
O primeiro turno virou rali. Na segunda-feira, 5 de outubro, o Ibovespa subiu 7,70%, para 206.911,89 pontos, a maior alta diária em mais de seis anos, enquanto o dólar caiu 4,12%, a R$ 5,001. Na sexta-feira, 9, o índice fechou em 209.066,90 pontos, recorde histórico, com ganho de 8,82% na semana, a melhor desde março de 2020, e o dólar abaixo de R$ 5, a R$ 4,98. Nesta terça-feira, 13, houve realização de lucros: 206.887,52 pontos (−1,04%) e dólar a R$ 5,023. No mês, o Ibovespa acumula 11,03%; no ano, 28,4%.
As pesquisas de segundo turno confirmaram a direção, mas divergem na intensidade. O Datafolha (6 e 7 de outubro) deu Flávio Bolsonaro 52% x 48% de Lula nos votos válidos, e o BTG/Nexus (10 a 12 de outubro), os mesmos 52% x 48%; ambos descrevem empate técnico, pela margem de dois pontos. A AtlasIntel/Bloomberg (3 a 8 de outubro) mediu 52,8% x 47,2%, com Flávio ganhando 3,7 pontos em uma semana. O debate da Band, em 18 de outubro, já está sob disputa: Flávio diz que não vai, Lula confirmou presença.
A inflação brasileira desmentiu a calma. O IPCA de setembro subiu 0,82%, acima dos 0,73% esperados, e acumulou 4,58% em doze meses. O Boletim Focus de 13 de outubro elevou a projeção de 2026 para 5,22%, ainda assim com Selic projetada em 13,25% ao fim do ano. O FMI cortou o crescimento do Brasil para 2,2% em 2026 e 1,9% em 2027.
Nos Estados Unidos, o Fed fechou a porta para cortes. A ata da reunião de setembro mostrou que a alta de 0,25 ponto, a 3,75%–4,00%, foi unânime e que 16 dos 18 dirigentes projetam mais uma elevação em 2026. O mercado ainda atribui cerca de 80% de chance de manutenção em 28 de outubro, mas o CPI de setembro, divulgado hoje, é o teste. O rendimento do Tesouro de dez anos recuou a 5,20% após tocar 5,34% em 1º de outubro.
O governo deu três respostas à pressão de custos, todas com conta fiscal. Em 9 de outubro, zerou por 30 dias os tributos federais da gasolina (R$ 0,89 por litro) e reforçou o subsídio ao diesel importado; em 13 de outubro, anunciou o perdão de R$ 12,6 bilhões em dívidas de microempreendedores; e o Senado chega a 14 de outubro com a PEC do fim da escala 6×1 (jornada de 40 horas) pronta para votação em plenário, agora com o apoio declarado de Flávio.
No petróleo, a semana terminou com um paradoxo. O governo Trump liberou, por licença geral válida até abril de 2027, a venda de diesel russo ao mercado global, e o Brent recuou para US$ 105,69. Mas o Irã adotou novas táticas contra navios em Ormuz, houthis atingiram alvos sauditas e a Agência Internacional de Energia (AIE) avisou que o diesel seguirá apertado até bem dentro de 2027. O El Niño ganhou um novo selo: a NOAA fala em 83% de chance de evento histórico entre outubro e dezembro. E o FMI, ao elevar o crescimento mundial para 3,1%, foi explícito: a inteligência artificial sustenta a conta, mas já é grande o bastante para virar risco financeiro.
A tese da semana. No relatório de 5 de outubro este texto apontou que o mercado precificava intenção fiscal, não capacidade fiscal. Sete dias depois, os bancos de investimento elevaram metas e o fluxo estrangeiro voltou, mas a equipe econômica de Flávio ainda não existe e o déficit do setor público permanece próximo de 10% do PIB. O rali comprou a primeira metade da frase. A segunda depende de 25 de outubro e do que vier depois.
As principais notícias da semana, em ordem cronológica
Data
O que aconteceu
Por que importa
5/10
Ibovespa sobe 7,70% e fecha em 206.911,89 pontos; dólar cai 4,12%
Maior alta diária em mais de seis anos; mercado reprecifica risco político
6 e 7/10
Datafolha mede segundo turno: Flávio 52% x Lula 48% (votos válidos)
Primeira pesquisa de peso após o primeiro turno confirma a inversão
7/10
Ata do Fed: alta de setembro foi unânime e maioria vê nova alta em 2026
Fecha a janela para cortes e mantém juros longos altos
8/10
NOAA: 83% de chance de El Niño histórico em outubro–dezembro
Risco para safra e bandeiras tarifárias no verão
9/10
AtlasIntel: Flávio 52,8% x Lula 47,2%; Ibovespa fecha em 209.066,90 (recorde)
Melhor semana da bolsa desde março de 2020
9/10
Trump anuncia acordo com Putin; Tesouro emite licença geral para diesel russo até 7/4/2027
Muda a oferta global de diesel e o cálculo de risco do Brasil
9 e 12/10
Guarda Revolucionária iraniana diz ter atingido petroleiros em Ormuz
Mantém o prêmio de risco do petróleo
9/10
IPCA de setembro sobe 0,82% (12 meses: 4,58%)
Inflação acima do esperado e do teto da meta, puxada por energia elétrica
9/10
Governo zera tributos federais da gasolina por 30 dias e reforça subsídio ao diesel importado
Alivia o posto, mas amplia a renúncia fiscal
9/10
Acordo China–UE sobre veículos híbridos
Europa tenta conter o excesso de exportações chinesas
12/10
FMI corta crescimento do Brasil para 2,2% (2026) e 1,9% (2027)
Aponta juro alto com dívida alta como vulnerabilidade
13/10
Focus: IPCA 2026 a 5,22%, Selic a 13,25% no fim do ano; JPMorgan lucra US$ 15,3 bi
Mercado espera inflação maior e corte de juros menor
13/10
BTG/Nexus dá Flávio 52% x 48% (válidos); governo anuncia perdão de R$ 12,6 bi a MEIs; Flávio passa a apoiar a PEC 6×1
Eleição entra na pauta de custos das empresas
14/10
AIE: diesel apertado até bem dentro de 2027; Irã muda táticas em Ormuz; Senado vota PEC 6×1
Custo de energia e de mão de obra no centro da agenda
13/10
Ibovespa recua 1,04% e o dólar volta a R$ 5,02
Realização de lucros às vésperas do CPI americano
14/10
CPI americano de setembro é divulgado às 9h30
Teste decisivo para a decisão do Fed em 28 de outubro
Eleições 2026: quem lidera o segundo turno e o que o mercado já assumiu?
O que dizem as pesquisas
Instituto
Período
Flávio Bolsonaro
Lula
Datafolha
6 e 7/10
49% totais; 52% válidos
45% totais; 48% válidos
AtlasIntel/Bloomberg
3 a 8/10
51,1% totais; 52,8% válidos
45,7% totais; 47,2% válidos
BTG/Nexus (telefone)
10 a 12/10
48% totais; 52% válidos
45% totais; 48% válidos
AtlasIntel (anterior)
até 2/10
47,4%
47,6%
A margem de erro é de dois pontos no Datafolha (2.520 entrevistas presenciais) e no BTG/Nexus (2.002 entrevistas por telefone) e de um ponto na AtlasIntel (5.026 entrevistas online). Os dois primeiros institutos classificam a diferença como empate técnico; a AtlasIntel, com margem menor, mostra vantagem fora dela. As metodologias são distintas e os percentuais não devem ser comparados de forma mecânica, mas os três apontam para o mesmo lado. A AtlasIntel registra a mudança com precisão: Flávio ganhou 3,7 pontos e Lula perdeu 1,9 em uma semana.
Os recortes ajudam a entender o porquê. O Datafolha mostra Lula com 61% a 35% no Nordeste e Flávio com 58% a 35% no Sul. Entre evangélicos, Flávio tem 69% a 25%. Entre os eleitores dos candidatos que ficaram para trás, 46% migram para Flávio, 32% para Lula e 15% votam em branco ou nulo. Apenas 6% dizem que ainda podem mudar o voto, e um em cada quatro eleitores de Flávio afirma que vota nele principalmente para derrotar Lula.
A AtlasIntel indica ainda onde está o terreno econômico: Flávio lidera em economia e inflação (52% a 45%) e em equilíbrio fiscal (52% a 42%), e há empate em pobreza e desigualdade (48% cada) e em meio ambiente. A desaprovação do governo Lula está em 53,4%, contra 44,7% de aprovação.
Apoios, debates e a equipe econômica que não existe
Romeu Zema, do Novo, disse que estará “contra o PT” no segundo turno. Ronaldo Caiado, do PSD, só se pronunciará após reunião com Gilberto Kassab. Augusto Cury afirmou que ninguém está autorizado a falar em seu nome, e Renan Santos, do Missão, declarou que não recomenda voto em nenhum dos dois.
No calendário, o debate da Band, em 18 de outubro às 18h, será mantido mesmo com a ausência anunciada de Flávio, e a emissora informou que o púlpito vazio ficará em cena. O PT confirmou Lula nos debates da Band e da Globo. O da Globo, em 23 de outubro, é o último antes da votação.
A pergunta que o mercado faz é sobre o programa e sobre a equipe. Em entrevista de 6 de outubro, Daniella Marques afirmou que Flávio orientou revogar os tributos criados ou elevados na gestão Haddad, eliminar o imposto de 12% sobre a exportação de petróleo e levar o IOF de volta ao patamar de 2022, além de negociar ajustes na reforma tributária com o Congresso. A cartilha divulgada em 5 de outubro prevê ainda retomar o programa de desestatização e reformular as regras fiscais, sem metas numéricas. Não há estimativa de custo fiscal para nenhuma das propostas.
Quanto aos nomes, a Bloomberg Línea listou como cotados Marcelo Kayath, Mansueto Almeida, Roberto Campos Neto, Alexandre Bettamio e Daniella Marques, principal conselheira econômica de Flávio. O coordenador da campanha, Rogério Marinho, sinalizou que grandes anúncios devem esperar. Flávio prometeu cortar gastos, reduzir burocracia e baixar impostos, mas não apresentou plano detalhado para estabilizar a dívida.
Leitura do jornalista. Em 5 de outubro este relatório escreveu que as pesquisas haviam errado a direção, e não apenas a magnitude. A semana mostrou o corolário: o instrumento que o mercado usava para medir risco político passou a apontar na direção em que o dinheiro já havia se deslocado. A tendência é favorável a Flávio, mas onze dias seguem sendo tempo suficiente para uma segunda surpresa.
Ibovespa a 209 mil pontos: o rali, a rotação e o que o preço não diz
O que aconteceu nos números
Dia
Ibovespa
Dólar
Destaque
2/10 (sexta)
192.114,55
R$ 5,2165
Fechamento antes do primeiro turno
5/10 (segunda)
206.911,89 (+7,70%)
R$ 5,001 (−4,12%)
DI1F27 a 13,413%; volume de R$ 103,3 bi
9/10 (sexta)
209.066,90 (+1,38%)
R$ 4,98
Recorde; semana de +8,82%
13/10 (terça)
206.887,52 (−1,04%)
R$ 5,023 (+0,74%)
Realização de lucros
Na segunda-feira de 5 de outubro, as maiores altas foram Magazine Luiza (+24,18%), Cosan (+23,79%), B3 (+22,63%), BTG Pactual (+22,52%) e Vamos (+21,31%). Entre as grandes, Petrobras PN subiu 8,19%, Itaú 10,37%, Bradesco 13,57% e Banco do Brasil 11,00%. Em contraste, Suzano (−5,39%), Embraer (−3,31%), Gerdau (−1,19%) e Vale (−0,97%) ficaram fora do rali, pressionadas pelo câmbio e, no caso da mineradora, por minério físico em mínima de dois anos. Na sexta, a Magazine Luiza ainda subiu 19,22%, e a SMLL avançou 4,26%.
O movimento reproduziu quase literalmente o que o relatório anterior descreveu: valorização do real, queda dos juros futuros e alta da bolsa, com exportadoras devolvendo prêmio. O dólar permanece 8,5% mais barato no ano.
Os bancos mudaram de lado
Morgan Stanley elevou o Brasil para overweight, com potencial de 15% a 20% até o fim de 2026 e um cenário otimista de 250 mil pontos para o Ibovespa. O JPMorgan espera ganho inicial de 12% no MSCI Brazil, podendo chegar a 20%, com múltiplo saindo de 8,9 para 10,9 vezes. O UBS tratou o ajuste fiscal mais profundo como cenário-base. A probabilidade de um corte de 0,50 ponto na Selic em dezembro saltou de 18% para 45%.
A rotação prevista é clara. Ganham domésticas sensíveis a juro: BTG, B3, Vamos, Localiza, Movida, construtoras como Cyrela e Eztec, utilities como Equatorial, Energisa, Sabesp e Eneva, varejo, saúde e educação. Perdem exportadoras (Vale, Suzano) e petroleiras, que, segundo o UBS, já incorporam preços altos e deixam de ser proteção.
O que o rali não resolve
André Matos, da MA7 Capital, resumiu o ponto: “estamos diante de um mercado que comprou uma expectativa”, com fundamentos que não mudaram. O próprio UBS lista os riscos: mudança de preferência do eleitor antes do segundo turno, composição da equipe econômica, ambição do plano fiscal e capacidade de aprová-lo no Congresso. A queda de 1,04% em 13 de outubro, com a Agência Brasil apontando realização de lucros, cautela externa e incertezas eleitorais, é o primeiro sinal de que o preço já não aceita notícia neutra.
Inflação, juros e crescimento: o Brasil entre o IPCA alto e o corte de Selic
IPCA de setembro: a energia elétrica pesou
O IPCA subiu 0,82% em setembro, contra 0,73% projetados pela Reuters, após deflação de 0,32% em agosto, e chegou a 4,58% em doze meses, ante 4,50% esperados e 4,22% em agosto, o que recolocou a inflação acima do teto de 4,5% da meta. No ano, o índice soma 3,95%, e todos os nove grupos pesquisados registraram alta. Habitação (+2,31%, 0,35 ponto percentual de impacto) foi o grupo de maior peso, com energia elétrica residencial subindo 7,98% pelo fim do Bônus de Itaipu e pela bandeira amarela. Combustíveis subiram 1,41% (diesel +1,69%, gasolina +1,21%, etanol +3,16%) e as passagens aéreas, 9,66%. Alimentação e bebidas avançaram 0,83% após três quedas seguidas, com tomate (+37,76%) e batata-inglesa (+24,07%) à frente.
Focus, Banco Central e FMI
Indicador
Semana anterior
Focus de 13/10
IPCA 2026
5,01%
5,22%
Selic no fim de 2026
13,50%
13,25%
PIB 2026
1,85%
1,85%
Dólar no fim de 2026
R$ 5,20
R$ 5,15
A mesma semana trouxe duas revisões de crescimento. O Banco Central, no Relatório de Política Monetária, reduziu a projeção do PIB de 2026 de 2,0% para 1,8% e manteve a inflação em torno de 5,2%. O FMI, no World Economic Outlook divulgado na noite de 12 de outubro, cortou o Brasil de 2,4% para 2,2% em 2026 e de 2,2% para 1,9% em 2027, citando política monetária restritiva, retirada de estímulo fiscal e incerteza global. O Fundo advertiu que juros altos combinados com dívida alta são uma vulnerabilidade; a dívida bruta, pela metodologia do FMI, recuou de 95,4% para 94,5% do PIB entre julho e agosto.
Para 2027, o Focus projeta IPCA de 4,30%, Selic de 12,00%, PIB de 1,40% e dólar a R$ 5,26.
A atividade confirma o diagnóstico. A produção industrial caiu 0,6% em agosto, eliminou o ganho de 0,1% de julho, ficou 1,2% abaixo de agosto de 2025, com 16 dos 25 ramos em queda, e acumula recuo de 3,1% em quatro meses. É a mesma indústria que o relatório de 5 de outubro já descrevia como a mais pressionada. Os serviços de agosto saem hoje e o varejo, amanhã.
O Copom decide em 4 de novembro, com a Selic em 13,75% depois de cinco cortes de 0,25 ponto em 2026, e a mediana do Focus aponta para 13,50% em novembro e 13,25% em dezembro. É uma combinação que merece ser lida com atenção: inflação revisada para cima, crescimento revisado para baixo e corte de juros mantido no mapa. O mercado está apostando que um câmbio mais forte dará ao Banco Central a margem que a inflação corrente não dá.
Conexão com a edição anterior. Há uma semana, o relatório registrou dívida pública de R$ 9,29 trilhões, com recorde de 52,74% atrelada à Selic. O IPCA de setembro e o corte menor de Selic no Focus fecham o ciclo: cada ponto de juro que não cai é despesa fiscal que o próximo governo herda.
Combustíveis, MEIs e jornada: o governo responde aos custos, e a conta chega depois
Gasolina a tributo zero e mais subsídio ao diesel
Em 9 de outubro, a 16 dias do segundo turno, o governo publicou a Medida Provisória 1.395. A redução tributária federal sobre a gasolina passou de R$ 0,63 para R$ 0,89 por litro, zerando PIS/Pasep, Cofins e Cide-Combustíveis, por 30 dias renováveis. O subsídio ao etanol subiu de R$ 0,25 para R$ 0,43 por litro, e o diesel importado ganhou subvenção adicional de R$ 1,40 por litro, somada aos R$ 2,12 já em vigor. O custo estimado é de R$ 5,2 bilhões em 30 dias, e a MP abriu crédito extraordinário de R$ 7,52 bilhões, dos quais R$ 6,17 bilhões para o diesel rodoviário.
O Ministério do Planejamento sustenta que as renúncias da gasolina e do etanol serão cobertas por receitas extraordinárias de petróleo, o que preserva a neutralidade fiscal. É um argumento que depende do Brent. Com o barril acima de US$ 100 contra cerca de US$ 70 antes do conflito, as receitas existem; se o petróleo recuar, a conta fica sem fonte, e o mesmo ocorre se qualquer prorrogação for mantida depois de 30 dias.
Conexão com as edições anteriores. Este relatório vem tratando o subsídio de R$ 2,12 ao diesel como a peça mais frágil do arranjo. Agora ele é reforçado em R$ 1,40 e acompanhado de um corte de tributos sobre a gasolina. O IPCA de setembro mostrou combustíveis subindo 1,41%, e o governo escolheu proteger o preço de bomba antes de 25 de outubro. A pergunta para empresas é a mesma: qual é o preço sem subsídio?
Pacote para microempreendedores
Em 13 de outubro, o governo anunciou que enviará ao Congresso projeto de lei complementar para perdoar cerca de R$ 12,6 bilhões em dívidas de MEIs com a União, beneficiando em torno de 3,6 milhões de pessoas. O pacote prevê ainda o Desenrola 3.0, com compra, por edital e com descontos mínimos de 90%, de cerca de R$ 6 bilhões em dívidas de MEIs com bancos; o Pix MEI, repasse não reembolsável de até R$ 5 mil por beneficiário, ainda em desenho; e a elevação do teto de faturamento do MEI, parado há oito anos, para R$ 110 mil no próximo ano e R$ 140 mil em 2028. Não foi informado o custo fiscal do conjunto.
Independentemente do julgamento político, o dado econômico é inequívoco: o estresse financeiro dos pequenos negócios chegou a um nível que justificou um programa nacional de reestruturação de passivos. Para bancos, fintechs e empresas de cobrança, a compra de dívida com 90% de desconto redefine o valor de uma carteira.
Jornada de 40 horas: a PEC do fim da escala 6×1 chega ao plenário do Senado
A PEC 221/2019 foi aprovada na Câmara em maio (472 votos no primeiro turno e 461 no segundo) e na CCJ do Senado em 2 de setembro. O texto fixa 40 horas semanais em cinco dias, com duas folgas, sem redução de salário, com transição de 42 horas dois meses após a promulgação e de 40 horas catorze meses depois, e prevê regimes especiais, como 12×36, definidos em lei. Há regras transitórias para MEIs e pequenas empresas, a serem fixadas em lei complementar.
A votação em primeiro turno no plenário do Senado está marcada para hoje, 14 de outubro, e exige 49 dos 81 votos em cada turno. O governo tenta aprovar um calendário especial para concluir os dois turnos no mesmo dia; sem ele, a votação final pode ficar para depois de 25 de outubro. Na terça-feira, 13, Flávio Bolsonaro anunciou que votará a favor, depois de meses classificando a proposta como “oportunista” e “eleitoreira”.
Para as empresas, o efeito depende da regulamentação, mas já é possível mapear. Varejo, supermercados, hotelaria, restaurantes, saúde, segurança, logística e call centers são os mais expostos, porque operam sete dias por semana e dependem de escalas longas. O lado favorável aparece em retenção, absenteísmo e produtividade. A agenda trabalhista deixou de ser promessa de campanha e se tornou votação, com apoio dos dois lados da disputa.
Estados Unidos: Fed hawkish, CPI no horizonte e Tesouro a 5,20%
A ata de 7 de outubro
A ata da reunião de 15 e 16 de setembro mostrou que todos os participantes apoiaram a alta de 0,25 ponto, a 3,75%–4,00%, embora divergissem quanto aos motivos: alguns queriam compensar choques de energia, outros proteger-se contra inflação de demanda. Dezesseis dos 18 dirigentes que enviaram projeções esperam mais uma alta em 2026, e alguns citaram a expansão da inteligência artificial como fonte de pressão adicional sobre os preços. O mercado de trabalho foi descrito como de riscos equilibrados.
O CPI de hoje
O consenso para o CPI de setembro, divulgado às 9h30 de Brasília, é de alta de cerca de 0,6% no mês e de 3,6% a 3,7% em doze meses, ante 3,4%, com núcleo de 2,5% (era 2,4%). O diesel americano passou de US$ 5,60 para US$ 6,38 por galão em setembro, e o Société Générale vê o combustível como fator relevante da inflação. Segundo o FedWatch, há entre 78% e 80% de chance de manutenção em 28 de outubro e cerca de 85% de probabilidade de a taxa estar acima do nível atual em dezembro. Michelle Bowman disse não haver “urgência” para novas altas neste ano; Christopher Waller defendeu mais aperto com flexibilidade quanto ao ritmo.
O que dizem os dirigentes e o déficit comercial
Beth Hammack, presidente do Fed de Cleveland, afirmou em 13 de outubro que os juros precisam subir porque a inflação está alta e as pressões já se espalham além de categorias isoladas. Disse preferir altas menores e relativamente rápidas e citou a demanda ligada à IA como força que “não se autocorrige”. John Williams, do Fed de Nova York, indicou que pode ser necessária mais uma alta em 2026, mas não necessariamente já, e que não vê necessidade de novos aumentos em 2027.
O déficit comercial americano chegou a US$ 105,6 bilhões em agosto, o maior em 17 meses, com importações recordes de equipamentos de IA. O ponto é o paradoxo que o FMI descreve mais abaixo: a IA aumenta o investimento e os lucros em Wall Street, mas boa parte do benefício industrial imediato vai para fornecedores asiáticos.
Tesouro, bolsa e bancos
O rendimento do Tesouro americano de dez anos recuou 4 pontos-base em 13 de outubro, a 5,202%, depois de tocar 5,34% em 1º de outubro; o de trinta anos, a 5,552%, e o de dois anos, a 4,80%. O Dow Jones fechou em 51.670,10 pontos e o Nasdaq em 27.204,38. O JPMorgan lucrou US$ 15,3 bilhões no terceiro trimestre, alta de 6%, mas lucro por ação (US$ 5,57) e receita (US$ 50,17 bilhões) ficaram abaixo do consenso; Citigroup e Goldman Sachs superaram as expectativas, segundo o Times Brasil. A temporada de balanços americanos começa, portanto, com sinal misto.
Petróleo e diesel: a licença russa, Ormuz e o risco do Brasil
O acordo de 9 de outubro
Na sexta-feira, Donald Trump anunciou, após conversa com Vladimir Putin, que a Rússia disponibilizará diesel ao mercado americano e global. O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Tesouro (OFAC) emitiu licença geral válida até 7 de abril de 2027 para transações de venda, entrega e importação do combustível. Pelos números divulgados por Trump, seriam mais de 300 mil toneladas de imediato, 500 mil em novembro e 1 milhão em seguida; os valores não foram confirmados de forma independente. Outras sanções permanecem, e a licença não permite débitos em contas ligadas ao Banco Central, ao Fundo de Riqueza Nacional ou ao Ministério das Finanças russos.
A análise da Reuters é cautelosa: refinarias russas foram atingidas por ataques, a demanda interna limita exportações e a logística é complexa. Parlamentares de ambos os partidos questionaram se a medida cabe nas restrições legais às importações de energia russa. Foi anunciada ainda uma trégua energética entre Moscou e Kiev, cuja implementação é incerta.
Ormuz e o Mar Vermelho continuam em disputa
A Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter atingido um petroleiro em 9 de outubro por rota “ilegal” e, em 12, um superpetroleiro que pegou fogo. O Irã mantém o bloqueio do estreito desde as operações americanas e israelenses de fevereiro, enquanto os Estados Unidos bloqueiam portos iranianos e escoltam navios. Em paralelo, houthis atacaram alvos na Arábia Saudita, incluindo o aeroporto de Riade, e a coalizão liderada pelos sauditas ampliou a ofensiva no Iêmen.
O resultado foi um mercado dividido. O Brent fechou a US$ 106,65 em 12 de outubro, o maior nível desde meados de setembro, e recuou 0,90% em 13 de outubro, a US$ 105,69; o WTI subiu 0,43%, a US$ 94,14. A Opep manteve em 600 mil barris diários a expansão projetada de oferta de países de fora do grupo em 2026 e elevou em 200 mil a de demanda mundial em 2027.
Novas táticas iranianas, ataques sauditas e o aviso da AIE
Autoridades iranianas disseram à Reuters, em 14 de outubro, que o país passou a usar táticas diferentes contra navios que considera em violação de suas regras cerca de dez dias antes, o que elevou a frequência dos ataques. A UKMTO informou que um porta-contêineres e um petroleiro foram atingidos por projéteis de origem desconhecida em Ormuz em 13 de outubro. Em paralelo, houthis atacaram um prédio administrativo da Saudi Aramco em Dhahran, com incêndio limitado, e o aeroporto de Riade foi atingido quatro vezes na semana, num ataque de sábado que deixou 13 mortos. O Brent subia 0,61%, a US$ 106,30, e o WTI, a US$ 94,62, no início do pregão de hoje.
A afirmação de uma das autoridades iranianas de que o objetivo seria um “fechamento completo” é declaração política de parte envolvida. O tráfego continua, e a produção do Golfo aumentou. O que mudou é o custo marginal de cada barril transportado.
A AIE, no relatório mensal divulgado hoje, avalia que o mercado de diesel seguirá apertado até bem dentro de 2027. Espera recuperação do refino e um superávit de diesel no primeiro trimestre de 2027, mas não o suficiente para compensar o déficit acumulado desde as operações americanas e israelenses de fevereiro. Se os fluxos do Golfo não normalizarem, alerta a agência, novas reduções de demanda, com seus custos econômicos, podem ser necessárias. Governos reagiram com cortes de impostos, subsídios e liberação de reservas, que terão de ser recompostos, o que é uma demanda futura em si.
Do lado da oferta, o relatório da OPEP de 13 de outubro mostra que a produção da OPEP+ subiu para 39,07 milhões de barris por dia em setembro, cerca de 900 mil a mais que em agosto, liderada pela Arábia Saudita. Os fluxos de petróleo bruto e condensado do Golfo se aproximam dos níveis anteriores à guerra, mas as exportações de derivados seguem muito abaixo. A Rússia negou ligação direta entre as negociações de paz com a Ucrânia e o acordo de diesel com os Estados Unidos, e analistas lembram que seu refino foi atingido por ataques.
Consequência para o Brasil
Em 5 de outubro este relatório destacou que 80% do diesel importado pelo Brasil em setembro vieram dos Estados Unidos, país que discutia restringir a exportação do produto. A licença russa não elimina essa concentração, mas amplia as opções de origem e reduz o argumento para um embargo americano. Com a AIE avisando que o aperto vai a 2027, a lição para o planejamento é separar: Brent estável não significa diesel barato, e as empresas de transporte, agro, mineração e indústria devem modelar o spread dos derivados à parte. Para o importador brasileiro, o caminho é regulatório e reputacional: a licença é de curto prazo e cabe a cada empresa avaliar exposição a sanções secundárias.
O diesel subiu 1,69% no IPCA de setembro, e o subsídio de R$ 2,12 por litro segue como a peça mais frágil do arranjo caso o próximo governo priorize ajuste fiscal.
FMI: a inteligência artificial sustenta o crescimento e já é um risco financeiro
O World Economic Outlook de outubro elevou o crescimento mundial de 2026 de 3,0% para 3,1% e manteve 3,4% para 2027, com inflação global de 4,7% em 2026. Pelas projeções, os Estados Unidos crescem 2,3% neste ano, a China 4,5% (4,0% em 2027) e a Índia 7,0%. A razão da revisão é o investimento em IA, que compensou parte do efeito de petróleo, guerra e juros. A concentração é o dado mais revelador: 32 países respondem por 95% do crescimento mundial, contra 54 em abril. O Brasil, fora da cadeia de data centers e semicondutores, ficou de fora do benefício e teve a previsão cortada.
O Relatório de Estabilidade Financeira Global traz o outro lado. O Fundo examinou 14 grandes transações circulares de IA desde 2023, que envolveram cerca de US$ 300 bilhões em capital próprio e US$ 650 bilhões em dívida, perto de US$ 950 bilhões, apoiados em US$ 1,4 trilhão de receitas futuras prometidas. As gigantes de nuvem já respondem por 10% das emissões de dívida corporativa grau de investimento, contra menos de 1% em 2024. Se a monetização decepcionar, avisa o FMI, perdas de ações, dificuldades de pagamento de dívida e frustração de receitas podem ocorrer juntas. Em teste de estresse com forte queda do investimento em IA, o PIB mundial ficaria 1,1% abaixo da linha de base em 2028; no cenário oposto, de forte investimento com ganhos de produtividade, ficaria 0,6% acima em 2029. O Fundo também alerta para o risco de ciberataques como gatilho sistêmico.
Esta série vem tratando a IA como a grande oportunidade da década. A semana obrigou a acrescentar a segunda metade da frase: ela já é também um dos maiores riscos financeiros do ciclo, e a ata do Fed, os dirigentes de Cleveland e Nova York e o FMI chegam à mesma conclusão por caminhos diferentes, de que o investimento em IA pressiona demanda e preços no curto prazo, mesmo que deva reduzir custos no longo.
El Niño: dois selos, o mesmo risco
A NOAA divulgou em 8 de outubro 83% de probabilidade de El Niño histórico entre outubro e dezembro, mais forte que qualquer evento desde 1950. A água do Pacífico equatorial oriental estava 2,3°C acima da média na última semana, com bolsões de até 4°C. É um selo distinto do dado do INMET citado no relatório anterior (98% para El Niño muito forte), mas ambos apontam na mesma direção: Sul com excesso de chuva, Norte e Nordeste com déficit.
Para o consumidor brasileiro, o IPCA de setembro já mostrou o que a conta de luz faz. Com bandeira verde em outubro, o risco desloca-se para o verão, quando déficit de chuva no Norte e no Nordeste pode empurrar bandeiras mais caras e o preço de alimentos.
Comércio exterior: China acelera, e a carne brasileira paga o preço
A balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 7,741 bilhões em setembro, alta de 146,4%, com acumulado de US$ 62,3 bilhões no ano. Dentro desse número está um alerta: as exportações para a China caíram 7,6% no mês, a US$ 7,89 bilhões, com queda de 93,5% em carne bovina após o esgotamento da cota de 1,106 milhão de toneladas, além de recuos em soja, minério e milho. No acumulado do ano, porém, as exportações para a China somam US$ 84,64 bilhões, alta de 12%.
No mercado de carne, as exportações brasileiras de carne bovina somaram 229,3 mil toneladas em setembro e caíram 35,1%, com forte retração da China, onde o volume despencou 93,5% depois do esgotamento da cota. Parte da perda foi compensada por vendas aos Estados Unidos e a outros destinos, mas não toda.
O contexto chinês agrava o quadro. As exportações da China saltaram 36,3% em setembro (25,0% em agosto), as importações subiram 31,0% e o superávit comercial foi de US$ 133,53 bilhões. O superávit com os Estados Unidos, de US$ 34,01 bilhões, foi o maior em vinte meses, e o país caminha para US$ 1 trilhão no ano, com exportações de chips e automóveis em ritmo recorde. É a materialização da hipótese do “choque chinês 2.0” que este relatório trata desde a edição anterior: a China já não exporta só brinquedos e roupas, mas carros, baterias, chips, painéis solares e máquinas. O superávit acumulado em nove meses ficou perto de US$ 940 bilhões.
A Europa começou a reagir. Em 9 de outubro, China e União Europeia fecharam um consenso de 16 pontos que inclui o entendimento sobre veículos híbridos, em que Pequim aceita reduzir de forma drástica as exportações do tipo ao bloco. Bruxelas prepara cotas tarifárias de salvaguarda para entrar em vigor em 1º de dezembro e avalia investigações em químicos e plásticos. O dilema europeu é o brasileiro: como aproveitar capital e produtos chineses sem destruir a capacidade industrial própria. O caminho tende a passar por conteúdo local, joint ventures, exigências tecnológicas e antidumping focalizado.
Minerais críticos: a Anglo American, o níquel e a disputa China–Europa
A Anglo American alertou que poderá fechar suas operações brasileiras de níquel se as autoridades antitruste europeias bloquearem a venda do ativo, de cerca de US$ 500 milhões, à MMG, empresa chinesa listada em Hong Kong. O receio de Bruxelas é que o comprador redirecione o níquel hoje destinado à Europa. O episódio mostra que o níquel deixou de ser só commodity: passou a ser política industrial, segurança energética e cadeia de baterias. Para o Brasil, aumenta o risco de vender ativos e minério sem uma estratégia de processamento.
A trégua tarifária entre Estados Unidos e China, prorrogada por dois meses, vence em 10 de janeiro de 2027. O grupo de trabalho Brasil–EUA sobre tarifas, criado em 30 de setembro, só deve avançar depois das eleições.
Fontes consultadas
Tema
Fontes
Eleições e pesquisas
Datafolha; AtlasIntel/Bloomberg; CNN Brasil; Brasil de Fato; InfoMoney; Metrópoles; Terra; Bloomberg Línea; Tribunal Superior Eleitoral
Mercado brasileiro
B3; InfoMoney; Suno; Money Times; Agência Brasil; DGABC; Folha de Cianorte
Inflação, juros e crescimento
IBGE (IPCA); Banco Central (Focus e Relatório de Política Monetária); FMI (World Economic Outlook); O Tempo; Sou Brasília; JB; Ouviram
Economia americana
Fed (ata do FOMC); CNBC; FXStreet; CME FedWatch; InfoMoney; O Povo (JPMorgan); Times Brasil
Petróleo, Ormuz e Rússia
ICE e NYMEX; OFAC/Tesouro dos EUA; Agência Brasil; O Povo/AFP; O Econômico; Reuters; boletins de análise geopolítica
El Niño
NOAA/Climate Prediction Center; Weather.com; INMET
Comércio exterior
MDIC; alfândega da China; InfoMoney; Boca; Suno; InvestNews; Revista Mineração; Kitco; Abiec; Safras
Política econômica e trabalhista
Câmara dos Deputados; Senado; CartaCapital; O Povo; Forbes Brasil; Somos Notícia; Brasil em Folhas
Energia e FMI
Agência Internacional de Energia; OPEP; Daily Sabah; Reuters (via Money Times); UKMTO; FMI (WEO e GFSR); Tech Times; Antihype
Panorama atual: como as peças se encaixam
Economia mundial
O mundo cresce a 3,1% neste ano segundo o FMI, sustentado pelo investimento em inteligência artificial e pelo mercado de trabalho, com riscos de guerra prolongada e de correção das expectativas de lucro de IA. A economia global convive com três pressões simultâneas: juros longos altos nos Estados Unidos, energia cara por causa de Ormuz e uma China exportando mais que nunca. O Fed, em vez de cortar, discute outra alta.
Estados Unidos
A economia americana é a que mais impõe restrições aos demais. A ata do Fed e o CPI de hoje definem se outubro termina em manutenção e dezembro em alta, cenário em que o dólar global se fortalece e o Brasil perde parte do alívio que o rali concedeu. O Tesouro a 5,20% continua sendo o piso do custo de capital mundial, e um balanço do JPMorgan abaixo do consenso lembra que o ciclo bancário não está imune.
Brasil
A fotografia brasileira tem dois relógios. O de curto prazo é eleitoral: onze dias, dois debates e duas pesquisas já alinhadas a favor de Flávio. O de médio prazo é macroeconômico: IPCA a 5,22% no Focus, crescimento de 1,8% a 2,2% conforme a fonte, Selic em 13,75% e dívida bruta próxima de 95% do PIB. O rali comprou o primeiro relógio e ignorou o segundo.
Variável
Direção
Horizonte
Atividade
Fraca (PIB 2026: BC 1,8%; Focus 1,85%; FMI 2,2%)
2026–2027
Inflação
Pressionada (IPCA 12 meses 4,58%; Focus 2026 a 5,22%)
Curto prazo
Câmbio
Valorizado (R$ 5,02; −8,5% no ano)
Até 25/10
Juros
Cortes prováveis, mas menores
Novembro e dezembro
Energia e clima
Bandeira verde; El Niño histórico no verão
Dezembro a março
Combustível
Mitigado no curto prazo; subsídio frágil
Outubro a 2027
Impactos por segmento de mercado
Bancos e serviços financeiros
Beneficiados no curto prazo pela compressão da curva (DI1F27 a 13,41% em 5 de outubro) e pelo fluxo de capital. BTG Pactual e B3 foram os mais recompensados. O risco é de crédito: inflação alta, atividade fraca e juros que caem devagar mantêm inadimplência em alerta. Em 4 de novembro o Copom define o ritmo.
Estatais e empresas com participação pública
Segmento de maior sensibilidade eleitoral. Petrobras PN subiu 8,19% em 5 de outubro e Banco do Brasil, 11%, e os dois concentram o prêmio de uma mudança de governo, que também seria a devolução do prêmio caso o segundo turno reverta o resultado do primeiro. Até 2 de outubro, a Petrobras acumulava alta de cerca de 75% no ano, segundo análise técnica, com indicadores de sobrecompra antes do salto da semana.
Petróleo, gás e refino
Favorável pelo preço (Brent a US$ 105,69), mas com perda de papel de proteção na rotação para domésticas, segundo o UBS. A licença russa não derruba o prêmio, apenas o limita. O risco político interno é o subsídio ao diesel.
Agronegócio e alimentos
Risco climático e comercial combinados. O El Niño traz excesso de chuva ao Sul e déficit ao Norte e Nordeste. Na China, a cota de carne bovina esgotada em 29 de setembro, com tarifa total de 67% acima do volume, leva frigoríficos com mix diversificado (JBS, MBRF, Minerva) a redirecionar vendas. Alimentos no IPCA de setembro subiram 0,83%, e o câmbio mais forte reduz a receita em reais do exportador.
Mineração, papel e celulose, siderurgia
Os mais pressionados pelo câmbio. Vale (−0,97% em 5 de outubro, com minério físico em mínima de dois anos), Suzano (−5,39%) e Gerdau (−1,19%) ficaram fora do rali. O Morgan Stanley reduziu Vale e zerou Suzano. Com China exportando mais, o excesso de capacidade siderúrgica tende a pressionar ainda mais.
Energia elétrica e saneamento
Bem posicionadas pelo juro e pela reprecificação, com Equatorial, Energisa, Sabesp e Eneva entre as preferidas. A energia elétrica residencial subiu 7,98% no IPCA de setembro. Com El Niño histórico, a bandeira verde de outubro não deve resistir ao verão, e geradoras com portfólio diversificado entre subsistemas levam vantagem.
Varejo e consumo
Maior beneficiário do rali: Magazine Luiza subiu 24,18% em 5 de outubro e 19,22% em 9 de outubro, Renner, C&A e Riachuelo aparecem entre as preferidas do JPMorgan. A melhora, porém, é de preço de ativo, não de renda: o IPCA de 4,58% e o emprego informal em alta limitam o consumo.
Supermercados, atacarejo e serviços intensivos em mão de obra
Defensivos, mas sob pressão dupla: alimentos no IPCA (+0,83%) e a PEC da jornada de 40 horas. Hotelaria, restaurantes, saúde e call centers estão no mesmo grupo. Automação de caixa, estoque, reposição e agenda deixou de ser projeto paralelo.
Sucroenergético e fertilizantes
O etanol é favorecido pelo petróleo acima de US$ 100 e pelo novo subsídio (R$ 0,43 por litro), mas o risco climático do El Niño é o fator dominante. Para os consumidores de fertilizantes, diesel e gás elevados aumentam o custo, e a origem e a logística precisam ser diversificadas.
Construção civil e incorporadoras
Sensíveis ao DI longo, Cyrela e Eztec são as preferidas do JPMorgan. O ganho depende de a Selic de fato cair; com Focus a 13,25%, o financiamento permanece caro em 2027.
Transporte, logística e aviação
Vamos, Localiza, Movida, Simpar, Azul e EcoRodovias estão entre os beneficiados pelo juro e pelo câmbio. Passagens aéreas subiram 9,66% no IPCA, e o diesel, 1,69%. Com Brent acima de US$ 105, custo de combustível segue o principal risco. Contratos devem manter gatilhos de combustível.
Pequenas empresas, fintechs e crédito
O programa de R$ 12,6 bilhões e o Desenrola 3.0 revelam estresse real nas pequenas empresas. Para fintechs, funding alto exige melhor subscrição, cobrança e prevenção a fraude; para bancos, a compra de dívida de MEIs com desconto de 90% reorganiza o estoque de crédito ruim.
Tecnologia, saúde e educação
Beneficiadas pelo juro: RD Saúde e Smart Fit foram citadas pelo JPMorgan, e saúde e educação pelo UBS. Em tecnologia, o ponto é externo: a ata do Fed e o FMI tratam a expansão da IA como fonte de inflação e de risco de correção, e o Fundo lista o ciberataque como possível gatilho sistêmico. A oportunidade brasileira está em aplicações que reduzam imediatamente custo, erro, prazo e pessoal administrativo; em energia, os data centers continuam exigindo geração, transmissão e armazenamento, com a matriz renovável do Brasil como vantagem, desde que rede e licenciamento acompanhem.
Defesa, mineração crítica e reestruturação de ativos
Guerra prolongada, drones e ataques marítimos sustentam a demanda por defesa e ciberdefesa. Níquel, cobre, grafite e terras raras são cada vez mais estratégicos, e o caso Anglo American mostra o risco de vender ativos sem processamento local. Em reestruturação e M&A, juros menores não eliminam passivos acumulados: ativos que sofreram entre 2024 e 2026 em varejo, indústria, saúde e construção continuarão chegando ao mercado, favorecendo capital paciente.
Indústria de transformação
O segmento mais pressionado: demanda fraca, juro alto e concorrência chinesa com exportações 36,3% maiores. Embraer (−3,31% em 5 de outubro) é exceção na pauta: o Morgan Stanley a mantém seletivamente.
Cenários para os próximos 90 dias: dólar, juros e bolsa
As probabilidades são cenários analíticos de planejamento. Em relação à edição anterior, a soma dos cenários em que Flávio vence passou de 60% para 68%, reflexo do Datafolha e da AtlasIntel.
Cenário A — Vitória e ajuste confiável (45%)
Flávio vence em 25 de outubro, anuncia equipe de credibilidade e o Congresso aprova agenda fiscal. O Fed mantém em outubro e o CPI não frustra.
• Mundo: custo de capital estável; commodities agrícolas voláteis.
• Brasil: câmbio entre R$ 4,70 e R$ 5,05; Selic em 13,25% ou menos em dezembro; Ibovespa testando 220 mil a 250 mil pontos.
• Vencedores: bancos, varejo, construção, utilities, saneamento, transporte.
• Perdedores: exportadoras de commodities, dependentes de subsídio.
Cenário B — Reversão no segundo turno (22%)
Lula recupera votos nos debates e vence. O mercado devolve o prêmio de 8,82% da semana.
• Brasil: câmbio de volta a R$ 5,40–5,70; DI longo reabre; Ibovespa abaixo de 190 mil.
• Vencedores: exportadoras com receita dolarizada, mineração, papel e celulose.
• Perdedores: bancos médios, varejo alavancado, incorporadoras, concessionárias.
Cenário C — Vitória sem plano crível (23%)
Flávio vence, mas a equipe demora e o orçamento de 2027 trava entre promessa e aritmética.
• Brasil: rali inicial com devolução parcial no primeiro trimestre; câmbio de R$ 5,00 a R$ 5,35; Selic cede devagar.
• Vencedores: ativos de qualidade, caixa e setores regulados.
• Perdedores: posições alavancadas na tese de ajuste rápido.
Cenário D — Choque externo (10%)
CPI forte reacende alta em outubro, o Fed sobe em dezembro, ou Ormuz e Mar Vermelho produzem nova interrupção.
• Mundo: dólar forte, saída de emergentes, Brent acima de US$ 120.
• Brasil: o resultado eleitoral deixa de ser a variável dominante; câmbio acima de R$ 5,60 e Copom impedido de cortar.
• Vencedores: petróleo, defesa, ouro.
• Perdedores: transporte, aviação, varejo, indústria.
Cenário
Prob.
Câmbio implícito
Posicionamento
A — Vitória e ajuste confiável
45%
R$ 4,70–5,05
Domésticas cíclicas e bancos
B — Reversão no 2º turno
22%
R$ 5,40–5,70
Receita dolarizada e caixa
C — Vitória sem plano crível
23%
R$ 5,00–5,35
Qualidade e setores regulados
D — Choque externo
10%
acima de R$ 5,60
Commodities e liquidez
Cenários globais, independentes da eleição
Cenário
Prob.
Gatilhos
Efeito no Brasil
Base: adaptação cara e juros restritivos
45%
Brent de US$ 95 a US$ 110; Ormuz sob risco; Fed pausa e mantém opção de alta
Selic cai devagar; inflação acima de 5%; liquidez e produtividade como prioridade
Benigno: descompressão energética
20%
Ataques diminuem; Brent a US$ 80–90; diesel melhora
Espaço para cortes maiores em 2027; ganham varejo, construção e aviação
Adverso: escalada energética
25%
Irã e houthis intensificam; Brent acima de US$ 120; Fed volta a subir
Subsídios pressionam o fiscal; Copom pausa; sofrem transporte, indústria e varejo
Financeiro: correção no ciclo de IA
10%
Capex questionado; yields altos; ações corrigem
Câmbio e fluxo sofrem; empresas capitalizadas compram ativos
Agenda executiva
• 14/10: CPI americano de setembro, votação da PEC 6×1 em plenário no Senado e Pesquisa Mensal de Serviços de agosto. Núcleo acima de 2,5% reacende a alta em outubro.
• 15/10: índice de preços ao produtor e vendas no varejo nos Estados Unidos; vendas do varejo brasileiro de agosto.
• 18/10: debate da Band, com Lula presente e Flávio anunciando ausência.
• 23/10: debate da Globo, o último antes da votação.
• 25/10: segundo turno.
• 28/10: decisão do Fed.
• 3 e 4/11: eleições de meio de mandato nos EUA e reunião do Copom.
• Meados de novembro: revisão das cotas de 2027 da OPEC+.
• 8/11 (aprox.): fim dos 30 dias da desoneração da gasolina, sujeita a prorrogação.
• 1º/12: meta de entrada em vigor das salvaguardas europeias sobre importações chinesas.
• 29/11: eleição antecipada na Espanha.
• 10/1/2027: fim da trégua tarifária EUA–China.
As ações práticas continuam as mesmas, com três acréscimos desta semana: simular o impacto da jornada de 40 horas sobre escalas e quadro; modelar combustível sem subsídio, olhando o diesel separado do Brent; e mapear a exposição à China como cliente, fornecedor, concorrente e investidor. Permanecem: testar o balanço a R$ 4,70, R$ 5,20 e R$ 5,60; manter gatilhos contratuais de combustível; regionalizar o planejamento de safra e energia pelo El Niño; não antecipar corte de Selic com base na curva; e revisar limites de crédito.
Perguntas frequentes
Quem lidera as pesquisas de segundo turno?
Flávio Bolsonaro, com 52% dos votos válidos no Datafolha e 52,8% na AtlasIntel, contra 48% e 47,2% de Lula. A eleição é em 25 de outubro.
Por que o Ibovespa bateu recorde?
O mercado interpretou o primeiro turno como favorável a uma agenda fiscal mais dura. O índice chegou a 209.066,90 pontos em 9 de outubro, com alta de 8,82% na semana.
A inflação no Brasil subiu?
Sim. O IPCA de setembro foi de 0,82% e o acumulado em doze meses, de 4,58%. O Focus projeta 5,22% para 2026.
O que muda com a licença para diesel russo?
O Tesouro americano autorizou até 7 de abril de 2027 transações de diesel russo. O impacto imediato tende a ser limitado por capacidade de refino e logística.
O que muda para as empresas com o fim da escala 6×1?
A PEC prevê 40 horas semanais em cinco dias, sem corte de salário, com transição de 42 horas e depois 40 horas em 14 meses após a promulgação. O Senado vota hoje em primeiro turno; a conclusão pode ficar para depois de 25 de outubro.
O que o FMI diz sobre a inteligência artificial?
Que ela sustenta a projeção de crescimento mundial de 3,1% e, ao mesmo tempo, concentra risco financeiro: cerca de US$ 950 bilhões de capital e dívida ligados a US$ 1,4 trilhão de receitas futuras prometidas.
O Fed vai subir juros em outubro?
O mercado aponta cerca de 80% de chance de manutenção em 28 de outubro, mas 16 de 18 dirigentes projetam mais uma alta em 2026.
Conclusão: o que onze dias podem e não podem mudar
A semana teve um enredo simples. O mercado brasileiro, depois de um primeiro turno que o surpreendeu, concluiu em dois pregões que o próximo presidente seria Flávio Bolsonaro e passou a cobrar do futuro o que ainda não foi entregue. As pesquisas de Datafolha e AtlasIntel deram suporte a essa leitura, e a rotação dos grandes bancos de investimento a consolidou.
O problema é a assimetria entre o preço e a prova. O IPCA subiu mais que o esperado, o Focus elevou a inflação e cortou a expectativa de queda da Selic, o FMI e o Banco Central reduziram o crescimento e o déficit do setor público segue próximo de 10% do PIB. A equipe que deverá enfrentar tudo isso não está escolhida.
Lá fora, o contexto não ajuda. O Fed discute outra alta, o Tesouro americano a 5,20% mantém o custo de capital mundial elevado, o diesel russo reabre uma válvula sem fechar a de Ormuz e o El Niño ganhou o selo de “histórico”. Ao mesmo tempo, a China exporta 36% mais, e a carne brasileira já sente a salvaguarda.
Há uma palavra a acrescentar à sequência que esta série vem repetindo. Primeiro foi caixa, depois resiliência, depois opcionalidade. Agora é preciso somar produtividade, porque redundância custa, estoque de segurança custa, fornecedor alternativo custa, cibersegurança custa, e capital e energia custam. A única forma sustentável de financiar a resiliência é produzir mais valor por real, por hora trabalhada e por quilowatt empregado.
A recomendação que este relatório sustenta desde agosto ganha mais peso. O ativo mais valioso do momento é a estrutura que sobrevive aos dois resultados. Em 25 de outubro, metade do mercado errará. A pergunta para cada empresa é se consegue continuar operando caso esteja na metade errada.
Lista de fontes
Órgãos oficiais e estatísticas primárias
• Tribunal Superior Eleitoral — Apuração do primeiro turno e calendário do segundo turno
• Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IPCA de setembro de 2026
• Banco Central do Brasil — Boletim Focus de 13 de outubro; Relatório de Política Monetária
• Câmara dos Deputados e Senado Federal — Tramitação da PEC 221/2019 (fim da escala 6×1)
• Agência Internacional de Energia — Oil Market Report de outubro de 2026
• OPEP — Relatório mensal de 13 de outubro
• Fundo Monetário Internacional — World Economic Outlook de outubro de 2026
• Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — Balança comercial de setembro
• Federal Reserve — Ata do FOMC de 15 e 16 de setembro
• NOAA/Climate Prediction Center — Atualização de El Niño de 8 de outubro
• Tesouro dos EUA (OFAC) — Licença geral para diesel russo
• B3, ICE e NYMEX — Cotações de fechamento
Imprensa, pesquisa e análise
• CNN Brasil — Datafolha e AtlasIntel de segundo turno
• InfoMoney — Fechamentos do Ibovespa, rotação setorial, IPCA e ata do Fed
• Suno, Money Times, SpaceMoney e Agência Brasil — Mercado e petróleo
• Bloomberg Línea — Nomes cotados para a equipe econômica
• Metrópoles e Terra — Debates e posição dos candidatos derrotados
• CNBC, FXStreet e Weather.com — Tesouro, CPI e El Niño
• O Povo, AFP e O Econômico — JPMorgan, Ormuz e diesel russo
• Boca e Suno — Comércio com a China e frigoríficos
• CartaCapital — Medida Provisória 1.395 e subsídios a combustíveis
• O Povo — Pacote para MEIs
• Forbes Brasil e Somos Notícia — Propostas econômicas da campanha de Flávio Bolsonaro
• Revista Mineração e Kitco — Anglo American e MMG
Análise econômica citada
• MA7 Capital — André Matos
• Morgan Stanley, JPMorgan e UBS — Estratégia para ações brasileiras
• KCM Trade, ING e Société Générale — Petróleo e inflação americana
Dados para publicação no blog
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• Meta descrição sugerida: Panorama semanal de 5 a 14/10/2026: pesquisas Datafolha e AtlasIntel, Ibovespa a 209 mil pontos, IPCA de setembro, ata do Fed, diesel russo, El Niño e cenários com probabilidades para empresas brasileiras.
• URL sugerida: /panorama-economico-semanal-14-outubro-2026
• Palavras-chave: eleições 2026, segundo turno, Ibovespa recorde, dólar, Selic, IPCA, Fed, diesel russo, El Niño, carne bovina China

