reduções tarifárias recíprocas sobre US$ 30 bilhões de produtos de cada lado, compras chinesas adicionais de US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas americanos e de mais de 200 aviões Boeing. Washington quer terras raras; Pequim quer acesso a tecnologia e uma mudança na formulação americana sobre Taiwan. E, pela primeira vez, a Inteligência Artificial entrou formalmente na pauta, com discussão de salvaguardas para modelos avançados.
Para o Brasil, a cúpula importa em três frentes. Agrícola, como ameaça: compras chinesas de produtos americanos disputam espaço com soja, milho e carnes brasileiras. Mineral, como oportunidade: a disputa por terras raras abre espaço para o Brasil como fornecedor alternativo, desde que transforme recurso em cadeia de valor. E industrial: qualquer redução tarifária entre as duas potências altera o fluxo de excedente chinês que chega ao país.

    1.9 Europa, China e Inteligência Artificial

Na Europa, o gás está mais de 140% acima de um ano atrás e os estoques em 69% da capacidade, contra média de 85%. O BCE concluiu que o preço do gás chega à inflação em um a três meses em mais da metade dos países da Zona do Euro — em 2022, levava mais de um ano. Os combustíveis dispararam: na União Europeia, a gasolina subiu cerca de 24% em doze meses, o diesel 38% e o querosene de aviação mais de 100%. Um inverno rigoroso pode levar o continente a 2027 com inflação alta, indústria pressionada e um BCE ainda mais restritivo. Há, porém, uma lição positiva: como as renováveis cresceram, o impacto do gás sobre a eletricidade tende a ser menor que em 2022. A transição energética deixou de ser apenas política climática e passou a ser proteção macroeconômica.
Na China, Huang Yiping, integrante do comitê monetário do Banco Popular da China, admitiu publicamente que a IA pode agravar o desequilíbrio do país: aumenta a capacidade de produzir sem aumentar a disposição de consumir. A
China já tem oferta muito forte e demanda muito fraca; a IA pode produzir oferta ainda mais forte com demanda ainda fraca, ampliando a pressão para exportar carros, baterias, máquinas, robôs e equipamentos industriais. É o “China Shock 2.0” reconhecido de dentro de Pequim — e um alerta de primeira ordem para a indústria brasileira.
Na tecnologia, a demanda física segue firme: as exportações da Coreia do Sul bateram recorde nos primeiros vinte dias de setembro, puxadas por semicondutores. Preocupação com valuations não significa fim da demanda. Ao mesmo tempo, a IA mudou de natureza política: ao entrar na pauta entre Washington e Pequim, com discussão de salvaguardas para modelos de pesos abertos e fechados, deixou de ser apenas produto comercial e passou a ser infraestrutura estratégica e tema de segurança nacional.

    1.10 Empresas brasileiras

        ▪ Itaú e Eztec fecharam a maior locação corporativa da história do país: as Esther Towers, em São Paulo, por dez anos, com receita estimada em R$ 1,17 bilhão. O Itaú também recompra letras financeiras subordinadas de 2021.
        ▪ Petrobras aderiu ao novo subsídio ao diesel, acumula R$ 9,9 bilhões em subvenções e paga nesta segunda-feira R$ 0,35 por ação em juros sobre capital próprio.
        ▪ Mombak fez o primeiro fechamento de seu segundo fundo de reflorestamento, com meta de US$ 150 milhões e linha de R$ 200 milhões do Fundo Clima/BNDES, e fechou contrato de créditos de carbono com a Salesforce, somando-se a Google, Microsoft e McLaren. O boom de IA gera emissões; o Brasil tem terra e floresta para removê-las.
        ▪ CSN liderou as perdas da semana, sem novidades sobre a venda de ativos para reduzir até R$ 18 bilhões em dívidas, sob o novo comando de Fabio Schvartsman.
        ▪ Casas Bahia segue em recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas, e especialistas avaliam que a onda no varejo não terminou.

2. Panorama e impactos

Economia mundial: a inflação do custo de resiliência
O mundo aprendeu a funcionar apesar da guerra, mas paga mais para isso: rotas mais longas, fretes recordes, seguros, estoques maiores, múltiplos fornecedores. É uma inflação diferente da de demanda — a do custo de resiliência. Durante décadas, a economia global foi otimizada para eficiência; agora está sendo redesenhada para resistência. É por isso que os quatro grandes bancos centrais sobem juros ao mesmo tempo: não combatem um choque transitório, mas uma mudança no custo estrutural de produzir e transportar.
Estados Unidos: resiliência cara
Crescimento de 2,3%, desemprego de 4,1%, inflação acima da meta há cinco anos e meio, petróleo acima de US$ 100 e Treasury a 5%. O cenário-base não é recessão; é crescimento moderado com capital caro — e um Fed que admite pela primeira vez que o problema pode ser também de demanda. O risco agora é político, com as eleições de novembro.
Europa: o inverno como variável macroeconômica
Com gás 140% mais caro, estoques 16 pontos abaixo da média e repasse aos preços em até três meses, o inverno virou variável de política monetária. Química, vidro, papel, siderurgia, fertilizantes, aviação e automóveis são os setores mais expostos; renováveis, transmissão, armazenamento e defesa, os favorecidos.
China: produção forte, consumo fraco
O diagnóstico não mudou, mas agora é admitido por Pequim. A cúpula com Trump pode redirecionar parte do excedente chinês, mas não resolve o problema de fundo. Para o Brasil, a China segue sendo simultaneamente cliente, fornecedora, concorrente e investidora.
Brasil: o regime curioso
A desinflação e a desaceleração favorecem cortes; o Fed, o petróleo, o fiscal e a eleição os limitam. A Selic cairá devagar. O Focus já projeta 13,50% em dezembro, mas não vê taxa abaixo de 12% antes do fim de 2027, e empresas não deveriam planejar investimentos supondo retorno rápido a juros baixos. E consolidou-se nesta semana o custo fiscal da estabilidade de preços: subsídios e Bolsa Família compram inflação baixa com dívida pública, numa economia com dívida bruta em torno de 82% do PIB e cerca de 92% do gasto primário obrigatório. A eleição definirá a forma do ajuste; dificilmente eliminará sua necessidade.
Onde o Brasil pode ganhar
A mesma crise que pressiona custos abre espaço estratégico. O país pode ser, ao mesmo tempo, fornecedor de energia, alimentos, minerais críticos e créditos de carbono, e destino de data centers movidos a matriz limpa. A condição é uma só: não basta ter recursos, é preciso oferecer previsibilidade — regras, licenciamento, infraestrutura, segurança jurídica e capital.
Impacto direto sobre as empresas brasileiras
• Juros: queda lenta; o mercado não vê Selic abaixo de 12% antes do fim de 2027.
• Câmbio: mais vulnerável com o diferencial comprimindo pelos dois lados; volatilidade maior até 25 de outubro.
• Diesel: custo crítico e politicamente dependente, sustentado por R$ 2,12 por litro de subsídio que pode ser retirado.
• Capital externo: mais caro com o Treasury acima de 5%.
• Fluxo: o estrangeiro voltou, mas concentrado em empresas grandes, líquidas e com receita em dólar.
• Agro: risco novo de concorrência americana no mercado chinês.

3. Perspectivas por segmento de mercado

Segmento
Perspectiva
O que observar
Petróleo e gás
Muito positiva, risco político alto
Subsídios, política de preços e o resultado eleitoral definem a governança da Petrobras
Agronegócio
Positiva, com custo pressionado
Diesel recorde, fertilizantes, El Niño e compras chinesas de

Segmento
Perspectiva
O que observar

produtos americanos
Sucroenergético
Positiva
Petróleo caro favorece etanol, biometano e bioeletricidade
Mineração
Mista
Minério de ferro fraco; oportunidade em terras raras e minerais críticos
Siderurgia
Difícil
Excesso chinês, energia cara; tese de reestruturação na CSN
Indústria de transformação
Muito desafiadora
Capital caro, energia, tarifas e concorrência chinesa ampliada pela IA
Logística e transportes
Pressionada
Subsídio temporário ao diesel; cláusulas automáticas de combustível
Aviação
Negativa
Querosene sob a maior pressão global entre os derivados
Varejo de massa
Frágil
Bolsa Família alivia essenciais; duráveis seguem sob pressão
Alta renda e shoppings
Positiva
Ciclo próprio, descolado do consumo de massa
Construção e imobiliário
Melhora marginal
Dispersão entre empresas; escritórios de alto padrão aquecidos
Bancos
Resiliente, seletiva
Qualidade de carteira com atividade encolhendo
Energia elétrica
Positiva
Demanda de IA e data centers; renováveis como proteção macro
Tecnologia e IA
Positiva, seletiva
Retorno comprovado; IA entra na diplomacia EUA–China
Carbono
Fortemente positiva
Nova classe de ativos: natureza, carbono e financiamento
Defesa e cibersegurança
Fortemente positiva
Guerra prolongada e IA como tema de segurança nacional
Reestruturação e M&A
Muito favorável
Pipeline crescente; execução concentrada após a eleição

Destaques setoriais

Petróleo e gás. O Brent acima de US$ 100 gera caixa extraordinário, mas a Petrobras opera hoje num arranjo em que aumenta preço e recebe subsídio do mesmo valor — funcional no curto prazo, inteiramente dependente de decisão política. O resultado de outubro definirá a governança da estatal para os próximos quatro anos.
Agronegócio. Os alimentos seguem estratégicos, mas diesel em recorde, fertilizantes pressionados pelo gás e frete marítimo caro encarecem toda a operação, e a agropecuária recuou 1,15% no IBC-Br de julho. A ameaça nova vem de Washington: compras chinesas de produtos agrícolas americanos podem deslocar soja, milho e carnes brasileiras. Travar diesel para o plantio, antecipar fertilizantes e diversificar destinos são as prioridades.
Mineração e siderurgia. Foi a pior semana do setor, com CSN, CSN Mineração e Vale em queda, pressionadas pelo minério de ferro e pelo frete. A tese de médio prazo, porém, está nos minerais críticos: a disputa por terras raras entre EUA e China abre espaço para níquel, grafite, lítio, cobre e terras raras brasileiros — desde que o país processe e não apenas exporte minério bruto.
Logística e aviação. O subsídio amortece o diesel, mas pode ser retirado, e não cobre pneus, manutenção, crédito e seguro. O querosene de aviação subiu mais de 100% na Europa. Cláusulas automáticas de combustível deixaram de ser opção.
Bancos e imobiliário. A dispersão foi a marca da semana: Banco do Brasil subiu enquanto Santander caiu; Cury subiu enquanto MRV caiu. O setor pesa menos que a execução de cada empresa. A locação das Esther Towers pelo Itaú, a maior da história do país, mostra demanda firme por escritórios de alto padrão.
Carbono e energia. O caso Mombak mostra a formação de uma nova classe de ativos: o boom de IA gera emissões em data centers, e as grandes empresas de tecnologia pagam para removê-las. O Brasil tem terra, floresta e escala para ocupar esse espaço.

4. Cenários para os próximos 90 dias

Cenário
Prob.
Brasil
Empresas
Adaptação cara, sem nova ruptura
45%
Selic 13,50%–13,75%; dólar R$ 5,10–
5,40
Capital caro; caixa e opcionalidade
Nova escalada energética (Brent > US$ 120)
25%
Copom pausa; dólar > R$ 5,60; mais subsídios
Pressão em logística, aviação, indústria e consumo
Descompressão energética e comercial
15%
Cortes aceleram; dólar perto de R$ 5,00
Varejo, construção e aviação lideram
Estresse doméstico pós-eleitoral
10%
Curva abre; dólar > R$ 5,60
Exportadoras protegidas; alavancadas em risco
Correção financeira ligada à IA
5%
Fluxo estrangeiro recua
Capital de risco mais seletivo

Sobre a eleição, a leitura analítica é: reeleição de Lula, 43%; vitória de Flávio Bolsonaro, 39%; segundo turno com Augusto Cury, 12%; cenário judicializado ou indefinido, 6%.

5. O que mudou desde a semana passada

• Na semana passada, o risco dominante era a destruição das rotas alternativas a Ormuz. Nesta, o mercado encontrou uma terceira via: transferências em alto-mar, complexas e caras.
• O Fed parecia prestes a subir. Subiu — e admitiu pela primeira vez que o problema pode ser também de demanda.
• Esperávamos a Selic em 13,75%. Chegou a 13,75%, e o mercado passou a esperar 13,50%.
• O Brent estava em US$ 108. Recuou para US$ 101, mas o diesel descolou e bateu recorde.
• O subsídio ao diesel era de R$ 1,12 por litro. Chegou a R$ 2,12.
• A IA era discutida pelos riscos. Voltou a mostrar demanda física, entrou na diplomacia EUA–China e passou a ser vista por Pequim como amplificadora do excesso de oferta.
• A eleição seguia empatada entre dois nomes. Continua empatada, mas com um terceiro que já empata com o presidente num confronto direto.

6. Agenda crítica

Data
Evento
22 de setembro
Ata do Copom; Trump com líderes do Golfo na Assembleia Geral da ONU
23 de setembro
Chegada de Xi Jinping a Washington
24 de setembro
Cúpula Trump–Xi na Casa Branca
1º de outubro
Fim do horário eleitoral gratuito
4 de outubro
Primeiro turno da eleição presidencial
Meados de outubro
Fim do primeiro prazo do novo subsídio ao diesel
25 de outubro
Segundo turno, se necessário
3 e 4 de novembro
Copom, a primeira reunião após a eleição
10 de novembro
Vencimento da trégua comercial EUA–China
Novembro
Eleições de meio de mandato nos Estados Unidos
Dezembro
Copom e FOMC, com nova alta americana projetada

7. O que as empresas devem fazer agora

• Decisões irreversíveis: adiar para depois de 25 de outubro.
• Energia: simular Brent a US$ 85, US$ 105 e US$ 125 — e diesel com e sem subsídio.
• Câmbio: trabalhar com R$ 4,90, R$ 5,30 e R$ 5,80.
• Dívida: alongar quando houver janela; não contar com juros abaixo de 12% antes de 2027.
• Contratos: incluir cláusulas automáticas de combustível; não precificar 2027 com diesel subsidiado.
• Fornecedores: ter segunda e terceira fontes reais. Quem já tinha a alternativa pronta pagou menos para se adaptar.
• China: tratar separadamente a China fornecedora, cliente, concorrente e investidora.
• Inteligência Artificial: aprovar projetos apenas com retorno, prazo, indicador e responsável definidos.
• Carbono e energia: avaliar novas receitas em créditos, reflorestamento, biometano e eficiência.
• Pessoas: automatizar processos antes de eliminar capacidade humana crítica.
• Estados Unidos: não abandonar automaticamente o mercado tarifado; avaliar produto a produto e contrato a contrato.
• Aquisições: mapear ativos estressados agora e executar depois da eleição.
• Planejamento eleitoral: construir planos para três resultados, não dois.

Conclusão

A semana de 14 a 21 de setembro trouxe a imagem mais nítida até agora da economia que emerge depois de sete meses de crise. Não é uma economia paralisada. É uma economia mais cara para continuar funcionando.
O petróleo ainda sai do Golfo, mas precisa de transferências em alto-mar e fretes que custam um quarto do barril. A Europa ainda tem gás, mas com estoques baixos e preço 140% maior. Os Estados Unidos continuam crescendo, mas voltaram a subir juros. O Brasil continua cortando a Selic, mas paga R$ 2,12 por litro de diesel e 15% a mais de Bolsa Família para manter a inflação baixa até a eleição. A China continua produzindo, e sua própria autoridade monetária admite que a IA pode piorar o desequilíbrio.
E o país entra nos treze dias finais antes do primeiro turno com uma eleição empatada e um terceiro candidato que, em um dos institutos, já empata com o presidente num confronto direto.
Essa realidade muda o significado de competitividade. Durante décadas, eficiência significou estoque mínimo, fornecedor único, dívida otimizada e logística just in time. Hoje, parte dessa eficiência produz fragilidade. A empresa vencedora não será a de menor custo em cenário normal, mas a que continuar produzindo, vendendo e se financiando quando o cenário deixar de ser normal.
Opcionalidade deixou de ser conceito sofisticado de estratégia. Em 2026, tornou-se uma linha essencial do orçamento empresarial. Decisões reversíveis podem ser tomadas agora. As irreversíveis podem esperar treze dias — ou trinta e quatro.

Fontes

Institucionais: Federal Reserve e Fed de Chicago; Banco Central do Brasil (Copom, IBC-Br, Focus); Banco do Japão; Banco Central Europeu; Banco da Inglaterra; Banco Popular da China; Tesouro e Representante Comercial dos EUA; Ministério do Comércio da China; B3; TSE; ANP; Medida Provisória 1.391 e Portaria MF 2.813; Saudi Aramco e ADNOC; Departamento de Energia dos EUA; Kpler; LSEG; Clarksons Research; comunicados de Petrobras, Itaú Unibanco, Eztec, CSN e Mombak.
Pesquisas eleitorais: Datafolha, BTG/Nexus, Quaest, AtlasIntel/Bloomberg, Futura/100% Cidades.
Imprensa internacional: Reuters, Bloomberg, Agence France-Presse, CNBC, CBS, ECO, TradingKey, Trading Economics, Eurasia Group, Global Risk Management.
Imprensa brasileira: InfoMoney, Exame, Forbes Brasil, Money Times, Bloomberg Línea, SpaceMoney, Poder360, Agência Brasil, Seu Dinheiro, O Povo, Metrópoles, Revista Fórum, Jornal de Brasília, Brasil 247, Olhar Digital, ADVFN, Diário do Grande ABC/Broadcast, Safras & Mercado, TradeMap, Finance News, Investing.com, Piranot.
Relatório fechado em 21 de setembro de 2026. Próxima edição: 28 de setembro.